É hora de cerrar os punhos, Raduan

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Há um clima de irritação e de desalento no ar. De estupefação com o acelerado processo de deterioração da democracia brasileira, junto com uma indagação sem resposta: como pode ter chegado a isto? Augusto de Campos, poeta concretista, fez 90 anos e manifestou seu profundo desalento com o país. A cantora Maria Bethânia voltou à cena com um show magistral e disse com tristeza que não queria mais falar de Brasil, porque lhe dá vontade de chorar. Raduan Nassar, o escritor, segurando um copo de cólera, disse que estamos vivendo uma tragédia, mas temos que resistir.

Do outro lado da cerca, dezenas de milhões de pessoas não têm o que comer, encontram-se na mais extrema situação de insegurança alimentar, escreveu a economista e professora classificada de liberal Monica de Bolle. Ela fez um apelo ao ministro decorativo da economia, exigindo a concessão urgente do auxílio de emergência aos que estão na miséria absoluta. Se os argumentos técnicos não são suficientes, disse ela, é preciso resgatar um mínimo de decência na política pública. O problema, Mônica, é que a fome do mercado é outra e eles não exercitam o uso da decência.

Sim, Raduan, há que resistir, entregar os pontos jamais, mas a quem se dirigir? Ao Congresso, ao Judiciário, à imprensa, às redes sociais, às cortes internacionais, às ruas, às armas, cidadãos? No país de Bolsonaro nada mais funciona, não há vacina e não há decência, todas as atividades foram contaminadas pelos vírus da estupidez, do engodo e da mentira, que se multiplicam. É como se tivessem reunido a banda e tocado o foda-se. Uma situação aterradora, nunca vista, de um país tomado por um grupo de fanáticos.

Em dois anos essa aberração foi se estabelecendo para espanto de muita gente, inclusive dos que apoiaram o clima de ódio espalhado pelo capitão de bravatas, com medo de uma alardeada república comuno-petista. A aberração se sustenta em dois polos: militares e milicianos armados, de um lado; e de outro, o insaciável Centrão e a mão invisível do mercado. Neste reino do absurdo, o capitão desempenha o papel de um déspota. Tripudia sobre as leis e as pessoas, e trabalha com afinco para ser de fato um ditador, sem precisar dar satisfações de seus atos a ninguém.

Está claro, Raduan, que precisamos cerrar os punhos e devolver ao poeta Augusto o desejo de voltar a criar, a inspiração para rabiscar seus versos na folha de papel em branco. E ao mesmo tempo transformar a tristeza de Bethânia em motivo de júbilo, para que ela volte a cantar com alegria. Por enquanto, está impossível. Olhando do alto, tudo parece fantasmagórico e surrealista. Não o surrealismo dos filmes do Buñuel, com o qual nos divertíamos, mas um surrealismo agressivo e de componentes grotescos, que fere as pessoas.

O que temos de concreto então, poeta desencantado, é que este país virou uma espécie de aldeia medieval em que seus governantes celebram o racismo, o estupro, a tortura e o desemprego. Em que não há vacina para os idosos e falta oxigênio nos hospitais para atender as pessoas infectadas pelo vírus. A pandemia nos mascara e aprisiona, dificultando a mobilização para deflagrar um motim cívico, que expulse do navio os piratas, ratos e os morcegos. Os tais neandertais que exercem o poder com a tática de fabricar sucessivas crises em busca do caos.

Pois agora, Monica, o celerado encenou um ataque ao mercado, a isso que é considerado sagrado no mundo neoliberal. Interveio de forma inopinada na Petrobras - sempre ela! - e afastou seu presidente, Roberto Castello Branco. Acusou-o de não trabalhar – há onze meses não aparece no histórico prédio da avenida Chile, sede da empresa, e de ter elevado de forma estratosférica seus ganhos e dos membros do conselho. E mais grave, de servir apenas a pequenos grupos de investidores, aqui e no exterior.

Fez um discurso aloprado em que recuperou o lema nacionalista “O petróleo é nosso”, criado por Getúlio Vargas na década de 1950. Como você pode imaginar, criou uma enorme confusão e recebeu uma resposta fulminante. Vargas brincava com os sindicatos, que é composto de homens reais. Com essa entidade invisível não se brinca. Em dois dias o mercado mostrou seus tentáculos e tirou 30% do valor da empresa.

Bolsonaro desceu do cavalo e recuou com novas promessas aos verdadeiros donos da Petrobras hoje. Os preços dos derivados continuarão a ser fixados nos mercados de Londres e Nova York. O nosso petróleo, com o qual Getúlio sujou as mãos em foto histórica da campanha, tornou-se deles.

Por toda essa tragédia, Raduan, não podemos entregar os pontos. Por enquanto faz de conta que o Brasil é um país. Não houve carnaval, mas vem aí a quaresma, momento ideal para propor a convocação de um grande mutirão nacional com vistas a debater a formação de uma frente de oposição. Somos maioria, de punhos cerrados seremos mais fortes. Como escritor, você sabe que reconstituir a crença das pessoas na verdade e na história será um longo processo. Mas temos que começar.

*Jornalista e escritor