Se aqui estivesse, Silveira mandaria reescrever este texto

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José Silveira foi um tipo exemplar de jornalista e inesquecível como pessoa. Tinha cara de mau, mas era dócil, generoso e bem humorado. Profissional da cozinha, a retaguarda do jornal, geralmente desconhecido do leitor e do público, pertence ao grupo que tem a responsabilidade de planejar e editar o jornal que vai para a rua. Rigoroso e exigente com o texto, visão aberta e livre de preconceitos, transformou seu ofício numa arte, a qual serviu com competência, talento, meticulosidade e paixão. Silveira morreu no Rio, semana passada aos 87 anos, de pneumonia bacteriana agravada pela Covid.

Fez carreira nos principais diários do país. De minha parte, considero esse gaúcho da fronteira o melhor entre todos os profissionais que encontrei numa redação de jornal, ao longo de mais de 30 anos. Sua morte, estranhamente, quase passou em branco na imprensa escrita que ele tanto valorizou, não fosse uma nota no Ancelmo Gois, O Globo e a coluna dominical de Sérgio Augusto, no Estadão, que o apresentou ao leitor ao lado de outro Silveira, o sergipano Joel, este, um grande repórter.

Silveira, o José, não parecia o que era. Vestia-se com total simplicidade, um terno cinzento e a gravata afrouxada no pescoço. Bastava, no entanto, sentar-se com ele na mesa da redação ou de um bar para constatar que possuía uma vasta cultura, versado em letras germânicas e um humor mordaz, que podia intimidar o interlocutor. Aprendi muito com ele, especialmente sobre a segunda fase da operação jornal, o fechamento. Ensinava os mais jovens, às vezes com certa indelicadeza quando se deparava com um clichê ou expressão surrada. Uma vez rasgou a lauda na frente do repórter e mandou-o reescrever, ao ler que ele havia escrito “esculápio” para não repetir a palavra médico.

Representante exemplar de uma classe de jornalistas em extinção, o gaúcho formou gerações de profissionais e esteve na linha de frente de reformas modernizadoras nos principais jornais do país, entre eles o Jornal do Brasil, a Folha de S. Paulo e a Última Hora. Integrante de um seleto grupo de jornalistas que sabia pensar, planejar e editar o jornal no conjunto de sua operação. Exigia-se, sobretudo rapidez e talento na arte de reelaborar, cortar e compactar textos, titular, escolher fotos, legendar. Silveira era um destes, dotado simultaneamente de conhecimento jornalístico e de uma visão espacial e artística de composição da página.

Trabalhei com ele em três momentos. No JB, década de 1960, Sucursal Rio da Folha, década de 80 e Última Hora, nossa derradeira aventura de transformação de um jornal, um projeto de mudança gráfica, de conteúdo e de público, que não deu certo. Ary de Carvalho, o dono, não bancou e a experiência foi interrompida. Poderia citar também um passagem pouco conhecida de sua carreira, o jornal brizolista O Panfleto, semanário porta-voz da Frente de Mobilização Popular e da Frente Parlamentar Nacionalista, dirigido por Paulo Schilling, que chegou às bancas em fevereiro de 1964 e com o golpe durou apenas 41 dias. Estudante, eu passava na redação para pegar pautas.

No admirável JB da avenida Rio Branco fiz meu aprendizado de foca ainda fazendo faculdade. No primeiro dia peguei minha pauta, saí para a rua com o fotógrafo e ganhei uma primeira página, sob as ordens de Jaime Negreiros, chefe de reportagem. Silveira era o Secretário da redação, chefe de uma respeitada e temida equipe de copy que reescrevia, titulava e fazia a chamada dos textos para a capa. O repórter, muitas vezes, não reconhecia seu próprio texto no dia seguinte.

Na Folha, chamado para participar de uma reforma e dirigir a sucursal do Rio, me levou para chefiar a redação. O jornal liderou a campanha das “Diretas Já” e cresceu sua circulação ponto der planejar o lançamento de uma edição carioca, Na dia a dia da sucursal, pude conhecê-lo melhor. Logo que assumimos, ele recebeu uma ligação do editor-chefe Boris Casoy, que indagou. “Soube que você tem um ex-presidiário em sua sua equipe”, referindo-se aos meus três anos de cárcere na ditadura. Silveira cortou. “Não, tenho um profissional de qualidade”.

Um dia aproximou-se de minha mesa e entregou uma circular dirigida à redação. Dizia. “Trabalhamos num jornal em que não há censura. Em contrapartida, é preciso que sejamos verdadeiros. Reitero o compromisso que temos com a verdade. Não se quer o fato sensacional, exige-se o fato verdadeiro. O noticiário exige que sejamos concisos, objetivos e verazes. Que usemos as palavras no seu sentido exato. Que evitemos palavras estrangeiras, gírias, lugares-comuns, e expressões chulas”

Atento aos detalhes, apresentou uma primeira lista de expressões a serem banidas dos textos. “Estou interessado em que esta sucursal seja reconhecida, sem prejuízo da ousadia, pela precisão da informação transmitida.” A seguir, enumerava uma série de expressões, gírias e lugares comuns nas redações. Proibiu o uso de “fonte”, recurso usado pelo repórter para esconder a autoria da informação, “uma praga dos tempos da censura. Fonte não fala, fornece água, algumas são luminosas”.

Entre suas implicâncias estava o uso da denominação de “matéria” para os textos jornalísticos. “É muita pretensão acharmos que fazemos matéria. Quem fez, no sétimo dia, descansou. Fazemos notas, reportagens, textos, artigos, editoriais, crônicas e até poemas. “Matéria”, como “retranca” é de uso estritamente interno.”

A síntese dos talentos de José Silveira, que procurei apresentar neste perfil, está num texto de autoria do teatrólogo Flávio Rangel, que integra a edição extra do jornal feito por seus colegas da sucursal Rio da Folha por ocasião de seus de 50 anos, comemorados com uma grande festa na gafieira Estudantina. Flávio e Tarso de Castro, colunistas do jornal, foram também colunistas da edição especial, cuja manchete foi “Silveira para a imprensa em seus 50 anos”.

Se aqui estivesse ele iria mandar reescrever esta “matéria”, por considerá-la parcial e tendenciosa. Muito a favor do personagem. Mas numa coisa o “seu” Zé perdeu, matéria vulgarizou e entrou para o vocabulário das ruas.

*Jornalista e escritor