Carta aberta aos desaparecidos Mário e Rubens

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Escrevo esta crônica para mandar um abraço a dois brasileiros desaparecidos há 50 anos, completados neste mês de janeiro, não importa onde estejam. Não é que eles tenham saído por aí levando um violão debaixo do braço, como no samba de Zé Keti, homenageado este ano por seu centenário. Mário e Rubens desapareceram nas engrenagens massacrantes de um país ditatorial, e até hoje estão perdidos nos escombros deste mesmo país. Pertencem a uma mesma geração, a que combateu nas trevas. Em alguns momentos cruzei com eles nesta atormentada travessia, e pude testemunhar o discernimento intelectual e a coragem política com que se entregaram às suas ideias de justiça e transformação social.

Aproveito essa crônica para revelar que estou também lhes enviando uma carta. Poderia tentar um contato mais rápido, via email ou uma mensagem de WatsApp, mas os dois não chegaram a este tempo de manejar computadores e celulares. Todavia, não tenho o endereço. O último que possuo é o de um quartel do Exército na Tijuca, que continua em poder de seus antigos proprietários. Sei o endereço, estive lá duas vezes. Barão de Mesquita, 457. O problema é que os militares jamais reconheceram Rubens e Mário como seus hóspedes, e vão devolver prontamente a correspondência.

A solução que encontrei foi imprimir o texto, colocá-lo dentro de um antigo envelope azul de uso dos Correios, fazer a subscrição e enfiar a carta dentro da garrafa de um Primitivo de Puglia, um tinto italiano do especial agrado de ambos. Feito isso, fui até o alto das pedras do Arpoador de onde joguei a miraculosa garrafa nas águas do mar, convencido de que Iemanjá a levará a seu destino. Rubens vai gostar porque morou ali pertinho. Seus filhos iam à praia naquele ponto do Castelinho, em Ipanema.

O baiano Mário, nascido em 1923 nas barrancas do São Francisco, na pequena cidade de Santo Fé, norte da Bahia, estaria fazendo 97 anos. Jornalista, formado em Ciências Sociais e militante político desde a adolescência, desapareceu aos 47 anos, em janeiro de 1970, um ano antes e no mesmo sumidouro de vidas que tragou Rubens. Engenheiro civil e político, o paulista de Santos foi eleito deputado federal pelo PTB de São Paulo em 1962. Homem forte e saudável, Rubens estaria chegando aos 92 anos. O Estado brasileiro o tornou desaparecido aos 41.

Seus amigos sabiam que tanto Rubens quanto Mário gostavam de ler e tinham o poeta chileno Neruda e o escritor baiano Jorge Amado, ambos comunistas, entre os seus autores preferidos. Rubens era desinibido, alto, esportista. Praticou natação, teve aulas de piano, mas não se entusiasmou. Formou-se em engenharia civil pela Universidade Mackenzie. Foi vice-presidente da UEE, militou no movimento estudantil e agitou na campanha do Petróleo é nosso. Eleito deputado federal em 1962, foi cassado em 64 por discursar na Câmara convocando estudantes e sindicalistas a resistirem ao golpe.

O baiano Mário é considerado um tanto precoce por historiadores. Começou cedo a usar calças compridas e terno e gravata, Era um jovem tímido, míope, não tirava as moças para dançar nos bailes, aprendeu e gostava de tocar violão. Disciplinado e estudioso, aos 16 anos já era militante, aos 18, repórter do Estado da Bahia. Num ritmo veloz, tornou-se um dos mais destacados intelectuais e dirigentes do PCB nas décadas de 1950 e 60. Tradutor, polemista, uma parada dura numa discussão política, rompeu com o Partidão em 67. Junto com Apolônio criou uma organização para fazer a luta armada

Os dois não tiveram tempo para andar até a próxima esquina e entrar num botequim qualquer, seguindo a voz do morro de Zé Keti. Sua trajetória foi interrompida bruscamente. Aprisionados em emboscadas, foram eliminados em dois dos crimes mais ferozes praticados naquele quartel da Tijuca. Crimes que se assemelham aos cometidos pelo regime nazista. Com a diferença de que os oficiais alemães foram julgados em Nuremberg, e os brasileiros, conhecidos e identificados, foram anistiados.

Do ponto de vista literário, o inacreditável desaparecimento de dois homens íntegros e reais, de destacada projeção social, cria uma situação típica de literatura fantástica, que combina a magia com o surrealismo e o terror, Kafka e Borges seriam os mais indicados para tratar do tema. Em sua ficção, Borges teceu uma história universal da infâmia e apresentou uma galeria de facínoras. Kafka, com sua poderosa imaginação, criou em suas novelas processos absurdos e surreais, a ponto de um homem ser preso por nada, sem nenhuma acusação, e de transformar outro numa barata.

Mário Aves de Sousa Vieira, o Vila, foi preso por comandos do Exército armados com metralhadoras na noite de 16 de janeiro de 1970, quando cobria um ponto de rua com um companheiro que já se encontrava preso, no bairro de Cascadura, Zona Norte do Rio. Estava desarmado e portava apenas uma pequena pasta. Com salvas de comemoração, os agentes o levaram para o 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca.

Rubens Beyrodt Paiva teve sua casa em Ipanema invadida por militares da Aeronáutica à paisana, armados com metralhadoras, em 20 de janeiro de 1971. Saiu de casa dirigindo seu próprio carro, comboiado pelos agentes da repressão. No dia seguinte foi conduzido para o mesmo quartel da Tijuca. Com um ano de diferença, o deputado e o dirigente político foram torturados e assassinados na mesma sala do corredor do andar térreo, por oficiais do Exército integrantes de um órgão terrorista denominado Doi-Codi.

Seus cadáveres desapareceram. Seus rostos e suas vidas continuam presentes nos livros, na memória de familiares e amigos, no violão e voz de Léo, filho de Lúcia, neto de Mário. Nos textos de Marcelo, escritor e jornalista, filho de Rubens, 11 anos na época. Os assassinos foram denunciados pelo MPF por associação criminosa, sequestro e ocultação de cadáver. Homicídio qualificado por tortura não prescreve, segundo Convenção Internacional do qual o Brasil é signatário. A anistia não contempla o crime de ocultação de cadáver, considerado de caráter permanente e imprescritível.

O que isso tem a ver com Brasil de hoje, hão de perguntar os jovens que se preparam para fazer as provas do Enem, em meio à balbúrdia criada pela incompetência dos burocratas? A resposta pode ser encontrada na apresentação da jovem poeta e ativista negra, Amanda Gorman, 22 anos, na posse de Joe Biden. Recitou ela: “Embora olhemos para o futuro/A história está de olho em nós.” A atordoante história dos desaparecidos está de olho em nós, e poderia ser uma das questões da prova do Enem.

*Jornalista e escritor