Tortura, mentiras, sadismo e mistificações

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Estela parou de respirar por um momento até ter certeza de que ninguém se mexia nas sombras. Alguns dos homens haviam se afastado, talvez para comer um sanduíche no corredor. Sentiu falta de ar, como se o coração fosse parar de bater. Tentou entender o silêncio repentino até que a porta se abriu de novo e entrou um homem de uniforme verde-oliva, coturno alto, com voz de chefe. Perguntou: “quem é esta mulher deitada no chão?” Ela estava nua, encolhida, os joelhos dobrados, havia sangue em volta de sua cabeça.

Peças de vestuário feminino pendiam em cima de um cavalete encostado na parede, com duas ripas de madeira ao lado. Por baixo de uma calça jeans desbotada, via-se uma camiseta vermelha e uma calcinha rendada bege, que se embolavam. Um dos presentes se adiantou e respondeu: “É a Estela. É durona, não quer falar. Inventa histórias, conta mentiras”. O tenente Messias chutou as costas da moça e transmitiu uma ordem de que vamos começar tudo de novo. “Me traga a ficha dela.”

Estela é mineira, tem 21 anos, foi presa num ponto de rua, envolvida com uma organização de guerrilha. Conserva uma carinha de adolescente, com os cabelos encaracolados. O tenente encarou seu rosto deformado e constatou que ela havia levado golpes na mandíbula. A arcada dentária entortara, contorcendo-se para o lado. Um dente ficou dependurado dentro de sua boca. Perturbado com a visão, ele completou o serviço desferindo um soco, que fez com que o dente avariado da guerrilheira saltasse e caísse em cima de seu coturno.

Impelido por sua própria ação, soltou um grito de que queria agora, frisou o agora, sem perda de tempo, o endereço do Pezzuti, o nome mais falado durante toda a sessão. O tempo é uma questão fundamental na tortura. Antes, emendou: “Afinal, quantos codinomes você usa, sua puta?” Tomou a cabeça da prisioneira entre as mãos, sacudiu-a, e mandou trazer a maquininha de choques. Vanda fixou os olhos na cara do homenzinho asqueroso à sua frente. Não iria jamais se esquecer daquela pele engordurada, com uma mecha de cabelos caindo na testa.

Na primeira rodada da manivela, com um dos fios amarrados no bico do seio direito e o outro no mindinho do pé esquerdo, o corpo de Estela foi sacudido pela alta voltagem do choque. Uma baba de sangue escorreu pelos cantos de sua boca, e ela desmaiou. Cinco homens se juntaram para arrastá-la para um canto da sala, embaixo de uma veneziana. Tempos depois ela acordou, contemplou confusamente o ambiente, banhado por uma luz fosca. Notou um molho de chaves em cima de uma poltrona imunda na extremidade do aposento, ao lado de uma porta entreaberta.

De lá, porta de entrada de um pequeno banheiro, saía uma claridade amarelada e um cheiro desprezível. Controlando a dor e a impaciência, viu que haviam deixado dois maços de cigarros em cima de uma mesinha, um fechado e o outro aberto, e guimbas espalhadas pelo chão. Ao lado, uma garrafa de vodca polonesa vazia. Teve náuseas ao sentir um cheiro forte de suor e de fósforo queimado.

Não havia mais nada. Começou a se mover sobre o piso esburacado, envolta numa quietude sossegada, sentindo o contato da palma da mão com a saliência áspera do cimento corrido. Acalmando-se e excitando-se alternadamente, a cada intervalo, toda vez que sentia a respiração arfar. Percebeu que o tempo, finalmente, podia ser seu aliado. Vanda tinha 21 anos e acabara de adquirir marcas para o resto de sua vida. Sentiu que estava envelhecendo. E entrou em vigília novamente.

Ouviu sua própria voz lhe dizer que a pior coisa é esperar por tortura. O interrogador que te põe em suspense e anuncia sua volta daqui a pouco, para te pegar novamente. Recapitula o chão do banheiro nojento, o azulejo branco coberto por crostas de sangue. Ouve o relato de hemorragias dolorosas, uma no útero que varou a noite. Até que alguém trouxe um comprimido e depois deram uma injeção. O ritmo de uma sessão de choque passando para o pau de arara. E aqueles golpes seguidos na mandíbula! Tu não distinguias se era dia ou noite. Baixou um estresse feroz. A pele tremeu de medo.

Estudioso do tema da tortura, que dissecou em sua tese de mestrado na PUC/SP, o psicólogo e professor Alfredo Naffa Neto diz que a primeira indagação que cada prisioneiro se faz é: Sairei vivo desta experiência? Naquele espaço se trava uma luta mortal, vida e morte se alternam, revelando seus múltiplos sentidos, desde a dimensão biológica até a mais simbólica, escreveu em seu livro Poder, vida e morte na situação de tortura.

Anos mais tarde, os destinos do tenente Messias e da guerrilheira Estela voltaram a se cruzar, eleitos que foram presidentes de um malsinado país com população de maioria negra na América do Sul. Num histórico depoimento no Senado, Estela confirmou para um senador babaca de nome Agripino, que a acusara de mentir na ditadura, que havia mentido sim. Dizer a verdade para o torturador significa por em risco a vida de outras pessoas, disse ela elevando a voz.

Agindo sempre como um policial a serviço do submundo da repressão, o Messias presidente nega a tortura durante a ditadura. Conhece em detalhes tudo o que se passou nos porões, de corpo presente ou não em casa sessão, para deleite de seu próprio e sádico prazer. Em seu último lance de mistificação da História, pediu que lhe trouxessem o raio-X da mandíbula fraturada de Vanda. Queria ver a marca do calo ósseo deixada pelo soco que desejava ter desferido.

Falsifica a memória num jogo de espelhos que pode conduzir a uma nova ditadura nesta malsinada República, seguindo o caminho aberto por seu amigo supremacista branco de índole fascista, que se recusa a deixar seus aposentos na Casa Branca.