Umbandistas, espiritas, católicos...
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Hoje vamos com o trabalho da cantora, compositora e sambista paulistana Grazzi Brasil, que agora lança o seu projeto completo, Na Gira (selo Londu Music). Um álbum e um DVD de fôlego, no qual ela reafirma sua conexão com a ancestralidade, a cultura afro-brasileira e o samba.
Com direção e produção musical de Leàndro Máttos, direção artística de Cris Casagrande, em Na Gira sobressai a visão da Umbanda, sim. Mas parece abrir caminho para a diversidade da religiosidade dos brasileiros, com seu sincretismo e o desejo de proteção à própria essência vital.
Gravado ao vivo, do repertório brota o fogo que conflagra cérebros e almas, ávidos de respostas aos mistérios avoengos. Mas será que a todos os credos, as músicas e os significados de Na Gira satisfazem os anseios por explicações divinais? Não sei, mas que merecem ser respeitadas, não tenho dúvida.
Com voz poderosa, em meio aos cantos e ao bater dos tambores, Grazzi Brasil exala verdades. Com os arranjos de Leàndro Máttos, o núcleo percussivo (Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone), encontra o cavaquinho de Emerson Bernardes e o violão 7 cordas de Rodrigo Carneiro e, encorpados pelo trombone e pelo flugelhorn de Ed trombone, agem como um poderoso lenitivo para os que carecem de respostas e não as encontra na crueza do mundo real.
Repertório:
Parte 1: Na Gira foi inspirado na organização simbólica das giras de Umbanda. A primeira parte representa o chamado “povo da direita”, reunindo canções dedicadas aos Orixás, Pretos-Velhos, Marinheiros, Baianos e linhas associadas à luz, ao acolhimento, à cura e à elevação espiritual. Após minha audição, indico algumas faixas: “Opará” (Grazzi Brasil e Mayara Costa): participação Mayara Costa; “Benção de Orixá” (Grazzi Brasil); “Vovó Maria” (Deny Alves, Marquinhos Jaca, Reinaldinho e Vagner Almeida) e “A Baiana Deu Sinal” (Domínio Público).
Parte 2: aqui o projeto trata das entidades tradicionalmente associadas ao “povo da esquerda”: Exus, Pombas-gira e Exus-Mirins, personagens das religiões afro-brasileiras, usualmente incompreendidos fora dos terreiros, mas responsáveis pela abertura de caminhos, amparo e equilíbrio das energias. Novamente, segundo minha audição, aqui vão algumas dicas: “Ela É de Oyá” (Sandro Luiz): participação Sandro Luiz; “Santo Antônio Pequenino” e “Exú Mirim” (Domínio Público); “Doi Dói” / “Arreda Homem” / “Pombagira Cigana da Estrada” / “Malandrinha do Cais” e “Barraca Velha” (Domínio Público).
Na Gira é um projeto a ser conhecido, ouvido com atenção e propalado aos quatro cantos. Graças à sua musicalidade, pode contribuir para, ao menos, amenizar as incompreensões que marginalizam as mulheres e o povo preto da umbanda, além de buscar a solidariedade de todos os credos que praticam o sincretismo religioso no Brasil.
Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.
Ouça o CD