Tão digno, tão lindo!
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Hoje tenho nas mãos um trabalho com o qual me identifico do início ao fim. Falo de dois talentos que se guiam pela musicalidade que os envolve e impulsiona. Movidos a doçura e contemporaneidade, a musicalidade de Lucina se aproxima da poesia de arrudA e se mesclam a ferro e fogo. Como numa tatuagem mefistofélica (mas nem tanto assim), seus desígnios fazem de um álbum o documento de suas vidas.
Assim é Bicho Pedra Gente (independente e analógico), uma gigantesca obra de beleza tão (im)pura como o mais (in)completo compêndio, escrito em linhas essenciais.
Inspiração sobrevoando o ar representado pela guia presa ao pescoço, que segura a cabeça de vento que ninguém prende. E assim, Lucina e arrudA dão de (en)cantar com suas (in)definições e (re)criações do que seja respeitar o ofício que escolheram!
Para Lucina e arrudA, conceber é se apaixonar. É, não tem jeito, camaradas, a beleza de suas artes diz muito: tudo a menos para abater o demasiado; quanto menos se esparrama em escolhas, o cerne se revela. Sim, o mínimo faz da simplicidade ouro em pó!
A voz de Lucina se mistura à palavra de arrudA. Dois seres dispostos a ser puro bom senso na aurora da manhã preguiceira, sugerindo que a sombra da mangueira será para a vida inteira. Assim, sem soslaio, nem revesguete, cada faixa flui com o caráter que eles têm de sobra, criando (en)cantamentos que são deles, mas que são, também, de todos nós.
Aqui três.
“Um Dia Fora do Tempo” (Lucina e arrudA): ninguém é capaz de cantar tão docemente quanto Lucina com seu violão. O cello e o arranjo de Lui Coimbra falam a língua da formosura. Enquanto arrudA empresta seus versos à graça: “(...) uns dias pra respirar o teu bom dia no vento/ um dia fora do tempo e o coração aceso e o coração aceso e o coração aceso”.
“A Lua Lembra” (Lucina e arrudA), tão bela! No arranjo de Christiaan Oyens, o violao e a voz de Lucina vêm com guitarra, baixo e batera, todos enlevados pelos versos de arrudA: “escrevi na areia/ o nosso poema/ a chuva apagou/ mas a lua/ ainda lembra”.
“É Onde” (Lucina e arrudA): o baixo fretless de Jorge Mathias ajunta-se ao violao de Lucina; a percussao eletrônica de Sandro Moreno, talvez com força excessiva, pontua; Lucina canta como só ela a fantasia de arrudA: “É onde a noite encontra o dia
o sol/ É onde o céu acorda a pedra o chão/ É onde a fome amassa o barro e o pão/ É onde o vento inventa a voz e o vão/ É onde a noite encontra o dia o sol/ É onde o céu acorda a pedra o chão”.
Meu Deus! Por favor, não deixem de ouvir Bicho Pedra Gente! Busquem as músicas! Todas! Escutem o álbum inteiro! E sejam felizes ao ouvir algo tão digno e lindo!
Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.
Ficha técnica: Direção e produção musical: Patricia Ferraz; gravado em Niteroi/RJ: Estudio Hi Eight; engenheiro de som: Daniel Drago; mixagem e masterização: Fausto Nobile: Nobilemix Estudio/SP.