Uma criação soberba (mais uma)
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É com prazer que lhes trago o novo trabalho do Guinga, Catonho (Vogas Produções). Gênio da raça, ele vem num formato que agora chamam EP (no meu tempo era “compacto simples”).
Caramba! Vê-se que a criatividade composicional do cara aumentou, meu Deus! Enquanto sua verve vem com tudo, saltando aos olhos toda a desafetação com que escolhe as palavras, concluo sem medo de errar: Guinga está muito perto de ser visto como um dos maiores compositores deste país... se bem que, a essa altura, ele já seja o maior!
Como já escrevi ao comentar Roendopinho, o seu primeiro álbum solo, de 2014: “para Guinga não basta criar belas frases musicais, há que fazê-las soar como nunca se ouviu igual”.
E assim me referi ao CD Zaboio, lançado em 2021: “com os sentimentos sempre à mostra, as letras de Guinga têm tudo a ver com as melodias, não têm rumo certo. Vão aonde o delírio de Guinga apontar. Palavras inesperadas, instigantes. Ouvi-las é transcender à beleza”.
Ainda reflito sobre isso, e assim me sinto ao ouvir as duas obras do recente EP desse cidadão suburbano, conhecedor das milongas cariocas e de seus mistérios. Nada lhe passa despercebido, tudo aflora em comunhão, versos, harmonias, melodias, ritmos – profundo alcance criativo.
Ao EP.
“Catonho”: qual um Paganini endiabrado, o violão desponta como o tesouro fantástico do qual Guinga se vale para criar introduções que são verdadeiras obras-primas (se ajuntadas um dia na forma de um álbum só com elas, serão bem-vindas). A letra se adapta à perfeição dos caminhos que a harmonia e a melodia lhe abrem: “eu sou um velho capenga/ Que realenga no Catonho/ Cafundá brejo medonho/ Cara a cara com o demônio/ Sou eu/ (...) eu sou moto perpétuo/ Paganini da Piedade/ Do Império da saudade/ Velha guarda e Mocidade/ Sou eu (...)”.
Dedicada à sua mãe, Dona Inalda, “Rua do Pecado” inicia de modo a reafirmar a excelência da música de Guinga, criador revolucionário, compositor e cantor que carrega em si o privilégio de fazer valer o talento com que foi brindado ao nascer. O que suas músicas conferem aos versos é inimaginável. As palavras se aconchegam a elas, como o cobertor protege do frio: “Minha mãe chorou/ As águas desse Rio/ Lavou de saudade/ A proa do navio (...) Mãe desembarcou/ No céu de Imbassaí/ Só Seu Salomão morava ali/ São Bartolomeu casou minha mãe com a ventania/ Quando ela cantava/ Era ave rara Ave Maria/ Olerê olará/ Ai Ioiô de iaiá (...)”.
Ao cantar com a voz diferente de qualquer outra, e com o total imperativo de quem associou o seu amor próprio à sua própria música, tudo é muito Guinga.
Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.
Ficha técnica:
Guinga: voz e violão; Fernanda Vogas: idealização e produção; Kassin: produção musical; Léo Moreira: gravação, mixagem e masterização: Xabier Monreal: capa; Cris Lopes e Nanda Vogas: fotos.
Ouça o EP