A música e o rio
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Gosto da imagem da música sendo um rio. Assim como ele, nada a impede de seguir em frente; a cada obstáculo, uma reviravolta; a cada obstrução, um renascer. A música tem o destino dos rios: ir ao mar ou voltar na direção oposta, mas sempre atento aos afluentes que renovam os seus andamentos. Somando-se, seguindo e adaptando-se, ambos se renovando, música e rio são eternos mananciais de cultura. Não adianta tentar impedi-los de seguir seus destinos, eles nunca se dobram – reinventam-se, criam soluções que ninguém suspeita existir. A música age como o rio ao cruzar fronteiras; em cada lugar se dá a pegar suas raízes. O músico e o pescador conhecem suas gentes, sabem-lhes a alma, gosto e rosto. A harmonia de um assemelha-se à sabedoria do outro, e assim vão em contínua progressão. Ora agitação, ora mansidão, seus frutos alimentam vidas e a cidadania.
Esta reflexão pintou após a audição do EP De Dentro do Futuro, do compositor e intérprete Guilherme Rondon, gravado ao lado dos jovens instrumentistas do Duo Beck e Montanaro. Os três são rio e são música. Tudo os liberta. Tudo é fluxo, nada é dique.
Em De Dentro do Futuro, os versos sobrevoam as águas, se misturam a elas e se fazem poesia. Violão, flauta e piano são redes que apreendem os sons que a água conduz, como numa sinfonia que multiplica peixes, num milagre revivido que alimenta quem precisa deles para ser.
Guilherme Rondon, a música e o violão, Rafael Beck, o piano, Felipe Montanaro, a flauta, navegam pelas águas do rio/música. Tudo isso enquanto criam a música que os define: Rondon é pantaneiro, Rafael e Felipe são paulistas, os três são o que os identifica como músicos brasileiros.
Aqui três das quatro faixas do EP.
“Sonho Inca” (Guilherme Rondon): a flauta saltita, o piano vem e a intro conduz à voz poderosa de Rondon. Sua força se revela por entre as artes dos meninos. Um breve intermezzo de flauta e piano chama os versos, versos de Rondon!
“Isso e Aquilo” (GR): os três vão soltos, levados pela música/rio que os consagra. Piano e flauta tocam suave até que Rondon se achega e canta “(...) O vento que vem do mar/ A estrela que despontou/ Nas águas do meu olhar/ A luz que te descansou (...)”.
“Hora Cortada” (GR): a flauta embala o clima. A delicadeza do piano antecede a poesia de Rondon: “(...) Meu rio a correr/ Espera/ Pois a solidão me consome/ Saudade tem hora contada/ Está por um triz/ Eu vou voltar/ Eu já nem sei/ Por que saí/ Da minha casa (...)”.
Eis o trabalho tão luminoso quanto os rapazes que se ajuntaram para transformar De Dentro do Futuro num rio por onde navega a música.
Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.
Ficha técnica: Guilherme Rondon: voz e composições; Duo Beck Montanaro – Rafael Beck: flauta, Felipe Montanaro: piano; Duo Beck Montanaro: arranjos; Gargolândia: gravacao; Miranda.musica e Paulinho Nunes: captação; Luis Paulo Serafim: mixagem e masterização.