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O meu abril despedaçado

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Por

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No meu primeiro ano de curso de comunicação, no início da década de 1980, quase tudo que acontecia dentro e fora da sala de aula era uma grande novidade para mim. E lá pela metade de abril de 1982, quando ainda estava no meu segundo mês do primeiro semestre, no meio da tarde, ao chegar mais cedo na FACHA, a faculdade que escolhi para cursar jornalismo, um burburinho, criado por umas duas dezenas de alunos liderados pelo comando do diretório acadêmico, tomou conta do pátio. Sentado em uma mesa ao lado da cantina, observava curioso o que estava acontecendo, até que um dos colegas de turma saiu do meio do falatório e veio ao meu encontro, me perguntando se eu não queria ir com o pessoal até o consulado da Argentina, ali ao lado, na praia de Botafogo, onde aconteceria uma manifestação contra a Guerra das Malvinas.

Essa disputa bélica das ilhas Malvinas entre a Argentina e a Grã-Bretanha estava no início e foi uma cartada desesperada dos ditadores sanguinários argentinos para continuar no poder. Aqui, no Brasil, também sob uma ditadura que se encaminhava para o fim, o governo do general João Figueiredo se posicionou oficialmente como neutro na disputa, mas que, na verdade, sua simpatia era pela Argentina, pelos seus aliados milicos, e contra o governo de Margaret Thatcher, a primeira-ministra que, também, não era flor que se cheirasse.

Resolvi me juntar aos colegas barulhentos e fomos para a frente do consulado gritando palavras de ordem, levantando faixas improvisadas que pediam o fim do embate, já que todo o noticiário mostrava que muitas mortes ocorreriam entre militares de ambos os lados e de civis argentinos. Na verdade, toda a manifestação que foi organizada pelos estudantes, no fundo, no fundo, era uma desculpa para que, por tabela, fosse contra o regime militar aqui do país, que já durava 18 anos. Resolvemos bater nos argentinos, mas o nosso maior alvo, inimigos, eram os ditadores brasileiros. E aproveitamos para gritar contra eles também.

Menos de uma hora depois do início de nossa manifestação pacífica, chegaram soldados do Exército e suas fardas verde-oliva, nos empurrando, dando chutes, pontapés, baixando cassetetes para todos os lados. Os funcionários do consulado, ao invés de chamarem a Polícia Militar, que estava sob o comando do governo Leonel Brizola, que acabara de ser empossado em janeiro, decidiram, claro, pedir ajuda aos seus parceiros de ditadura. E eles chegaram sem pedir licença e nem desculpas. Partiram para cima, nos agredindo e exigindo que saíssemos dali.

Exposto no meio da manifestação, acuado, assustado, também não fui poupado. Recebi um chute pelas costas e caí na calçada, me protegendo como pude. O relógio de pulso foi estraçalhado quando se chocou no meio-fio. Uma sacola com 3 discos de vinil que havia levado para emprestá-los a um novo colega de turma voou para longe, mas, felizmente, a recuperei em seguida para, depois, enraivecido, voltar para a faculdade junto com os outros manifestantes.

Resolvi contar este episódio ocorrido décadas atrás para quase repetir o que escrevi, como um desabafo, por estes dias em uma rede social. Ao citar, não de forma tão longa, o episódio, confessei que desde aquele abril de 1982, que também, como o filme, foi despedaçado, que tenho participado ativamente de todas as manifestações democráticas e políticas brasileiras desde o fim da ditadura, em 1985. Todas. Sempre entendendo o quanto é importante primeiro pensar nos que mais necessitam do poder público, de verdade. Naqueles que mais precisam de governantes e políticos que trabalhem para eles, para os que estão mais fragilizados socialmente, que colocam como prioridades o bem-estar dos mais necessitados.

Os 3 álbuns que estavam comigo na manifestação em frente ao consulado da Argentina eram da banda de hard rock Triumph. E em um deles, o clássico Allied Forces, está a minha canção preferida do power trio canadense: Fight the Good Fight.
E no domingo, na hora de votar, escolherei os candidatos que, verdadeiramente, combatem o bom combate.

Abaixo, os álbuns do Triumph e algumas das canções com trechos de suas ótimas letras.

Álbum: Just a Game - 1979 - Produção: Mike Levine

Canção: Just a Game - Apenas um jogo

"Os magos da era moderna lançam feitiços de poder elétrico
Mas as cordas corporativas que os fazem dançar
Levavam a uma torre de marfim
Lá estão os destinos em solidão, longe dos olhos do público
Ninguém nunca os vê sorrir e nada os faz chorar".


Álbum: Allied Forces - 1981 - Produção: Triumph

Canção: Fight the Good Fight - Combata o bom combate

"Mantenha o seu espírito, mantenha a sua fé
Conto com você
Você sabe o que tem que fazer
Lute a boa luta a todo momento
Todo minuto, todo dia".

Canção: Ordinary Man - Um cara qualquer

"Ei, você, político, pode acreditar numa palavra do que você diz?
Imprensa poderosa, de quem é a verdade que você vende hoje?
Guardiões da justiça, quem vigia vocês?
Um ludibriador entoando sua canção, para quem você está cantando?
Quanto mais eu vejo, menos eu entendo
Sou apenas outro cara qualquer".


Álbum: Never Surrender - 1982 - Produção: Triumph e David Thoener

Canção: Never Surrender - Nunca se renda

"Dançando, se virando, qual é a desse jogo?
Todo mundo sempre quer a saída mais fácil
Trinta moedas de ouro pelo beijo de Judas
O que um garoto legal tá fazendo num lugar assim?"


Obs. Não utilizo IA - Inteligência Artificial para escrever os meus textos para a coluna.