Seleção afinada

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A Copa vai começar. A minha motivação, diferente de todas as outras anteriores, é zero. Minhas expectativas com a Seleção Brasileira estão ainda mais baixas. Congelantes. Como as temperaturas que caem diariamente aqui na região do sítio. Assistirei a várias partidas, porque sou um apaixonado por futebol, desde sempre, mas a competição, sendo organizada e disputada em um país que, no momento, está nas mãos de um fascista, como é Donald Trump, com a submissão do presidente da FIFA, Gianni Infantino, me deprime.

Dito isto, com o mínimo de revolta e indignação que me permito em um desabafo necessário e oportuno, escalo a minha Seleção. Não de jogadores que poderiam estar representando o Brasil na Copa, mas a de vocalistas de Rock de minha preferência. Os que vêm fazendo a minha cabeça desde que comecei a ouvir, incansavelmente, centenas de álbuns e shows. Eu poderia citar mais uns 30. Alguns, como Peter Gabriel, do Genesis, Steve Perry, do Journey, e Steven Tyler, do Aerosmith, por exemplo, foram lembrados, mas, na hora da minha convocação final, ficaram de fora.

Abaixo, os meus 11 titulares. Sem ordem cronológica ou de preferência.

• Bruce Dickinson – Bruce ingressou no Iron Maiden, em 1981, vindo do Samson, uma das representantes da origem da New Wave of British Heavy Metal, a famosa onda de bandas britânicas de Heavy Metal surgida no final da década de 1970. O vocalista, com seu estilo vocal e presença física, deu muito mais personalidade ao Iron Maiden ao substituir Paul Di'Anno que, mesmo sendo um ótimo vocalista, não possuía o carisma que o baixista e líder Steve Harris achava importante para que a banda decolasse. E, com o também piloto de avião, decolou.
Meus dois álbuns preferidos com Bruce são The Number of the Beast, de 1982, e Piece of Mind, de 1983.

 

 

• Ronnie James Dio – Quem poderia imaginar que um vocalista americano seria o responsável por tirar do limbo o Black Sabbath, criado e formado na Inglaterra e construído por ingleses genuínos? O faro e a sensibilidade musical do guitarrista Tony Iommi, o mesmo que descobriu Ozzy Osbourne, o clássico frontman original da banda, imaginaram e garantiram que Dio, nos seus anos de Rainbow, gravando álbuns espetaculares, seria o cara ideal. E ele estava certo.
Os álbuns da longa e incrível carreira de Dio que mais curto são Heaven and Hell, com o Black Sabbath, gravado em 1980, e Holy Diver, o primeiro trabalho solo do vocalista, lançado em 1983.

 

 

• Rob Halford – Na minha opinião, não existe, em toda a história do Heavy Metal, um vocalista com a potência vocal desse inglês. Nascido em Sutton Coldfield, mas tendo Birmingham, a mesma cidade natal do Black Sabbath, a segunda maior da Inglaterra, como quartel-general da banda, o líder do Judas Priest, assumidamente homossexual, para desespero dos metaleiros mais intolerantes, certamente é a voz que mais representa o gênero pesado desde que o JP, no início dos anos 1980, resolveu assumir um som mais pesado em seus álbuns.
Meus preferidos do Judas, com a voz incrível de Rob, são Sad Wings of Destiny, de 1976, com um Rock não tão pesado, e o clássico e inigualável British Steel, de 1980.

 

 

• Roger Daltrey – Se eu não acompanhasse e ouvisse Rock desde os 13 anos e, hoje, décadas depois, me mostrassem, pela primeira vez, um exemplo desse gênero musical com o vocalista Roger Daltrey interpretando ao vivo a maravilhosa Love Reign O'er Me, um dos muitos clássicos de sua banda, The Who, certamente eu acharia que ele deveria ser o maior cantor do meio musical. E confesso que, sempre que ouço Daltrey em um palco, de corpo, alma e voz, cantando a minha canção preferida do The Who, fico com a certeza de que ele é o número 1.
Os meus álbuns preferidos do Roger Daltrey detonando no The Who são o incrível Who's Next, de 1971, e a maravilhosa ópera-rock Quadrophenia, de 1973.

• Robert Plant – Se você, leitor, tem um filho ou filha adolescente que lhe pede uma dica de banda para conhecer melhor o gênero, por favor, nada de iniciá-los com Beatles ou Rolling Stones. Esqueça. Vá até a sua coleção de vinis ou CDs e coloque para tocar os dois primeiros álbuns do Led Zeppelin, os meus preferidos da banda, ambos gravados em 1969. E não se assuste se eles se apaixonarem por Robert Plant, o vocalista que maior e melhor representa um estilo vocal, performático e visual da história do Rock. Inigualável.

• Glenn Hughes – Por mais que eu goste da voz e do estilo de David Coverdale, da importância do vocalista na história do Rock e dos seus anos com o Deep Purple, às vezes fico pensando como seria o álbum Burn apenas com Glenn Hughes nos vocais, sem dividi-los com David, ambos estreando juntos na banda de Ritchie Blackmore. Não tenho dúvidas de que o clássico álbum perderia o tempero que o tornou um dos mais citados na história do gênero, mas ganharia um poder de fogo vocal de maior alcance, porque os recursos de Glenn são infinitamente maiores do que os do seu grande amigo David.
Duas pequenas amostras estão nas interpretações do vocalista e baixista no álbum ao vivo Burning Japan Live, de 1994, e no de estúdio Songs in the Key of Rock, de 2003.

Greg Lake – A ideia do tema desta coluna surgiu após eu ter assistido, na semana passada, a alguns vídeos de Greg Lake em dois shows com a sua banda Emerson, Lake & Palmer, no início dos anos 1970, na Suíça e na Califórnia, EUA. Logo em seguida, papeando com amigos, disse que, em qualquer lista de melhores vocalistas de Rock, o nome de Greg jamais poderia ficar de fora.
Dono de uma voz aveludada, portentosa, robusta e redonda, o inglês também foi um exímio baixista e guitarrista e, após o início no King Crimson, resolveu, ao lado de outros dois gigantes, o tecladista Keith Emerson e o baterista Carl Palmer, formar o power trio mais poderoso do Rock progressivo.
Toda a qualidade vocal de Greg Lake está explícita em vários álbuns do ELP, e os meus preferidos são Tarkus, de 1971, e Trilogy, de 1972.

• Eddie Vedder – Nenhuma voz representou melhor o movimento grunge, surgido nos anos 1990, do que a do vocalista e líder do Pearl Jam. Sua performance visceral nas 10 canções do álbum de estreia da banda de Seattle já está devidamente registrada na antologia do Rock e ficará marcada na história e, de forma alguma, poderia ficar de fora desta minha seleção. De timbres potentes e melancólicos, o imenso Eddie Vedder também é assombroso nos palcos, em suas apresentações ao vivo.
Os meus dois álbuns preferidos do americano, junto com o PJ, são Ten, de 1991, e Vitalogy, de 1994.

• Paul Rodgers – Não foi à toa que o exigente Jimmy Page escolheu Paul Rodgers para assumir os vocais de sua banda The Firm, formada assim que o Led Zeppelin resolveu dar um tempo. E o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor também não pensaram duas vezes quando decidiram continuar com o inglês nos vocais do Queen, no posto do insubstituível Freddie Mercury.
Poucos vocalistas da história do Rock possuem as qualidades fundamentais para transformar qualquer canção simples, quase banal, em um clássico, e Paul é daquele tipo de artista com quem 10 em cada 10 produtores gostam de trabalhar no estúdio. Devido à sua incrível capacidade de manter a afinação vocal, modulando graves, médios e agudos com muita facilidade em qualquer arranjo, Paul Rodgers, na sua história com as bandas Free e Bad Company, conquistou um imenso respeito nessa sua longa estrada musical.
Meus dois álbuns preferidos com PR nos vocais são o de estreia do Bad Company, que leva o mesmo nome da banda, lançado em 1974, e Run With the Pack, de 1976.

• Brad Delp – Muitos poderão estranhar o nome do vocalista americano, que já não está entre nós, constar nesta minha seleção. Eu mesmo fiquei me perguntando, durante as minhas escolhas, se não estaria exagerando ao escalá-lo. Mas o meu coração e a minha memória afetiva me disseram para seguir em frente.
É extremamente difícil eu não viajar no tempo, aos anos bucólicos vividos em parte da minha juventude, em Petrópolis, entre 1977 e 1982, quando ouço várias canções da banda Boston com a voz melódica, doce, macia, calorosa e poderosa de Brad Delp dominando os dois primeiros álbuns da banda: Boston, de 1976, e Don't Look Back, de 1978.

• Freddie Mercury Na boa, não irei escrever sobre Freddie e nomear as qualidades que vocês, leitores, já conhecem.
Ouçam com calma, sempre, sempre, todos os álbuns do Queen. Absolutamente todos. Os adjetivos que eu poderia dar ao inesquecível e incomparável vocalista estão registrados em suas performances, mas os meus preferidos e que apresentam o melhor de FM são Queen II, de 1974, e A Night at the Opera, de 1975.