Neil Peart: Inigualável, incomparável, insubstituível

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O inigualável Neil Peart

Vez ou outra me pego pensando e me perguntando se o Rush é, ou seria, a minha banda de rock preferida. Para o meu próprio espanto porque sempre tive absoluta certeza de que este posto tinha o Pink Floyd como dono e que, durante fases da minha vida como ouvinte apaixonado por música, já havia pertencido ao The Who ou ao Black Sabbath e, na adolescência longínqua, ao KISS.

A admiração pelo power trio canadense foi crescendo desde o início dos anos 80, quando comecei a prestar mais atenção nos álbuns clássicos gravados pelo espetacular Geddy Lee, baixista, vocalista e tecladista; pelo exímio guitarrista Alex Lifeson; e por Neil Peart, fenomenal baterista e o principal responsável por ter colocado o Rush muito mais próximo do meu coração.

A notícia bombástica que estourou na mídia no início da semana de que a banda fará uma turnê mundial em 2027, incluindo datas em algumas cidades do Brasil me trouxe uma mistura de surpresa e decepção. Como grande fã, não vejo com bons olhos (e ouvidos) o retorno do Rush sem o seu principal membro, falecido em janeiro de 2020, aos 67 anos, e que agora está sendo substituído por um desconhecido, ou melhor, desconhecida: a alemã Anika Nilles. Sobre esse fato, detalhe importante e intrigante, porém prefiro não comentar para não ser mal-interpretado pelos patrulheiros de plantão.

A decisão de Geddy e Alex me causou estranheza semelhante à de quando Brian May e Roger Taylor resolveram ressuscitar o Queen sem o maravilhoso Freddie Mercury após a sua morte. Ou quando Pete Townshend, Roger Daltrey e John Entwistle seguiram com o The Who sem o extraordinário Keith Moon, logo após o seu sepultamento. E esses equívocos só me mostram que a decisão de Jimmy Page, Robert Plant e John Paul Jones de aposentar o Led Zeppelin após a partida do fantástico baterista John Bonham foi acertadíssima.

Os dois membros remanescentes do Rush deveriam ter seguido a decisão dos músicos do Led e não forçar a barra mantendo a banda na ativa sem o gigante das baquetas, incensado pelos fãs. Neil Peart foi mais do que um baterista genial e um letrista brilhante; o canadense era a mente e a alma da banda. Um ávido leitor, escritor, cronista talentoso; um erudito, um renascentista urbano que dominava o digital e o analógico sem pudores; um observador curioso de tudo o que o cercava de um ninho de beija-flor construído no quintal de sua casa em Los Angeles à complexidade das dores humanas, do corpo e da alma. Viveu intensamente essa complexidade ao decidir pegar a estrada em sua moto e viajar solitário durante meses por longas e tortuosas estradas canadenses e americanas, enfrentando a depressão aguda que o destroçou após a perda da filha adolescente e da primeira mulher em um intervalo de apenas 12 meses.

 

 

Neil foi, em vida, para seus amigos, parceiros e familiares próximos, um homem repleto de adjetivos; e, na visão de seus milhões de fãs espalhados pelo planeta, um deus mitológico por trás de sua imensa bateria.

Eu assisti e senti de perto — ou quase de perto — toda essa carga de energia intensa e brilhante que Neil possuía e espalhou pelo palco e pelo público apaixonado e emocionado no show que o Rush fez no Rio, em 22 de novembro de 2002, iluminando o antigo, saudoso e verdadeiro Maracanã, como eu só havia visto e sentido antes, décadas atrás, em muitos clássicos memoráveis entre Vasco e Flamengo, para mais de 100 mil torcedores.

Infelizmente, Neil Peart não está mais entre nós e, sem exagero, sem o baterista, a banda remontada se resume apenas a mais uma dupla de músicos querendo voltar ao palco, faturar nas bilheterias e se manter na ativa nesse mercado da música, do show business, cada vez mais insosso e inexpressivo. Alex e Geddy deveriam ter buscado outros caminhos, criando outra banda ou investindo em suas carreiras solo, porque o Rush foi sepultado quando The Professor descansou após suas longas batalhas, perdidas e vencidas.


Meu Top 5 das performances de força, técnica e criatividade de Neil Peart com o Rush:

Xanadu
Álbum A Farewell to Kings (1977)

Natural Science
Álbum Permanent Waves (1980)

YYZ
Álbum Moving Pictures (1981)

The Camera Eye
Álbum Moving Pictures (1981)

The Weapon
Álbum Signals (1982)

Obs. O colunista não utiliza Inteligência Artificial (IA) para escrever seus textos.