O brilho eterno do Diamante Louco
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Quando um ídolo da música, muito famoso e de qualidade comprovada, morre precocemente, como tantos que se foram cedo, é comum imaginarmos como ele estaria agora se ainda estivesse aqui, entre nós. E, mais do que isso, o que ele estaria produzindo. Os exemplos para o exercício de imaginação são vários: Jimmi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e John Lennon são apenas alguns de um universo imenso de seres quase mitológicos do rock.
Syd Barrett, fundador e líder do Pink Floyd em sua formação inicial, é um desses gênios que eu vivo me perguntando o que teria feito, junto com seus companheiros da banda, se prosseguisse com seus trabalhos solos, se não tivesse enlouquecido graças ao excesso de drogas que o destruiu no final dos anos de 1960, o obrigou a abandonar uma carreira meteórica e tão promissora e o fez partir em 2006, duas décadas atrás.
Não sei se o Pink Floyd teria conquistado todo o sucesso que teve se Barrett tivesse se mantido saudável física e mentalmente e seguido ao lado de Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason que, juntos, gravaram a obra-prima inicial “The piper at the gates of dawn”, lançado em 1967, um álbum incrível, mas que apresentou um estilo muito diferente do que Floyd viria a percorrer e a consolidar a partir dos anos de 1970, após a chegada de David Gilmour, também genial, para substituir o atormentado vocalista. Gilmour já era naquela época um guitarrista espetacular, mas, segundo o baterista Nick Mason, Barrett o considerava um intruso.
Impossível saber se com Barrett, e sem Gilmour, o Pink Floyd teria se consolidado como uma das maiores e melhores bandas da história do Rock. Não creio que Barrett, mesmo saudável, conduziria o grupo ao sucesso estrondoso que ele alcançou, ofuscando a genialidade criativa de Roger Waters, músico comum, mas de forte personalidade e imensos poder de liderança, visão e posicionamento ideológico rígido, como talentoso cronista de uma a sociedade contemporânea doente, em um mundo quase destruído pela Segunda Guerra Mundial. Certamente Barrett não teria capacidade de sugerir e criar obras-primas como “The dark side of the Moon”, “Animals”, “The wall”. E, claro, “Wish you were here”, álbum que foi concebido pelos membros da banda como uma homenagem a Syd Barrett e que está completando 50 anos de seu lançamento. Com canções antológicas sobre o brilhantismo e loucuras de Barret, o álbum recebeu agora um relançamento caprichado, incluindo uma caixa espetacular, cheia de raridades e novidades. Todo esse vasto e rico material e trabalho de marketing envolvendo a comemoração de meio século do álbum resultou, por tabela, na sua volta ao topo da parada inglesa.
E é sempre bom revisitarmos a genialidade de Barrett ouvindo o seu curto, mas encantador trabalho com o Pink Floyd, os seus 02 álbuns solos – “The madcap laughs", de 1970, produzido pelo “intruso" David Gilmour, e "Barrett", também lançado em 1970 –, além de “Opel”, coletânea lançada em 1988 com raridades e sobras de seus álbuns de estúdio.
Quem quiser ir além, pode conferir a biografia "Syd Barrett – Crazy Diamond: the dawn of Pink Floyd", de Mike Watkinson e Pete Anderson, e o documentário "Have you got it yet", dirigido por Roddy Bogawa e Storm Thorgerson, colaborador do Pink Floyd na criação e concepção de algumas fantásticas capas dos álbuns da banda, incluindo “The dark side of the Moon”.
Impossível contar a história do Pink Floyd sem mencionar a importância de Syd Barrett para a banda e para o rock. E, para ilustrar um pouco mais essa coluna que inicia um novo ano homenageando seus nome e legado, vale a pena lembrar uma citação do poeta russo Vladimir Maiakóvski: "Gente é para brilhar".
E Syd Barrett, o Diamante Louco, brilhou, ainda está aqui e continua brilhando.