Morreram 35 mil, noves fora: e daí?

Seguimos no Brasil acuados e com medo do desconhecido sob a liderança de um presidente atormentado

Se os sectários fanáticos apoiadores de Jair Bolsonaro não criarem neste domingo fato mais grave - com as manifestações antidemocráticas que pedem o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, os poderes da República que investigam as “fake news” e os que estão por trás da sustentação de blogs, sites e robôs, enfrentando a reação dos que realmente pugnam pelos valores democráticos e a defesa da Constituição de 1988 - o Brasil pode começar a semana sonhando com a volta ao “novo normal”.

Desde que o governo Bolsonaro se instalou, em janeiro de 2019, há uma atração danada de seus apoiadores pelo conflito, pelo enfrentamento, liderado pelo espírito belicoso do seu líder, o “mito” Jair Messias Bolsonaro. Várias vezes, quando o cenário estava calmo, o presidente atravessou a rua para pisar em casca de banana na calçada oposta.

Há quase dois meses, com apoiadores e familiares acuados, como confessou em meio a uma enxurrada de palavrões na reunião ministerial de 22 de abril, que antecedeu a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o presidente da República parece ávido por açular a massa (mesmo contrariando as orientações de governadores, prefeitos e do Ministério da Saúde pelo isolamento).

E o objetivo inconfessado, mas que ficou explícito quando mencionou o artigo na reunião (?) e, na sequência, pediu a interpretação de juristas amigos, como Ivens Gandra Martins, ao espírito do Artigo 142 da Constituição sobre a atribuição das Forças Armadas, é o de transformá-la numa guarda pretoriana para servir ao presidente e não à Pátria, como já está acontecendo com a Polícia Federal, a Procuradoria Geral da República e o MJSP, pós-Moro.

Ensaio semelhante foi feito esta semana por seu ídolo e êmulo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ameaçou usar as Forças Armadas para impor a “Lei e a Ordem”, para conter as manifestações em dezenas de cidades americanas - após a morte desumana de George Floyd, pela polícia de Minneapolis - pelo cumprimento equânime dos direitos civis, sem distinção entre brancos, afrodescendentes, hispânicos e outras minorias étnicas, em especial os índios americanos, ocupantes seculares do vasto território do país. Houve repúdio geral, a começar pelo secretário de Defesa, Mark Esper, e pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Mark Milley.

Aqui, Bolsonaro não hesita em andar na contramão das normas de circulação e sai ostensivamente sem máscara em Brasília, onde seu uso é norma do governo do Distrito Federal. Ele parece dobrar a aposta num confronto de rua descontrolado para que possa recorrer ao uso das Forças Armadas para a “Garantia da Lei e da Ordem“, vulgo GLO. Seus sinais trocados equivalem a alguém organizar boicote ostensivo à Lei Seca. Com a diferença que o Covid-19 causa bem mais mortes que um motorista alcoolizado. Vale dizer que, no DF, de 1º de abril a 1º de junho, quando a pandemia estava bem ativa no Planalto, o Covid-19 tirou a vida de 177 pessoas, superando as mortes por diabetes, problemas no aparelho respiratório e até acidentes de trânsito.

A retomada das atividades é o que a imensa maioria dos brasileiros sonha, desde que entrou em isolamento voluntário, em 17 de março, para evitar que o avanço da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) precipitasse a falência do Sistema Único de Saúde nas principais cidades brasileiras. Nas duas maiores regiões metropolitanas (Rio e São Paulo) foi possível evitar o colapso que tanto temiam o ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta e sua equipe.

Apesar dos mais de 35 mil óbitos, Mandetta&cia e, principalmente, os milhares de profissionais de saúde são os grandes herós, que enfrentam, há quase três meses, 24 horas por dia, o Covid-19 nas piores condições possíveis, com deficiência de equipamentos de proteção individual e sem equipamentos de ventilação e UTIs que evitassem o pior. Por falta de unidade de comando e sinais trocados, não deixaremos de posar no pódio, ao lado dos Estados Unidos e do Reino Unido, como tristes campeões de casos e de perdas de vidas humanas, que poderiam ser mitigadas no número e no espaço temporal.

No mundo inteiro foram mais de 6,7 milhões de pessoas contaminadas, com perdas de 395 mil vidas, sendo quase 110 mil nos EUA e mais de 40 mil no Reino Unido. Como a população americana (329 milhões de habitantes) é bem maior que a do Brasil (211 milhões), e os 66,6 milhões de britânicos, a gravidade é maior proporcionalmente no Reino Unido, onde o índice de mortalidade por 100 mil habitantes está em 61. Nos EUA, o índice é de 33 e no Brasil, estamos com apenas 16. Mas a questão é que enquanto em quase toda Europa, Estados Unidos e Extremo Oriente as taxas de contágio e mortalidade estão em queda - na Itália, após 33,8 mil mortes, sábado havia apenas 300 pessoas internadas; na cidade de Nova Iorque, onde morreram mais de 30 mil pessoas, houve sábado só 55 novos óbitos. No Rio de Janeiro, onde a prefeitura e o governo do Estado anunciam a reabertura controlada, há falta absoluta de testes, o que pode agravar o contágio nos meios de transporte.

Todos sonham com a reabertura. Mas, de forma responsável e uso permanente de máscaras (desdenhadas por Bolsonaro). Na prática, em termos proporcionais, a cidade e o estado do Rio têm bem mais mortes que São Paulo (o estado tem 46,2 milhões de habitantes contra 17,3 milhões no RJ) e as capitais têm, respectivamente 11,3 e 6,7 milhões de habitantes. Nos estados do Amazonas, Pará, Ceará e Pernambuco houve o pior previsto por Mandetta.

Só por mágica o total dos estragos da doença, que já está em reversão em algumas regiões, será revertido ou diminuído. Talvez, por isso, o empresário Carlos Wizard (palavra que tem significado de bruxo ou mago, em inglês, por sinal o curso que mantém o nome, foi o primeiro grande negócio bem sucedido do atual dono das redes Mundo Verde e Pizzahut), convidado pelo ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, para comandar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do MS, anunciou que o órgão vai recontar o número de mortos no Brasil vítimas do coronavírus porque os dados atuais seriam “fantasiosos ou manipulados”.

Em entrevista à jornalista Bela Megale, de “O Globo”, disse que o governo deverá levar o assunto “à esfera competente” contra as supostas irregularidades, sem detalhar exatamente o que deve ser feito. “Temos uma equipe de militares trabalhando nisso, sob o comando do general Pazuello. Estamos levantando os dados e fatos. Levaremos à esfera competente”.

Estranho Ministério da Saúde, onde os militares parecem ser as “autoridades competentes” e não médicos ou autoridades sanitárias, afastados pelo ministro interino. Separar o joio do trigo, identificar quem morreu de Covid-19 ou por diabetes ou pneumonia, comorbidades agravadas pelo vírus, pode agradar ao chefe. E daí? Não diminuirão a dor das famílias nem os impactos econômicos. Muito menos retardar a divulgação dos casos de contaminação e mortes para o fim da noite, quando os noticiários da televisão têm menor audiência.

A intromissão de militares em assuntos de saúde me lembra a grave crise da meningite C na cidade de São Paulo, entre 1970 e 1977. O fenômeno, decorrente da falta de saneamento, eclodiu em 1970 de forma silenciosa e avançou em proporções gigantescas. Era, ao lado da crônica e secular má distribuição de renda, um dos vários “calcanhares de Aquiles” que deslustravam a celebração do “milagre econômico” feito pelo governo Médici.

Cumprindo o mandato tampão do Marechal Costa e Silva (1067-1972), inabilitado em agosto de 1969, após sofrer uma isquemia e com a interdição do vice-presidente, o civil Pedro Aleixo, único a votar contra o AI-5, em 13 de dezembro de 1968, e sucessor do triunvirato militar dos “três patetas”, o general Emílio Garrastazu Médici viera do comando do SNI e sabia o valor da informação. Por isso, depois de a revista “Veja”, publicar, em outubro de 1972, capa denunciando a explosão da meningite na maior cidade do país, Médici proibiu a divulgação de qualquer matéria na imprensa sobre a doença.

Só em junho de 1974, já no governo Ernesto Geisel (1974-79) foi criada a Comissão Nacional de Controle da Meningite. Desde a guerra do Vietnã, em 1971, os soldados americanos enviados para a zona de combate eram previamente vacinados contra o meningococo C. No Brasil, a vacina foi testada a partir de 1972, em São Paulo, em crianças de seis meses a seis anos. Só produziu resposta imunológica para crianças a partir de dois anos. A doença se espalhou, deslocando-se em direção a grupos etários mais velhos, embora as crianças menores de cinco anos ainda fossem o grupo de maior risco.

Em 1974, as taxas de contaminação atingiram níveis escandalosamente altos: 563 casos por 100 mil habitantes em menores de um ano e 51 casos em pessoas com 50 anos ou mais. Bem mais grave que o corte atual do Covid-19. Mas as causas que ajudam a propagar a doença seguem presentes. Uma delas, é a ausência de condições de salubridade e saneamento básico (falta de água potável para que as pessoas lavem as mãos), de redes de esgotos, lançados em valões, outro o adensamento familiar em um ou dois cômodos.

Ao contrário do que chegou a apregoar Jair Bolsonaro, mergulhar em água de esgoto não imuniza ninguém. Identificar vírus no esgoto (em Belo Horizonte pesquisas já indicaram alta incidência do Covid-19) é o sinal da sua perigosa propagação no meio ambiente. A causa e efeito da insalubridade da doença com as más condições sanitária foi identificada nos anos 1850, pelo inglês John Snow, ao pesquisar o surto de cólera no bairro de Soho, em Londres.

Enquanto nos EUA e na Europa a população sai às ruas, para protestar ou desfrutar o novo normal, e a economia dá os primeiros sinais de recuperação, refletidas na alta recorde dos preços do petróleo, seguimos no Brasil acuados e com medo do desconhecido sob a liderança de um presidente atormentado