Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Tereza Cruvinel

A distância Ciro-Haddad

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Esperamos todos por uma pesquisa tira-teima. Embora coincidentes na identificação da tendência na disputa presidencial – consolidação de Bolsonaro na liderança e crescimento de Fernando Haddad - houve uma discrepância importante entre as pesquisas Ibope e Datafolha no que diz respeito à distância entre o petista e o candidato do PDT, Ciro Gomes. O Ibope deu 28% a Bolsonaro e trouxe Haddad com 19%, fruto de um crescimento de 11 pontos porcentuais em uma semana. Ciro ficou onde estava, com 13%. O Datafolha também trouxe o capitão com 28% e Ciro com os mesmos 13%, mas identificou crescimento bem menor do petista, que teria crescido apenas três pontos, passando de 13% para 16%.
Os eleitores, tanto quanto os candidatos, precisam confiar nas pesquisas. Para muitos, elas são orientadoras da decisão. No dia em que a revista “The Economist” circulou com um foto de Bolsonaro na capa, apontando-o como a nova ameaça não só para o Brasil como para a América Latina, Ciro Gomes ressurgiu em cena como o adversário mais capacitado para derrotá-lo. Ganhou um tubo de oxigênio. Segundo o Datafolha, Haddad empataria com Bolsonaro no segundo turno, ficando ambos com 41%. Hoje, a vitória poderia ser de um ou de outro. Já Ciro Gomes ganharia do indesejado por 45% a 39%. Este indicativo do Datafolha produziu análises e movimentos imediatos, no sentido de que é possível evitar dois males com um Ciro só. Crescendo mais um pouco, com votos de lulistas que deixariam de ir para Haddad, de indecisos, e de eleitores de Alckmin, o pedetista ainda poderia chegar ao segundo turno como terceiro caminho. Evitaria a volta do PT e liquidaria com Bolsonaro.

Fhc
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que antes havia admitido votar em Haddad para evitar a eleição de Bolsonaro, divulgou carta em rede social alertando para o quadro eleitoral “sombrio” e apelando à unidade das forças de centro para evitar a escolha entre o “demagogo” e o “salvador da pátria”. Haddad ainda não pode ser definido como tal mas certamente FH se referia a seu patrono, o ex-presidente Lula. A senadora Gleisi Hoffman, presidente do PT, reagiu à iniciativa dizendo que “Bolsonaro é cria dos tucanos. Daqueles que não aceitaram o resultado das urnas em 2014, deram o golpe, foram para ogoverno Temer e aprovaram as reformas que jogaram o país na crise”. A temperatura está subindo.
Quando FH fala em unidade do centro, não deve estar pensando em unidade em torno de Alckmin, que encolheu ligeiramente nas duas pesquisas e nunca se firmou nos dois dígitos. Nem em Marina, em clara rota descendente. O único que poderia cumprir o papel de alternativa aos dois que hoje polarizam nas pesquisas seria Ciro. Mas FH, que Ciro sempre criticou tão acidamente, não chegou a pregar a união em torno dele.
Uma nova pesquisa precisa esclarecer a verdadeira distância entre Ciro e Haddad. As articulações por uma terceira via são uma reação desesperada e tardia das forças que vão ficando fora da disputa. Mas há também o eleitor sinceramente empenhado em votar da forma mais consequente para evitar o perigo representado por Bolsonaro – perigo para a democracia e para o pacto civilizatório que alcançamos. Este eleitor espera a pesquisa tira-teima para decidir seu voto, dar-lhe mais utilidade.

Pedras para Haddad
O PT não se abala com a discrepância entre as pesquisas, certo de que Haddad continuará crescendo. A transferência dos votos de Lula ainda está longe de se completar, embora seja impossível alcançar a marca dos 100%. Mas, embora ele tenha disparado no Nordeste, onde passou de 8% para 31% na pesquisa Ibope, no intervalo de uma semana, o comando de campanha identifica obstáculos que ele precisa superar rapidamente: crescer em São Paulo, onde Bolsonaro está sólido com 30%, e o petista tem apenas 13%. Melhorar sua performance no Rio, onde Bolsonaro tem 37% e ele 11%, e também em Minas, onde o placar é semelhante, segundo o Ibope.



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