Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Tereza Cruvinel

Riscos para a democracia

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A disputa presidencial finalmente decantou, passando a refletir claramente a divisão política estrutural do país. A pesquisa Ibope revelou a colossal e veloz transferência de votos do ex-presidente Lula para seu candidato, indicando a grande possibilidade de que o petista Fernando Haddad venha a disputar o segundo turno com o líder Jair Bolsonaro. Será, como já escrevi aqui, uma disputa plebiscitária entre os que tentarão reconduzir o PT ao governo e o antipetismo, agora representado por Bolsonaro, o que traz riscos evidentes para democracia. Eles estão cobrando um pacto entre as forças democráticas, no mínimo o compromisso de respeito ao resultado das urnas, ganhe quem ganhar. Entidades da sociedade civil pregam este pacto democrático, mas ainda não sensibilizaram os candidatos.
Os riscos apareceram claramente na fala de domingo do candidato da extrema direita. Em transmissão ao vivo pela Internet, Bolsonaro fez denúncia antecipada e infundada de que o PT poderá fraudar a eleição no segundo turno. “Não temo perder no voto, mas perder na fraude”, disse ele, insinuando que, se perder, haverá contestação. E vinda dele, não terá a forma de auditoria nas urnas eletrônicas ou de impugnação da chapa Haddad-Manuela, como fez o PSDB, em 2014, em relação à Dilma-Temer. Quem fala por antecipação que pode ser vítima de uma fraude está avisando que pode não aceitar o resultado. Este aceno golpista devia preocupar mais as forças genuinamente democráticas.

Alinhamentos
O jogo está correndo, mudanças podem acontecer mas é pouco provável agora a quebra da polarização Haddad-Bolsonaro. O candidato tucano Geraldo Alckmin disse ontem que Haddad está no segundo turno, mas que Bolsonaro não, pois vai cair. Continuará perseguindo o sonho de tomar-lhe a vaga, apresentando-se como quem tem mais chances de evitar a volta do PT. Com este último trunfo não tem convencido os próprios aliados.
Dificilmente a polarização de agora será quebrada mas, de fato, o lado mais fraco da corda é o de Bolsonaro. Quando foi inabilitado, Lula tinha obtido 38% no Datafolha. Não haverá 100% de transferência de voto mas o espaço para Haddad crescer mais existe e pode permitir até uma ultrapassagem para a primeira posição.
Haverá agora um crescente realinhamento dos partidos com um polo ou com outro, ainda no primeiro turno. Se terão força para determinar a vitória de um ou de outro no primeiro turno, é cedo para saber. A disposição para o voto útil, segundo o Ibope, alcança consideráveis 30% do eleitorado.

Exemplo de FH
Foi admitindo que o tucano estará fora do segundo turno que o ex-presidente Fernando Henrique, segundo o site Catraca Livre, admitiu a amigos que apoiará Haddad contra Bolsonaro, que a seu ver representaria um risco autoritário permanente. Sua dificuldade para articular maioria no Congresso ampliaria o risco de crise institucional. Quando faz este movimento que certamente lhe custará cobranças no PDSB, Fernando Henrique também endossa a necessidade de um pacto entre as forças democráticas para fazer da eleição uma saída para a crise, e não a recaída do país em desvão mais perigoso.
Ciro Gomes refugou a hipótese de vir a apoiar Haddad. “Nem a pau, Juvenal”. Ciro tem sido corajoso e coerente, no combate ao “golpe” e a Temer e na defesa das principais bandeiras da esquerda. Se encolher e empacar no terceiro lugar, será do PT o desafio de fazer dele o aliado fundamental no segundo turno.

Cunhas e blocos
A tabulação da pesquisa Ibope mostra a divisão radical da sociedade entre as candidaturas agora polares. Bolsonaro tem 35% de preferência entre brancos, 36% entre os de curso superior completo e 41% entre os de maior renda. É claro que tem votos no andar de baixo mas ali o petista sentou praça. Em uma semana Haddad foi abraçado por 27% dos pretos e pardos, por 24% dos menos instruídos e por 27% dos de mais baixa renda. Também por isso será difícil quebrar a polarização agora.



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