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Capitão MAGA sofre goleada e ainda fica sem o seu escudo

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Trump virou pato manco

Deve ser terrível viver em um país no qual seu presidente é derrotado, de goleada, com seu partido perdendo a maioria dos governos dos estados e a oposição ainda controlar a Câmara e o Senado. Pode ser melhor do que em outro, quando o desafiante perde do presidente, reeleito por 4,430 milhões de votos, alega fraude nas mesmas urnas que lhe deram 2,2 milhões de vantagem 21 dias antes, no primeiro turno e, qual Napoleão, se declara “presidente eleito”.

Mas nada pior que o maior banco privado da nação, que amealhava depósitos de 3 milhões de correntistas (60% da população adulta) quebrar e ainda arrastar para a renúncia os presidentes do Banco Central e o da República, ambos comprometidos com as falcatruas do banco que criou a maior crise na economia que era considerada a mais promissora entre os países emergentes da América do Sul.

Duas semanas que abalaram o mundo

Tudo isso aconteceu nas duas últimas semanas. Na coluna de 25 de outubro, no segundo turno, com os prognósticos incertos – a vantagem pró-Lula se desenhou nas 24 horas após o debate da Globo, e a coluna foi escrita sábado, pela manhã -, destaquei que estava em jogo a escolha pela Democracia. Ela foi escolhida por ampla maioria.

Mas o candidato derrotado, como o pai que lhe deu a missão de concorrer com o presidente Lula (e tentar tirá-lo da cadeia), não reconheceu a derrota. Alegou fraudes pela “impossibilidade matemática” sustentada erroneamente pelo governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como esmiuçamos na coluna de 1º de novembro. Para surpresa e traição a seus 59,8 milhões de eleitores, tão logo se viu ameaçado pelas investigações da Polícia Federal, autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, o senador em fim de mandato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nem pensou em liderar a oposição. Tratou de fugir das garras da Justiça, buscando abrigo do presidente Trump, nos Estados Unidos.

Para azar do autoproclamado presidente eleito da “República dos Estados Unidos do Brazil”, ele foi forçado a alterar seus planos de usar o apoio do governo norte-americano porque o presidente Donald Trump, eleito em 2024 com ampla maioria Republicana, na Câmara e no Senado, e a promessa de “Make America Great Again”, viu os sonhos de grandeza da MAGA virarem pesadelo.

Onda azul afoga a MAGA

Os impactos inflacionários das tarifas e a escalada dos preços dos combustíveis e derivados de petróleo causados pelo ataque a Teerã, em 28 de fevereiro, geraram reação nacional, com perda recorde de popularidade do presidente e avanço da onda azul do partido Democrata até no Texas, cidadela Republicana desde 1988. Trump virou “pato manco”.

Sob vigilância cerrada dos Democratas nos próximos dois anos, Trump vai poder dar pouca atenção e apoio aos irmãos Bolsonaro (Flávio e Eduardo têm de se conformar com os convescotes da ultradireita americana abrigada na CPAC). O mais provável é que os Democratas cobrem do governo a redução de tarifas contra o Brasil e o afrouxamento das sanções aos ministros do Supremo Tribunal Federal que condenaram Jair Bolsonaro e os demais golpistas de 8 de janeiro de 2023, que já estavam fazendo planos no governo Flávio Bolsonaro, até serem atropelados pelas urnas na noite de domingo 25 de outubro.

A ultradireita vinha comemorando, antecipadamente, vitórias do espectro ideológico na América Latina e na Europa. Em janeiro, uma ação militar do governo Trurmp, com a aplicação prática da doutrina “Donroe”, uma adaptação à doutrina Monroe, do século 19, captura o ditador Nicolás Maduro e coloca as gigantescas reservas de petróleo da Venezuela sob controle dos Estados Unidos.

Mas os reveses ocorreram no México, em fevereiro, com a eleição da socialista Cláudia Sheinbaum. Houve avanços da direita no Chile, no Peru, no Equador, na Colômbia (Argentina e Paraguai já tinham governos de direita – o Uruguai seguia na esquerda). Assim, a aplicação do “Escudo das Américas”, salvo conduto para intervenções americanas no continente, dependia das eleições no Brasil, que faz fronteiras com dez países: Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana Francesa, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. A ultradireita americana e os empresários que a apoiam perderam poder e alguns bilhões de dólares.

Esta semana, além da dura derrota nos Estados Unidos, que encontrou um presidente Donald Trump, aparentemente alheio ao “tsunami” azul, houve a derrocada do governo de Santiago Peña, no Paraguai, após o colapso do Ueno Bank. Segundo pontuou o “The New York Times”, o presidente Republicano ligou o modo fuga à realidade.

“Trump surge após as eleições de meio de mandato: 'Vocês viram o heliporto?', pergunta aos jornalistas. O “NYT” sublinha: “Seu partido acaba de sofrer uma derrota sem precedentes em décadas. Mas o presidente, liderando uma visita guiada ao seu projeto de salão de baile, estava tranquilo e ansioso para falar sobre a construção”. Entretanto, pelas primeiras mudanças na sua “entourage”, como a nomeação do novo chefe de gabinete, Stephen Miller, o ultrarradical mentor da dura política anti-imigração (que custou muitas derrotas aos Republicanos no país), percebe-se que o “pato manco” Trump não pretende abaixar o topete.

O 'Master' paraguaio

O caso do “Master” paraguaio desnudou as estruturas políticas do Partido Colorado, que há décadas domina o país. O presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, já presidiu o Ueno, e sua gestão fez vista grossa às irregularidades do banco digital. Já o presidente da República, Santiago Peña, que foi sócio do banco, tentou renunciar também para garantir o cargo de senador vitalício fora do poder. Mas o Congresso recusou a renúncia e instaurou processo de “impeachment”, aprovado por 44 votos a zero. Agora, os dois sofrerão processos judiciais.

Cabe notar que o Paraguai era celebrado pela ultradireita mundial, e em especial pelos bolsonaristas, como exemplo de equilíbrio político e economia liberal. O empresário Luciano Hang, o folclórico dono das lojas Havan, que se veste como um papagaio verde e amarelo, ao inaugurar há dois meses uma filial no Paraguai, conclamou os empresários brasileiros a se mudarem para o país vizinho, por ter juros e impostos baixos e as menores tarifas de energia elétrica, graças à cota de 50% da geração da Itaipu Binacional, cuja construção e endividamento sempre foi bancado 100% pelo Brasil.

O banco OTP, da Hungria, no governo de Victor Órban, foi um dos principais subscritores de uma emissão de US$ 350 milhões de bônus do Ueno, no final do ano passado. Vai ter mais ressaca que quem consumia uísque paraguaio nos anos 70. E os bolsonaristas vão logo perceber que o Paraguai não era o paraíso fiscal comparável às ilhas do Caribe. Faltam um mar azul e a solidez de países como a Holanda (Países Baixos), Inglaterra e os próprios EUA, que controlam as finanças de algumas ilhas.

O Banco Central começou a devolver recursos aplicados no Ueno. Só que quem tinha aplicações em dólar receberá em guarani, a moeda local.

Lula não tem a pressa do mercado

O mercado financeiro e boa parte dos empresários já estavam botando faixa de Flávio Bolsonaro eleito e fazendo pesadas apostas no futuro da economia, além de se insinuar junto a lobistas próximos ao PL e prováveis ministros escalados pelo filho 01 do clã Bolsonaro, quando o inesperado fez uma surpresa: juntou a juventude com os avós e mudou os votos após o debate na Globo. Deu Lula.

A coisa mais natural nos mercados financeiros quando há mudança de cenário é uma rápida reversão das apostas nos mercados futuros. Entretanto, como os volumes negociados nos contratos futuros de ações, títulos de renda fixa, “commodities”, moedas e criptoativos é a reversão das posições. Nos mercados com negociações eletrônicas há um comportamento de manada que amplifica as quedas. A parada de arrumação (“circuit braker”) é necessária para evitar um “crash”. Foi assim no Brasil em 26 de outubro e está sendo semelhante nos EUA, depois da “onda azul” de 3 de novembro. Com a agravante da frustração nas apostas nas “big techs” e na IA, cujos retornos se revelam baixos.

A propósito: não seria impensado ligar o colapso do Ueno Bank, no Paraguai, a perdas em apostas no Brasil e EUA.

Dito isso, a Faria Lima, que ainda está lambendo suas feridas, ficou em pé de guerra desde a publicação do artigo do economista André Lara Resende, no “Valor Econômico”, em 30 de outubro. Lara Resende é um dos maiores estudiosos dos males da indexação na economia brasileira. A indexação atenua a redução da inflação e turbina os ganhos nas apostas da “clonagem” da inflação passada nos títulos indexados à inflação, funcionando como poderoso concentrador de renda para o setor financeiro e os rentistas.

Efeitos perversos da indexação

Desde 1984, quando lançou o “Plano Larida” com seu colega da PUC-Rio, Persio Arida,  para fazer a desindexação da dívida pública e da ciranda financeira, que foram a base teórica do Plano Cruzado de 28 de fevereiro de 1986 (fracassou porque o presidente Sarney não concordou com o congelamento dos salários; como os preços estavam congelados e os salários não, houve excesso de demanda, escassez de oferta e pressões inflacionárias) e do Plano Real, de julho de 1994, precedido pelos três meses de transição da URV, seus passos são acompanhados com atenção pelos economistas do mercado financeiro.

Nos últimos anos, Lara Resende tem estudado a mudança do enfoque monetário, ao perceber que o “quantitative easing”, ou seja, a enxurrada de dólares despejados pelos bancos centrais em momentos de crise (colapso financeiro mundial de 2008, devido à crise do mercado de hipotecas nos EUA, e a pandemia da Covid, em 2020-21) não gerou pressões inflacionárias pelo aumento da demanda, com crédito farto e barato. Já os choques de ofertas causados pelas guerras de fevereiro (de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, e de 2026, quando EUA e Israel atacaram Teerã), ambas afetando a cadeia mundial do petróleo e derivados, criaram ondas inflacionárias bem mais graves.

O trunfo da Petrobras

No momento, valendo-se da produção de petróleo da Petrobras (uma das cinco maiores do mundo) e do seu parque de refino, programado para ser 50% privatizado se Jair Bolsonaro fosse reeleito em 2022, o governo Lula conseguiu, com subsídios bancados pelo imposto extraordinário sobre o petróleo exportado (cotado próximo de US$ 100 desde março) uma trégua na escalada dos preços domésticos dos combustíveis e vem toureando a inflação (4,58% nos 12 meses terminados em setembro).

Mas o mercado, que também aposta nos impactos do El Niño sobre as safras agrícolas (por enquanto as especulações centram-se em torno do tomate, da batata-inglesa e da cebola e um pouco do arroz, afetado pelo excesso de chuvas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina), está fazendo cálculos de forte salto na inflação do primeiro trimestre de 2027 e no primeiro semestre do ano que vem.

Além das apostas de altas em produtos agrícolas, há suspeitas de que as mudanças da Reforma Tributária gerem atritos inflacionários. E o principal fator de repique seria a reoneração dos impostos federais e estaduais reduzidos e até zerados ao longo deste ano. Isso aconteceu na transição do governo Bolsonaro, que zerou os impostos dos combustíveis, da energia elétrica residencial e das comunicações de julho a 31 de dezembro de 2022.

Para evitar explosão inflacionária, Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, adiaram a reoneração para março em diante e a escalonaram ao longo do governo. E o fim do sistema de paridade de preços internacionais (PPI), da Petrobras, em maio de 2023, evitou a gangorra dos preços dos combustíveis e seu repasse (sempre no pico) para os juros. Mas, agora, os governadores eleitos pela oposição, a começar por Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que já se lançou à Presidência em 2030, estão em cruzada para reonerar os combustíveis em janeiro de 2027.

Choques de oferta, inflação e juros

Pelos cálculos do Departamento de Pesquisa Econômica do Bradesco, “uma sequência de choques de oferta pode impactar o poder de compra das famílias no início de 2027. Nas projeções para os próximos meses, os alimentos no domicílio devem ter altas mensais entre 0,7% e 1,5% entre outubro e março, e a inflação em 12 meses do grupo vai de 4,2% em setembro para 9,1% em março”.

O banco chama atenção para a “grande incerteza em relação ao preço dos combustíveis, que, em caso de reoneração total, fim das subvenções e paridade com preços internacionais, poderia subir até 16% nos 12 meses encerrados em fevereiro do próximo ano. Ainda, a reforma tributária pode reorganizar preços relativos e, de acordo com estimativas de mercado, podem adicionar cerca de 40 pontos-base ao IPCA no primeiro trimestre”.

O Itaú não ficou atrás. Depois de rever para 5,2% o IPCA deste ano, devido à escalada do dólar (causada pelos agentes que apostaram na vitória de Flávio, trouxeram dólares do exterior e agora observam o dólar bem acima dos valores convertidos, ou seja, com grandes perdas), o banco reviu a alta do IPCA de 2027 de 4,6% para 6,1%, isso porque, após elevar para R$ 5,40 a taxa do câmbio em dezembro deste ano, projeta taxa de R$ 5,60 em dezembro do ano que vem. Neste cenário, além de pausar a Selic em 13,75% em 4 de novembro, o Itaú acredita que o Banco Central vai manter a Selic em 13,75% até dezembro (sua previsão anterior para o final de 2027 era de 12,50%. Com juros mais altos, além de agravar o endividamento do Tesouro Nacional e das famílias e empresas, o PIB cairia dos 11,6% de crescimento este ano para apenas 0,5% em 2027.

O Itaú prevê uma escalada da inflação nos primeiros três meses do ano: 0,89% em janeiro, 1,03% em fevereiro, com impacto da indexação nas mensalidades escolares, e 0,53% em março, acumulando 2,5%, ou seja, um aumento de 31%, sobre os 1,9% do primeiro trimestre deste ano.

Desindexação dá urticária

Ao falar em desindexação, André Lara Resende provocou urticárias na Faria Lima, que já tinha feito apostas numa explosão inflacionária e dos juros desde março deste ano (frustrada com os subsídios e a produção recorde de derivados da Petrobras, que reduziram a importação física e a escalada dos preços e dos juros). As apostas se transferiram para o início de 2027.

Por isso, a Faria Lima tratou de torpedear Lara Resende, divulgando até agenda inexistente com o presidente Lula. A desindexação proposta por André Lara Resende não só impediria a brutal transferência de ganhos para o sistema financeiro, que aposta no choque inflacionário do começo de 2027 (os títulos são negociados em múltiplos nos mercados futuros, o que amplificam os ganhos – as perdas são minimizadas com “hedge”), como reduziria a trajetória da Selic a seis pontos abaixo dos 13,75% previstos para dezembro de 2027. Não é pouca coisa, pois cada ponto a mais (ou a menos) na Selic gerava, em setembro, ônus (ou economia) de R$ 70,8 bilhões ao fim de 12 meses. O banqueiro Luiz Cesar Fernandez, em artigo no JB, defendeu a discussão aberta sobre os planos de André Lara Resende.

Traduzindo, os planos de Lara Resende, ancorados em metas fiscais revistas, concomitante à política monetária, no Conselho Fiscal e Monetário Nacional, o CMN ampliado com as metas fiscais) e com o saque eventual às reservas para estabilizar crises no câmbio, gerariam economia de R$ 424,8 bilhões ao fim de 12 meses.

Seria o dobro dos cortes nos gastos sociais defendidos pela Faria Lima. O SFN preservaria os ganhos em juros com poucas reduções e não resolveria o dilema do endividamento e da trava na economia causada pelos juros bancários estratosféricos.

Lula não quer fazer nada de afogadilho. A montagem do Ministério da Segurança Pública (o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é um dos cotados e ficaria na vitrine para 2030) ou a escolha da política fiscal e do ministro da Fazenda, que pode ter continuidade com Dario Duringan, não motivam pressa do presidente reeleito.

Faltam 58 dias para a posse, em 5 de janeiro. O mercado é que tem pressa para fazer suas apostas. E não errar, de novo.