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A hora do conselheiro

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Poucos saberiam dizer, com total segurança, o que nesta hora passa pela cabeça do presidente Lula, quando bate uma interrogação sobre pessoas que convém cercá-lo, e lembrar diretrizes e obrigações capazes de fechar sua biografia em bom nível.

Aprofundados pelos compromissos da campanha do segundo turno, os desafios, a serem cumpridos ou não, vão projetá-lo para escrever as últimas páginas de sua história política de mais de meio século. Portanto, rumo ao epílogo.

Com certeza, uma das provações diante de Lula, diríamos indisfarçável, é levar o país a dar um passo seguro rumo à pacificação da sociedade, hoje submetida a ânimos polarizados, poderes separados e instituições a reclamar superação das animosidades, que tanto prosperaram nos últimos meses. Não podemos continuar condenados a um eleitorado que se divide entre quem é contra e quem é a favor.

2 – Mal encerrada a apuração dos votos de domingo, ainda sob o calor das comemorações da vitória e lamúrias da derrota, o noticiário já estava sendo alimentado por uma farta lista de futuros ministros e conselheiros. Claro, muitos desses nomes são fruto de especulações; outros "plantados" pelas insinuações de postulantes.

Se não for pensar demais ou for a de hora, talvez um especial cuidado do presidente deva se referir ao conselheiro político; ou conselheiros políticos, como estão a recomendar muitas frentes a serem encaradas, notadamente no primeiro ano do novo mandato. A razão parece clara: o governo começa tendo em vista a formação do Congresso na legislatura de 2027, de perfil oposicionista, punhos cerrados e dentes apertados. Onde vários entre os que vão assumir prometem conduta não apenas oposicionista, mas igualmente revanchista.

Já no terceiro mandato – este que vai se encerrando – o presidente agora reeleito experimentou dificuldades e costuras e remendos custosas. A quem for assessorá-lo politicamente na jornada seguinte vai ser cobrado muito talento para articular e compor, salivar e digerir.

60 anos da Frente Ampla
Não é apenas pela oportunidade da lembrança - antes disso, um dever – registrar que há exatos 60 anos o Brasil era chamado a conhecer os ideais da Frente Ampla, criada para contestar a ditadura militar daquela hora, e dela cobrar eleições livres, reforma partidária e revisão da política econômica.

Não há, na História recente, mais alto exemplo da disposição de líderes políticos de superar suas profundas divergências em nome de um ideal maior. A referência é a Carlos Lacerda, homem de conhecidas posições de direita, Juscelino Kubitschek, um liberal centrista, e João Goulart, líder trabalhista, os dois últimos então exilados.
Adversários ferrenhos de longa data, deixaram de lado tanta coisa que os separaram, e foram à mesa para conversar e agir. Fácil imaginar como isso lhes custou, a começar pela resistência que tiveram de enfrentar junto às famílias.

A Frente sobreviveu dois anos. Os líderes cassados e perseguidos. Pouco depois de lançada, num prazo de apenas sete meses Juscelino, Lacerda e Goulart morreram em circunstâncias nunca suficientemente esclarecidas.

Aquele desprendimento ficou como exemplo para os homens de hoje.