A teias abertas de Flávio Bolsonaro
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O livro "As veias abertas da América Latina", de 1971, no qual o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano discorre sobre como os mais de 400 anos de espoliação das nações europeias sobre as colônias da América Latina, incluindo o imperialismo norte-americano a partir do século 19, influenciaram muitos jovens da América Latina e Caribe. Me inspirou, também, a fazer paródia no título desta coluna que aborda uma arte de conexões de Flávio Bolsonaro (perdoem os erros do original) que circulou no X esta semana. As "Teias de Flávio Bolsonaro" se interligam no caso Master, de Daniel Vorcaro, cujo avião Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR, tinha como sócios o advogado Willer Tomaz e o ex-banqueiro, como cotistas da Prime You.
Ao ser pego, esta semana, em mais uma mentira em relação a seu relacionamento com Vorcaro, quando a revista "Piauí" revelou que o senador (PL-RJ) voou, em janeiro de 2025, da Flórida (Fort Lauderdale) para Brasília com a mulher Fernanda e as duas filhas, além de Willer Tomaz e senhora, o presidenciável Flávio Bolsonaro (que negara, em maio deste ano, conhecer Daniel Vorcaro, e teve que se explicar diante do áudio irrefutável em que tratava o banqueiro como "irmão"), caiu em nova contradição. O avião também serviu ao ministro Alexandre de Moraes e senhora em agosto de 2025.
Quando relatou sua primeira conversa com Daniel Vorcaro para pedir R$ 134 milhões para bancar o filme "Dark horse", disse que foi no final de 2024, "quando não se tinha levantado os problemas de Vorcaro". Embora diga que tinha certeza de que o avião usado era do advogado Willer Tomaz, "uma amizade legítima", a verdade é que o voo, em janeiro de 2025 já foi sob as asas de Vorcaro, que a partir de fevereiro começou a liberar mensalmente as verbas para o doleiro Antônio Carlos Freixo Junior, o "mineiro", dono da Entre Investimentos, transferir os dólares, após escala no paraíso fiscal das Bahamas, para o fundo Havengate, gerido no Texas pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto. "Mineiro", por sinal, como delator do Master, conecta PCC, "Dark horse" e Vorcaro. E aqui para nós: quais amizades não são legítimas?
Oito tópicos com rolos do senador
Separados por cores na arte acima, os rolos em que o presidenciável se envolveu desde que se elegeu deputado estadual pelo Rio de Janeiro, em 2003, chamam a atenção pelas interligações do advogado Willer Tomaz (o da "amizade legítima"), não só no caso Master como no caso dos descontos ilegítimos do INSS, e como também na tentativa de levar na mão grande a casa do jogador Richarlyson, Em Angra dos Reis - RJ.
Willer Tomaz, que operava nos bastidores para Daniel Vorcaro, era amigo do desembargador Newton Ramos, cujo escritório da mulher, Camila Ramos, iria receber R$ 427 milhões (5%) do Master se conseguisse a liberação antecipada de títulos precatórios no Tribunal Regional Federal da 1ª região, de onde o ministro Kassio Nunes Marques saiu para o STF, de 12 processos de usinas de açúcar e álcool que reclamavam indenização do Tesouro Nacional. O Conselho Nacional de Justiça anulou o caso e determinou a devolução de R$ 4,7 bilhões ao Tesouro Nacional. Ou seja, quase cobre os gastos de R$ 5,8 bilhões decorrentes da atualização do Bolsa Família pela inflação de 15% desde 2022.
Willer Tomaz está envolvido em tráfico de influência no escândalo do INSS, em favor de Antônio Carlos Antunes, o “careca do INSS” – por incrível coincidência, a empresa de Flávio, Bravo Grafeno, que produz capacetes para motociclistas, tinha o mesmo contador e o endereço de 16 outras empresas do “careca do INSS”, em Brasília. Willer venceu também concorrência fraudulenta da concessão da RioPag (Loterj), no governo Cláudio Castro, aliado político de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro. O governo Cláudio Castro, como vão revelando as etapas da “operação Carbono Oculto”, facilitou as fraudes fiscais do Grupo Refit de Ricardo Magro, refugiado nos Estados Unidos (a devassa feita pelo governador interino mostra casos de arrepiar).
Relações perigosas com a milícia
A revelação do jornal “O Estado de S. Paulo”, de que o gabinete do senador destinou verba de R$ 200 mil, proveniente do “Orçamento Secreto”, em 2024, a projeto esportivo do miliciano Robinson Calixto, pede mais explicações do que a resposta protocolar do gabinete do senador que pode vir a ser presidente da República. Calixto, conhecido como “Peixe”, foi condenado em 2025, pelo Supremo Tribunal Federal, por atuar como fornecedor de armas para milícias da Zona Oeste, área dos irmãos Brazão. Incluindo, o fuzil usado por Ronnie Lessa para matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, em 2018.
Quando era deputado estadual na Alerj, além das “rachadinhas”, cujas investigações foram arquivadas, em 2020, após a troca do ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro por Anderson Torres, Flávio Bolsonaro não se cansava de condecorar PMs matadores e milicianos, cuja atuação justificava "em nome da segurança". O miliciano Adriano da Nóbrega, um dos chefões do “Escritório do Crime”, foi um dos condecorados por Flávio, que empregou, em seu gabinete na Alerj, a mulher e parentes do miliciano, morto em 2020, na Bahia.
Assim como tinha ou tem relações com milicianos, o senador fez alianças com deputados da Alerj vinculados ao Comando Vermelho, como TH Joias e o ex-presidente Rodrigo Bacellar, seu candidato e de Cláudio Castro a governador.
Advogado nem sempre escolhe clientes. Mas é estranho que entre os clientes do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro figure o “Faraó dos Bitcoins”. O garçom e pastor evangélico Glaydson A. Santos foi preso e condenado por criar pirâmide financeira em bitcoin que lesou clientes em R$ 9 bilhões. Convenhamos: jogatina sem controle e evasão fiscal e de divisas dão as mãos com as criptomoedas. E o Brasil é o país onde elas apresentam a maior expansão...
As apostas nas 'bets'
Depois que o presidente Lula comparou as “bets” a câncer e disse que levaram “cassino para dentro de casa”, Flávio Bolsonaro procurou associar o governo Lula à regulamentação do “tigrinho”. A verdade está no meio. Quem autorizou a volta do jogo (de forma eletrônica) no Brasil [o jogo em cassinos foi suspenso no governo Dutra, em 1945, por pressão da mulher, D. “Santinha”] foi o presidente Michel Temer, no final do mandato, em 2018.
O governo Bolsonaro, em quatro anos, nada fez, em matéria de regulamentação, controle da evasão de divisas (a maior parte das “bets”, sob controle estrangeiro ou de brasileiros, tem sedes em paraísos fiscais) e pagamento de impostos. Um dos motivos é porque Flávio Bolsonaro defendia a regulamentação dos cassinos em “resorts”. Para tanto, viajou, na companhia de Willer Tomaz (e ainda de senadores e empresários), em janeiro de 2020, para Las Vegas (Nevada).
Quando o governo Lula assumiu, em 2023, a jogatina não era tão ostensiva. De 2024 em diante, com a exigência de registro no Ministério da Fazenda e cobrança de impostos, houve enorme exposição nas camisas dos principais clubes e nas transmissões esportivas. Mas a “banca”, além de ter de pagar pelo registro, perdeu o ganho de 100% - o governo Lula tentou tributar os ganhos em 18%, mas o “lobby” do Congresso brecou em 12%. Entretanto, o cassino eletrônico já corria solto. Tirou R$ 141 bilhões de consumo, o governo só arrecadou R$9,9 bilhões, e arruinou milhões de famílias.
Há casos estarrecedores de gente da classe média alta internada na Clínica Gávea, na Zona Sul carioca, especializada em crises psiquiátricas. Os problemas gerados por dívidas de jogo dominam as internações. Houve até suicídios. Imagine o quanto de destruição não causou nas camadas de menor renda, atraídas pelo fascínio do jogo. Só o delator Antônio Carlos Freixo, o "Mineiro", pode ensinar como ganhar 570 vezes na loteria, somando R$ 176 milhões... O imposto é menor que declarar o ganho normal à Receita.
Um governador exemplar
O governador interino do Estado do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto, é um homem probo e está dando belo exemplo de cidadania à sociedade ao promover a desratização da má influência política da milícia e do crime organizado na administração do Estado do Rio.
Desde que assumiu o leme do estado, em março deste ano, por ser presidente do Tribunal de Justiça do RJ, após a renúncia (e posterior cassação) do ex-governador Cláudio Castro, que não tinha vice, (Thiago Pampolha foi indicado, em maio do ano passado, ao Tribunal de Contas do Estado) e pelo impedimento do segundo na linha de sucessão, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do ERJ Rodrigo Bacellar, que foi preso e sucedido pelo deputado Douglas Ruas, que concorre a governador pelo PL, o desembargador defenestrou das contas do Estado milhares de apaniguados políticos que recebiam sem sequer bater ponto, e economizou alguns bilhões em sindicâncias para revisão de contratos superfaturados nas secretarias estaduais.
Não zera os calotes bilionários do esquema Refit. Mas ajuda a reduzir o rombo do fundo de pensão dos servidores nas fraudulentas aplicações em papéis do Master.
Entretanto, seu maior exemplo é como cidadão. Nesta terça-feira, 22 de setembro, o governador não reivindicou privilégio para furar a imensa fila de autógrafos na livraria da Travessa, no Shopping Leblon, no lançamento do livro do jornalista da “GloboNews” Octávio Guedes, “Heróis por Acaso”.
Após esperar três horas na fila, fui cumprimentá-lo pelo eficaz serviço de “Insetisan” na administração estadual em menos de seis meses, e pelo exemplo de cidadão. E brinquei: “se fosse o Cabral, descia de paraquedas, do helicóptero, para furar a fila e gozar do privilégio do cargo”.
A concepção é um dom divino
Candidata à reeleição, a governadora Raquel Lyra (PSD), que lidera a campanha, em Pernambuco, contra o prefeito de Recife, João Campos (PSB), viu a candidatura adversária crescer dois pontos e deixar a disputa imprevisível depois de circular nas redes sociais vídeo em que ela discorria positivamente, em hospital de Garanhuns, em 2025, sobre fazer uma laqueadura em uma mulher, sem que a mesma soubesse.
Rachel Lyra já pediu desculpas. Precavido, João Campos disse que “cada mulher é que deve cuidar do seu corpo”.
O fato revela o tabu que é, para maioria das famílias brasileiras, qualquer método que interfira na concepção da vida, considerado por católicos e evangélicos um dom divino. A discussão sobre o aborto legal motiva a insurgência dos evangélicos. Melhor evitar o tema em campanha.
El Niño também pode ser positivo
Quem acompanha a coluna “O Outro Lado da Moeda” sabe. Previ que o excesso de chuvas gerado pelo El Niño iria ter um benefício: a volta da bandeira verde às contas de luz residencial em outubro. Dito e feito. Um alívio após a alta em setembro pelo fim do “bônus de Itaipu”.
Mas, “a turma da bufunfa”, como o economista e colaborador do JB, Paulo Nogueira Jr, gosta de chamar o pessoal da Faria Lima, e os gestores que só pensam em potencializar motivos para a escalada da inflação (e pôr os juros reais nas alturas), antecipam possíveis efeitos negativos do fenômeno. Pior, a imprensa (salvo raras exceções) entra na dança e dá preferência a analistas que são gestores financeiros.
Concordo 100% com artigo do economista André Lara Resende (ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do BNDES). A imprensa mira demais em déficit/superávit primário (receitas menos despesas sem considerar os juros da dívida), e esquece a monstruosidade de juros reais de mais de 10%, que é a média de 2026. Juros reais desta ordem criam endividamento em bola de neve, travam a economia, (os juros bancários ainda maiores estrangulam famílias e empresas) e deterioram a relação dívida/PIB.