Quem é esse herói?
No frigir dessa crise, repleta de imprevisibilidades – (ninguém sabe onde ela vai terminar, e quem disser que sabe tá mal informado) – fico inclinado a sugerir melhor estudo sobre a personalidade e a psiquê do banqueiro Daniel Vorcaro, a grande figura que há pouco emergiu de um país tão pobre de heróis. É o promotor inconteste da grande tragédia que afoga o Supremo Tribunal Federal, de onde estão saindo farpas que arranham deputados e senadores, afetam amigos do presidente da República e influenciam pesquisas sobre tendências do eleitorado. Ele, o dono de extraordinária capacidade de esparramar o lixo que ficou das festas babilônicas em que recebia aproveitadores de horas felizes. Estaria essa personalidade a merecer um diagnóstico no campo da criminologia e da Psiquiatria?
Preso, forçado a ficar calado, já agora sem poder servir charutos e uísques caríssimos aos amigos, sob o fog londrino, e impedido de contratar escritórios de advocacia íntimos de ministros do STF; ainda assim é a grande estrela da crise, galã que domina completamente os horários nobre da TV. Ninguém o supera na linha da notoriedade.
Graças ao que andaram denunciando, muito mais pelo que ainda podem comprometer gente dos altos escalões, os indiscretos celulares de Vorcaro têm competência para derrubar ministros, como também podem, com o silêncio, conservá-los onde estão. "Silêncio obsequioso", dirão, gratos, os raros que escaparem, lembrando a conhecida expressão da Igreja, por se livrarem dos incômodos da moral e da Justiça.
O ex-banqueiro (por que ex?, se o Master ainda reúne tanta força para demolir gente corrupta) é o herói poderoso do momento, mesmo se vestido com a capa de um heroísmo às avessas.
2 - Os últimos dias do desmoronamento do Supremo Tribunal Federal, que atingiu os mais baixos níveis da respeitabilidade junto à opinião pública, também revelaram, entre os atores salientes, a habilidade de esgrimistas, ministros que já não contentes com as decisões monocráticas, que prendem e libertam a mãos cheias, partiram para os floretes, espetam o adversário, causam tormentos, sem que tenham de matá-lo. Jamais a fatalidade, porque quem agride hoje pode ser a salvação de amanhã.
As pugnas resultantes do vazamento de dados investigados ou em fase de investigação sobre as intimidades do banco Master com ministros, com a Polícia Federal e com a Procuradoria Geral da República, levam a lembrar a tragédia da república do Galeão, que empurrou Getúlio Vargas para o suicídio. Lá, como agora, a perigosa associação de suspeitas, denúncias e ameaças de atentados.
Hoje, transformado em palco de envolvimentos espúrios, o Supremo é a bola da vez, centro de um conturbado cenário em que ministros e trâmites serviram, de bom grado, a interesses de um banqueiro que penetrou nos gabinetes, fez ali amizades bem remuneradas e diligentes apoiadoras de sonhos bilionários sem medidas. Ingredientes que explicam essa imensa confusão em que estamos metidos.
3 – Eis que chega o momento do espetáculo televisivo, prometido para a reunião do Tribunal desta terça-feira, agora em que a ordem é revelar, sem limites, todos os segredos já investigados em relação ao ministro Alexandre de Moraes, sob quem pesa fogo mais Intenso.
(Indispensável alguma cautela quanto às reais intenções de quem propõe a revelação de tudo e de todos a um só tempo. Pode ser uma bela artimanha, porque, se tanta gente tem contas a prestar, tão graves os envolvimentos, a maldade é dar capilaridade e visibilidade a todos os culpados, porque, se a confusão é grande, fica mais fácil lançar mão do pretexto safado de que a hora só deve cuidar de eleições tão próximas...)