'Nuvens' e abstenção vão decidir a eleição

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O telhado de vidro de Romeu Zema: reclama dos juros do Banco Central, mas cobra 321,68% ao ano por empréstimos buscados na Zema Financeira, empresa de sua família; critica a falta de ajuste fiscal, mas como governador deu calote na dívida de Minas com a União

Esta coluna sempre lembra a velha máxima do ex-governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, também conhecido por ter fundado o Banco Nacional, de que “política é como nuvem; a cada hora está de um jeito”. Também já chamei a atenção para o nível da abstenção como fator decisivo na eleição de outubro. Sobretudo quando o índice de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest era de 51% na semana anterior.

A 43 dias do primeiro turno (4 de outubro) e a 64 dias do segundo turno (25 de outubro), se houver, a pesquisa DataFolha, divulgada sexta-feira, mostrou o quadro ainda embaralhado. Mas, tanto a pesquisa Quaest quanto a da Datafolha não tinham nas perguntas aos eleitores contatados um fato importante que pode ter influência fundamental nesta reta final do calendário eleitoral.

Falo da conversa de 1 hora e 20 minutos entre o presidente Lula e o presidente Trump, na manhã desta sexta-feira, 21 de agosto, que reabriu o diálogo entre os dois países sobre o último tarifaço (25% + 12,50%), aplicado há duas semanas. A reabertura das negociações, após Lula reiterar ao presidente americano que as alegações para o tarifaço imposto pelo USTR (o escritório de comércio dos Estados Unidos) são "infundadas”, veio por determinação de Trump.

No meio da tarde, o representante de comércio dos EUA, embaixador Jamieson Greer, ligou para o seu homólogo no governo Lula, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Fernando Dias Rosa, convidando-o para uma reunião de trabalho para acerto de arestas no começo da próxima semana, em Washington. É mais uma mudança de nuvens no cenário externo e nas relações entre os governos Lula e Trump.

As nuvens estavam pesadas e fechadas, o que beneficiava Flávio Bolsonaro, que comemorou o tarifaço contra o Brasil em 2025 (derrubado pela Suprema Corte dos EUA, em fevereiro). Embora tenha plantado com o irmão Eduardo uma série de versões, que Lula disse a Trump serem "infundadas”, Flávio, para evitar o desgaste, disse que a culpa do “tariflávio”, como é citado nas redes sociais, “é de Lula”, por não ter negociado com Trump.

O ‘ganha-ganha’ das conversas

Pois Lula está negociando com Trump. Talvez, com nova ajuda de Joesley Batista, do grupo Friboi, que obteve a suspensão, por 90 dias, das tarifas para a importação de até 300 toneladas de carne moída. A carne moída é essencial ao hambúrguer, e o fim da tarifa ajuda a segurar a inflação. E Trump percebeu que a inflação alta, gerada pela guerra do Golfo, que fugiu ao controle, prejudica os republicanos nas eleições de renovação parcial do Congresso em novembro.

É considerável o prejuízo dos tarifaços elogiados pelo clã Bolsonaro. Estudo do Bradesco apontou que as exportações para os Estados Unidos encolheram US$ 6,9 bilhões no ano passado. O estrago só não foi maior, em faturamento e empregos nas cadeias produtivas, porque o governo Lula fez enorme esforço de conquista de novos mercados, conseguindo exportar US$ 2,7 bilhões para terceiros países, reduzindo as perdas líquidas a US$ 4,2 bilhões. Conversando, os dois lados vão encontrar um “ganha-ganha”, como sempre sustentou o vice Geraldo Alkimin.

Há muitas questões de interesse mútuo dos dois maiores e antigos parceiros das Américas, e a moeda a ser preservada, além da soberania brasileira, é a democracia.

Pesquisas não medem abstenção

Pesquisas eleitorais alegam ter margem de acerto de 95%. Mas, carecem de um fator fundamental em qualquer votação: não têm como estimar a taxa de abstenção. Na última eleição, de 2022, que estava mais polarizada que este ano, 20,9% dos eleitores (mais de 32 milhões de votantes) não compareceram às zonas de votação no primeiro turno. No segundo, foi um pouquinho menor: 20,59%.

Se tivemos 51% de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest, quando é o pesquisado que indica sua preferência, sem ajuda de cartelas, e a última Datafolha indicou Lula com 39% contra 33% de Flávio no primeiro turno (brancos e nulos eram 6%, e 4% não sabiam em quem votar), e o placar de 47% a 43% para Lula no segundo turno (brancos e nulo aumentaram para 9% e 2% não sabiam), o segredo da vitória estará, certamente, vinculado à distribuição da abstenção entre os dois candidatos líderes das pesquisas.

Na eleição de 2022, à parte toda a retórica para desgastar a credibilidade do voto eletrônico, pois estava atrás de Lula nas pesquisas (desta vez o Tribunal Superior Eleitoral é presidido por Nunes Marques, ministro indicado para o Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro), o então presidente da República articulou com a Polícia Rodoviária Federal dificultar a chegada dos eleitores do Nordeste (principal força eleitoral de Lula) às zonas de votação, com “blitz” nas rodovias federais contra ônibus transportando votantes. Nas grandes cidades foi visível a redução dos ônibus em circulação por parte dos donos de frotas.

Assisti sexta-feira, no Hotel Fairmont, em Copacabana, interessante painel organizado pelo LIDE, iniciativa do ex-governador de São Paulo, João Doria Jr, com os diretores da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, e o diretor da Atlas Intel, Andrei Roman. Os dois institutos concorrem com a Quaest e o Datafolha. A conversa foi feita sobre o cenário anterior à reabertura de diálogo entre Lula e Trump, que claramente beneficia o presidente contra Flávio. Ambos assinalaram um certo desânimo dos eleitores com as duas candidaturas que polarizam o país.

Mas Hidalgo chamou a atenção para fato pouco considerado. Para ele (antes da conversa com Trump), Lula teria mais chance de vencer no primeiro do que no segundo turno. Porque as pesquisas estão indicando, nas campanhas para governador (que ajudam a manter a mobilização dos cabos eleitorais e eleitores no segundo turno), a possibilidade de a fatura ser liquidada em 4 de outubro em São Paulo, Rio de Janeiro e nos principais colégios eleitorais do Nordeste. Isso aumentaria a desmotivação (abstenção) até 25 de outubro, quando será o segundo turno. Em 2022, o eleitor de Lula, que foi “seguro” nas estradas pela PRF, veio com mais disposição ao segundo turno.

De novo, sem considerar o fato novo do diálogo Brasil-EUA, Andrei Roman, da Atlas Intel, citou três temas que estavam favorecendo Flávio Bolsonaro. 1- nuvens negras contra Lula, por denúncias de corrupção de seu filho (daí o PT fazer pressão pela prestação de contas dos R$ 61 milhões tomados pelo senador ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro); 2 – criminalidade, que cresceu no Nordeste, com avanço das facções criminosas, o que explicaria a redução dos índices de Lula na região este ano. Roman arrisca dizer que uma chacina ou um assassinato de grande impacto na região poderia alterar o cenário eleitoral; e 3 – economia, o tempo está se encarregando de esvair os impactos de duas importantes medidas no campo econômico: a isenção do Imposto de Renda na fonte para quem ganha até cinco salários-mínimos (R$ 8.105) e o Desenrola. A oposição está aproveitando a quebradeira do varejo, com os altos juros do crediário, para levantar a pauta do ajuste fiscal.

A praga da indexação

Não me canso de mostrar na coluna O Outro Lado da Moeda que a grande causa do crescimento da dívida pública bruta, que chegou a 81% do PIB – considero mais realista falar da dívida pública líquida que está em 67% do PIB, pois o Banco Central carrega diariamente quase R$ 1,5 trilhão em papéis para fazer operações de “open market” - são os juros reais (descontada a inflação) de 10% (agora está em 9,1%!). E desde 2022, o mundo sofre o impacto de duas fortes altas de petróleo e alimentos devidos a guerras (na Ucrânia e Irã).

E o ataque ao ajuste fiscal, que produziria amplo efeito no aumento do PIB e na redução do endividamento de empresas, famílias e governo, com nova queda de dois pontos na taxa Selic (o piso de captação do mercado, que está em 14% ao ano), vem dos economistas do mercado, que ganham mais sem fazer força, quanto maior for a Selic.

Dou 100% de razão ao ministro da Fazenda, Dario Duringan, quando diz que as causas da inflação (no Brasil e no mundo) são a alta do petróleo, causada pela guerra de EUA-Israel contra o Irã, e a especulação com preços dos alimentos, antecipando possíveis impactos do El Niño, no último trimestre. Juro alto não combate isso. Mas, com a praga da indexação (a jabuticaba brasileira que realimenta a inflação com os preços do passado) o mercado ganha motivos para apostar contra o país, impactando as expectativas e os juros.

O telhado de vidro de Zema

Quem ouve o candidato Romeu Zema (Novo-MG), criticando a falta de ajuste fiscal e os juros altos, deveria conhecer um pouco mais o telhado de vidro do ex-governador de Minas Gerais. Em seus sete anos e meio de governo, deu o calote da dívida em cima do governo federal e não fez o ajuste fiscal (gastou usando a folga do calote).

Piores são as críticas ao nível dos juros no país. Levantamento do Banco Central junto a 78 instituições financeiras sobre os juros praticados no crédito pessoal não consignado, entre 3 e 8 de agosto, mostrou a Zema Financeira com a décima maior taxa de juros do país: 321,68% ao ano, ou 12,74% ao mês. O piso de captação do país está em 14% ao ano e a inflação atingiu 4,44% nos 12 meses terminados em julho. A maior taxa era da financeira Valor, com 746,41% ao ano!

A Zema Financeira é presidida por Romero Zema, irmão do ex-governador que é sócio da empresa. Nessas horas, sinto falta do ex-governador Leonel Brizola para exclamar: “Mas que cara de pau, hein!?”