Quem se comunica com o Trump também se trumbica
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O velho guerreiro, Abelardo “Chacrinha” Barbosa, dizia a cada programa: “Quem não se comunica se trumbica”. Chacrinha morreu em 30 de junho de 1988. Na passagem do velho guerreiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato ungido pelo pai, Jair Bolsonaro, tinha apenas sete anos (nasceu em 30 de abril de 1981). Aos 45 anos, formado em advocacia e com mandatos de deputado estadual (de 2003 a 2018) e senador (desde 2019), o filho 01 do ex-capitão já deveria ter mais capacidade de avaliação política. É o mínimo que se espera de quem sonha ser presidente.
A candidatura vem em descendente, desde 13 de maio, quando o site “Intercept Brasil” revelou suas conversas para pedir R$ 134 milhões ao então banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em fins de 2024, num relacionamento (negado num primeiro momento, seguido de contradições) que se prolongou até depois de ter a candidatura confirmada pelo PL. Pego na mentira, vem descendo a ladeira sem esclarecer totalmente sua relação com Daniel Vorcaro.7
E a situação só piorou quando tentou desautorizar a articulação da madrasta, Michelle Bolsonaro, no final do ano passado, na formação da chapa do PL ao Senado pelo Ceará. A mágoa criou o distanciamento da ex-primeira-dama dos quatro filhos de Jair Bolsonaro. Michelle aproveitou a data do jogo do Brasil com a Escócia para postar vídeo com pesadas acusações contra o enteado senador. Evangélica, ela presidia o PL Mulher há três anos e ampliou a filiação de mulheres e evangélicos ao PL. As mulheres representam 53% do eleitorado e os evangélicos beiram os 30%.
Pois os aliados de Flávio Bolsonaro, a começar pelo economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João Batista Figueiredo, que mora nos Estados Unidos onde trama contra o Brasil e o governo Lula com o filho 03, o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), fez disparos pesados e machistas contra Michelle. As balas perdidas atingiram a credibilidade do senador no meio feminino e evangélico.
Desesperado, mas desconhecedor da história, no dia 1º de julho de 2026, 38 anos depois da morte de Abelardo Barbosa, o senador tentou mais uma vez recorrer ao apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e lhe enviou carta. Talvez escrita a seis mãos. Possivelmente, o irmão Eduardo, que Flávio pretende nomear chanceler, se for eleito, e o parceiro Paulo Figueiredo, participaram da redação e das tratativas para encaminhar o e-mail ao Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, e à Casa Branca.
Atestado de entreguista
Trump, como mostrou a melhora da aprovação ao presidente Lula após o tarifaço do ano passado, que o clã Bolsonaro e os bolsonaristas aprovam saudando até a bandeira americana, está em baixa nos Estados Unidos e se tornou um ativo tóxico no Brasil e no mundo.
Clamar para o presidente Trump suspender, "até depois da eleição", a nova onda de tarifas ao Brasil, alegando que as restrições às exportações brasileiras favoreceriam "a reeleição de Lula", mas admitindo os tributos, se for eleito, prometendo, de antemão, favorecimento de pleitos americanos, foi uma confissão de entreguismo.
Getúlio Vargas se suicidou e passou à história com a “Carta Testamento”, cujos contornos escritos à mão pelo presidente foram burilados e amplificados em letra de forma, datilografada pelo amigo e secretário particular da Presidência, José Soares Maciel Filho, e lida na Rádio Nacional pelo ministro da Fazenda Oswaldo Aranha.
Já na carta-confissão de vassalagem, Flávio Bolsonaro informa que as tarifas propostas por Trump poderiam “recompensar os próprios infratores que pretendem punir”. O argumento central é que a retaliação comercial fortaleceria Lula eleitoralmente, porque permitiria ao governo brasileiro converter o conflito com os EUA em ativo político interno.
O posicionamento dos Bolsonaro e dos bolsonaristas está sendo devidamente explorado à larga pelo presidente Lula, e deve refletir em novas pesquisas que aumentam a distância entre o presidente e o senador, com chances crescentes de a fatura ser decidida no primeiro turno, em 4 de outubro.
Os bolsonaristas deviam dizer a seu atual líder que a música sertaneja “Nóis trumpica (sic) mas não cai” é perigosa agora.
Mancada com as mulheres
Decididamente, Flávio Bolsonaro é um personagem que “mídia training” e processos de suavização da imagem não conseguem burilar, tão enraizados são os traços truculentos e misóginos do clã Bolsonaro.
Imagina, caro (a) leitor (a). que precisando cativar o eleitorado feminino solidário com o desacato a Michelle Bolsonaro por Paulo Figueiredo, o senador participou, sexta-feira, 3 de julho, de evento na seção fluminense do PL Mulher, no Rio de Janeiro, e tratou de saudar "a mulherada”.
Lá, também ensaiou uma dancinha ao som de um funk com letra em sua homenagem. Como já foi criticado por falta de ritmo, à tarde foi aprimorar dancinha e passos de funk com o influenciador Pulga Chora Boy (?!) Planos para o país, nada.
Os tempos mudaram muito. Mas a falta de trato com o eleitorado feminino custou muitos dissabores ao então governador de São Paulo, Ademar de Barros, na campanha presidencial de 1955. Num comício em Recife, que era a maior capital do Nordeste, o candidato do PSP aproveitou para também saudar em alto e bom som “a mulherada”.
Foi uma gafe total. Afastou do palanque as mulheres das autoridades presentes, o cardeal, e esvaziou a plateia feminina. O desastrado Ademar desconhecia que, no Nordeste, em especial no Recife, “mulherada” era sinônimo das mulheres que exerciam a mais antiga das profissões.
Em tempo, a eleição de 1955 foi vencida por Juscelino Kubitscheck, da coligação PSD-PTB, com 3,077 milhões de votos (35,68% dos votos válidos). O marechal Juarez Távora, da UDN, ficou em segundo, com 2,610 milhões de votos (30,27). Ademar foi terceiro, com 2,222 milhões (25,77%).
Falta de modos é geral
Por sinal, o presidente Lula também precisa moderar a linguagem e controlar gestos em público. Numa cerimônia, sexta-feira, no Palácio do Planalto, ao comentar o tratamento preferencial de seu governo aos mais pobres, exibiu o dedo médio em diatribe contra as elites.
Críticas são válidas, mas sem perder a ternura, já dizia Che Guevara, com termos parecidos.