Mr. Trump, a capital do Brasil não é Caracas e nem Buenos Aires

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Haddad: crescendo nas pesquisas, junto com Lula em São Paulo, no vácuo das trapalhadas de Flávio e Tarcísio

Impressionante a coletânea de equívocos sobre o Brasil proferidos pelo presidente americano, Donald Trump, em resposta a uma pergunta da jornalista Bianca Rothier, da Globonews, sobre a condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, após o primeiro encontro dos líderes mundiais na reunião do G-7, em Evian, na França. Para quem se autodeclarou “The Boss” (o chefe), ao chegar bem atrasado ao “meeting”, foi uma prova de desqualificação pessoal e do “staff” diplomático americano.

Mesmo com a ressalva de que já havia saído de Washington quando soube do caso por alto, é inadmissível que tenha feito tantos juízos equivocados sobre o Brasil. Em primeiro lugar, confundiu o irmão 01, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputa a Presidência, com o irmão 03, que vive nos EUA desde fevereiro do ano passado, tramando contra o Brasil (razão de sua condenação unânime pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal) nos meandros do Departamento de Estado, com seu parceiro Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João Batista Figueiredo. Há cerca de um mês, o presidente americano recebeu rapidamente o trio no salão Oval da Casa Branca, onde posaram para fotos.

Pelo teor das respostas de Donald Trump, é possível avaliar que o “brieffing” recebido pelo Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, que estava atrás do presidente na entrevista, tenha sido influenciado pelo clã Bolsonaro. Primeiro, confundiu a pessoa do réu condenado (ou preso, como chegou a dizer) [não era o “Bolsonaro Jr”, mas Eduardo, e não Flávio, que é o filho mais velho], segundo, o senador não lidera as pesquisas eleitorais para outubro, ao contrário, está em queda contínua há mais de um mês. Terceiro, a condenação não foi por suposta "declaração no Texas", onde mora em casa que pode ter sido adquirida com parte do dinheiro de Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a vida do pai, mas por tentar influir e obstar, desde o começo do ano passado, o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a trama golpista. As ações levaram à imposição de tarifas contra as exportações brasileiras aos Estados Unidos, sanções a oito dos 11 ministros da Suprema Corte pela Lei Magnitsky, e ainda a ameaças ao Pix e à soberania nacional. Mas, ainda assim, o STF não cedeu à chantagem e condenou Jair Bolsonaro a 27 anos, e agora o filho 03 a quatro anos e dois meses de prisão.

Por ignorância sobre história e geografia, apesar de seu inegável poderio bélico, o exército dos Estados Unidos já sofreu algumas derrotas clássicas (Vietnã, Iraque e Afeganistão, e internamente contra as tribos indígenas na malsucedida carga do desinformado general Custer na batalha de “Little Bighorn”, em Montana, que no próximo dia 25 completa 150 anos).

Agora, os EUA de Trump estão enredados na crise do Golfo Pérsico com o Irã, por terem se aliado a Benjamin Netanyahu num ataque fulminante, em 28 de fevereiro, contra a cúpula do Irã em Teerã, da qual “Bibi” garantiu que faria ruir o regime em “três a quatro semanas”. Só que não foi um passeio, como no sequestro e prisão de Nicolás Maduro, no palácio de Caracas, em 3 de janeiro de 2026. Boa parte da cúpula do regime dos aiatolás foi eliminada, mas o Irã, um povo milenar, resistiu, e quase todo o mundo paga o preço (às vésperas do quinto mês de conflito) da escalada da inflação (e juros) decorrente da alta do petróleo do Oriente Médio – 25% a 30% do consumo mundial – pelo estrangulamento do tráfego no Estreito de Ormuz.

Os erros de avaliação dos Estados Unidos sobre o sistema eleitoral brasileiro e as relações comerciais entre os dois países são aberrantes, como o citado déficit comercial americano em relação ao Brasil (é o contrário), um dos pilares da justificativa do tarifaço extra ao Brasil (comemorado em junho de 2025 pelos irmãos Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas – então o candidato preferido da direita para enfrentar Lula, mas descartado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que confia mais no indulto com eleição do filho 01. Outro absurdo é a visão sobre o Pix (oferecido pelo ora condenado Eduardo em futuras negociações com os Estados Unidos – Flávio Bolsonaro, se eleito, prometeu nomear o irmão, ex-futuro embaixador do Brasil em Washington no governo do pai, como chanceler, para comandar a diplomacia brasileira no Itamaraty). Quem bate continência à bandeira americana abdicaria da soberania brasileira.

Que os americanos entendem pouco do resto do mundo, é fato. Há em relação ao Brasil uma anedota clássica: a gafe cometida por Hollywood, no filme “Serenata Tropical”, de 1940, em uma cena em que a brasileira/portuguesa Carmen Miranda desembarca em Buenos Aires como se fosse a capital do Brasil (que era o Rio de Janeiro). A visão errônea é mais distorcida em filmes de “aventuras” que encontram pirâmides na Amazônia e animais da fauna africana, como gorilas e javalis. Imagina cobrar dos americanos médios a distinção dos três Poderes exercida em Brasília, capital da República Federativa do Brasil desde abril de 1960.

Nem vale contabilizar a rata do presidente Donald Reagan, quando, em novembro de 1982, veio a Brasília para socorrer o governo do general Figueiredo, em plena crise da dívida externa, com um cheque de US$ 300 milhões, e declarou: “saludo el pueblo de Bolivia”. O “teleprompter” antecipou erradamente a próxima escala, em La Paz. Mas o que chama a atenção é o valor baixo do óbulo.

Donald Trump recebeu do presidente francês sutil lição de história; Emmanuel Macron o recepcionou, após o G-7, em comemoração aos 250 anos da Independência dos Estados Unidos (4 de julho), no deslumbrante Palais de Versailles, onde reinou a Corte francesa até a queda da Bastilha (14 de julho de 1879), seguida pelos dez anos turbulentos da Revolução Francesa.

A aula de história ao orgulhoso Trump corria enquanto conhecia o luxo do palácio e podia compará-lo à cafonice dourada que imprime na reforma da Casa Branca, até chegar ao magnífico salão principal para assinar o armistício com o Irã. Será que “the boss” aprendeu a lição, ou seguirá agindo entre a farsa dos “telecatchs” (que explorava em New Jersey) e a violência dos MMAs, com a qual comemorou seus 80 anos nos jardins da Casa Branca?

Bahia é o 4º colégio eleitoral
Para quem estava afundando nas pesquisas, sobretudo no Sudeste, a região mais populosa do país, desde que foi comprovada a mentira (que tentou desmentir de imediato ao ser indagado pelo repórter do “Intercept Brasil”, em 13 de maio último) de que nunca tivera relações com o Banco Master, quando o mesmo site transcrevia a conversas que teve em setembro e novembro de 2025 cobrando "recursos atrasados" (já tinha recebido R$ 61 milhões dos R$ 134 milhões prometidos) para bancar o filme “Dark Horse”, a revelação da descoberta de negociações entre o ex-governador da Bahia, senador Jacques Wagner (PT-BA) com o ex-sócio do Banco Master, Augusto Lima, serviu como boia de salvação à espera de socorro de naufrágio à vista.

Quarto colégio eleitoral do país, com cerca de 11,5 milhões de eleitores, e quarto mais populoso estado brasileiro, com 14,8 milhões de habitantes, segundo estimativas do IBGE, a Bahia assegura a maior vantagem para a candidatura de Lula no Nordeste, onde desconta as perdas no Sul e no Centro-Oeste.

Esta semana houve a revelação das tratativas de Jacques Wagner com Augusto Lima, a quem trata por Guga desde quando o futuro sócio de Vorcaro (em 2019, via Banco Pleno, também liquidado em novembro de 2025) tornou-se dono da rede de supermercados Empresa Baiana de Alimentos, o antigo Paes Mendonça estatizado por Antônio Carlos Magalhães. Nos celulares do senador há trechos de pedido dele para Augusto Lima comprar um apartamento em obras para sua filha, a fim de que Wagner recomprasse o imóvel após a venda de um outro de menor valor.

Não se sabe o efeito do caso na política baiana, onde o atual governador, Jerônimo Rodrigues (PT-BA), disputa palmo a palmo a reeleição contra ACM Neto (União-BA), muito menos o estrago na candidatura à reeleição do senador. A pesquisa Datafolha, colhida entre os dias 17 e 19 de junho e divulgada nesse sábado, mostrou o mesmo cenário para o segundo turno: Lula com 47% e Flávio com 43%. Mas o que chamou a atenção foi o avanço de um ponto (de 40% para 41% para Lula no primeiro turno, enquanto o senador continuava com 31%). A depender do grau de abstenção (e dos votos válidos), Lula continua com chances de ganhar no primeiro turno.

Entretando, seria conveniente, como já expressaram lideranças do PT na Câmara e no Senado em “off”, para não melindrar o senador, que ele se licenciasse da liderança do governo Lula no Senado para evitar danos colaterais ao presidente em campanha. O afastamento se daria até o completo esclarecimento do episódio. Se nada for provado, Jacques Wagner ganha selo para a campanha e pode retornar ao cargo, ainda este ano ou com Lula reeleito.

Jacques Wagner e o presidente Lula, que manifestou confiança no senador, deviam seguir o exemplo do presidente Itamar Franco e do seu chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves. Em 1993, Hargreaves foi apontado pela CPI dos “Anões do Orçamento” como suspeito por desvio de dinheiro público. Imediatamente, se licenciou para responder às acusações fora da função e para evitar problemas para Itamar. Provada sua inocência, voltou ao cargo.

O abalo não pode extravasar os limites da Bahia, para não obstaculizar o avanço de Lula nas pesquisas. No Sudeste, além de estar ligeiramente à frente em Minas Gerais, segundo colégio eleitoral, onde Flávio nem Lula armaram palanques, a vantagem de Flávio e seus aliados vem caindo no Rio de Janeiro, pelas revelações das interrelações do clã com o crime organizado, e em São Paulo. O ex-ministro Fernando Haddad foi escolhido para enfrentar Tarcísio de Freitas, para reduzir os danos da derrota de Lula nas pesquisas. Mas Haddad vem crescendo junto com Lula no vácuo das trapalhadas de Flávio e Tarcísio. Em fevereiro, o governador tinha 23 pontos de dianteira. Caiu para 13,8% em maio e, agora, a 11,5% em junho.

‘Strike’ contra ‘bets’ e crime organizado
Por sinal, na sexta-feira, a equipe que Haddad deixou no Ministério da Fazenda deu um tiro certeiro que fez um “strike” nas “bets” que operam ilegalmente no país e facilitam a evasão de divisas do Brasil e a lavagem de dinheiro do crime organizado.

Vale lembrar que a jogatina das “bets”, a maioria registrada em paraísos fiscais, foi autorizada no final do governo Temer (2018), mas o governo Bolsonaro atravessou quatro anos sem regulamentar o setor, facilitando toda sorte de crimes.

Coube a Haddad impor normas, desde o final de 2023, e exigir capital mínimo e registro na Receita Federal. Os que não se ajustaram estão caindo na rede, com a asfixia financeira ao crime organizado, que envolve ainda os devedores contumazes, radicados nos EUA, como o ex-dono da Refit, Ricardo Magro, um gordo sonegador.

É mais eficaz abafar a movimentação financeira que se alimenta duplamente do tráfico de drogas e do contrabando de armas do território americano para as quadrilhas brasileiras, do que declarar como “organizações terroristas” o PCC e o Comando Vermelho (que, embora espalhem terror onde atuam, assim como o Terceiro Comando Puro, não se comparam aos congêneres internacionais) e expor o cidadão de bem e trabalhador às balas perdidas do fogo cruzado entre os bandos e as polícias.