O tamanho dos pecados

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Por

Daniel Vorcaro

Com pouco mais de quatro meses que nos separam das eleições, e a algumas semanas das convenções partidárias para homologação de candidaturas, é interessante a divagação das pesquisas e das previsões dos cientistas políticos, em particular quando se trata de descobrir quem haverá de ocupar a Presidência da República a partir de janeiro. Mas não podem ser acusados de devaneios, porque, se o clima político sugere incertezas, as digressões fazem sentido. O que se, por um lado, amplia discussões e dão aos cidadãos oportunidade de conhecer melhor quem está chegando para pedir o voto, sob outra ótica pode confundir, com o risco de um processo excessivamente conturbado nas etapas finais da campanha.

Na lista dos temas que as pesquisas e os analistas avaliam para inspirar a vasta população votante, há uma preocupação geral com o custo de vida, e entendem que a dor no bolso do consumidor vai suplantando outras questões relevantes, tais como a insegurança pública, as deficiências na educação e nos serviços de saúde. E a corrupção.

Sobre a corrupção, que cavalga a galope, de norte a sul, surge interessante detalhe na percepção dos que identificam nela amplo potencial para influir (a despeito de não ser este um item que sensibilize, prioritariamente, as multidões, o que tem permitido, por exemplo, que sejam eleitos, no Rio, governadores que frequentemente saltam do Palácio Guanabara para o presídio).

De fato, se não bastasse estar o país sufocado por avassaladora e desavergonhada onda de desonestidades e ilicitudes, temos caminhado, paralelamente, para algo curioso, que vai ganhando corpo e carona nos primeiros passos da campanha. Observemos: já não se cuida de reagir à corrupção como o grande câncer a combater e vencer, mas vão se revelando candidatos preocupados tão somente em se apresentar como menos corrupto que os adversários; se não podem dizer que são honestos, porque efetivamente não o são, resta mostrar que têm a virtude de pecar menos contra a moral de a ética, suficiente para uma contrição. Querem se recomendar ao eleitor com a qualidade do menos pior num mundo de pecadores. O mérito da probidade com a coisa pública é condenada às calendas.
À primeira vista, dito assim, parece pilhéria ou exercício de ironia. Mas não deixa de ser dolorosa realidade, porque, se estamos sob o império da impunidade, a preocupação dos maus políticos é agora mostrar que concorrem com quem é pior.

2- Sobre fatos e pessoas capazes de influir no 4 de outubro, não convém desprezar um personagem que hoje enche as páginas e não sai da televisão; preso, mas cada vez mais perigoso, na mesma proporção em que se sente acuado. Daniel Bueno Vorcaro. Na ânsia de ganhar a liberdade ou minimizar o peso das penas que o aguardam, ele pode elaborar delações demolidoras de candidaturas, balançar tribunais, destruir ministros e ferir os altos interesses daqueles que já chamou de “bons amigos nos três poderes”, que o contemplam apenas com olhar de paisagem, sem prestar socorro na hora ingrata.

Sabemos todos que ele sabe muito. Na aflição de salvar a própria pele, Vorcaro, denunciando o que a Justiça ainda não sabe sobre o banco Master, pode se tornar cabo eleitoral devastador. Sem dinheiro, não há mais como eleger amigos favoritos, nem financiar uísque milionário em Londres, mas tem tudo para sepultar candidaturas e altos esquemas que giram em torno do poder.