Negócios da China

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Fecharam a semana esvaziadas as previsões de que o recente encontro dos presidentes Trump e Lula estaria marcado por troca de farpas e ressentimentos, quando, na verdade, dele resultaram, ao menos para aparências imediatas, recepção gentil e cordialidades em tapete vermelho. Esse clima pode ter contrariado não apenas alguns assessores do anfitrião, tradicionalmente antipáticos às causas brasileiras, como também desanimou grupos políticos de direita e de esquerda, que apostam em divergências e convergências para influir no processo eleitoral.

O Brasil, por si só, não figura no primeiro plano dos interesses dos Estados Unidos. Mas as intenções econômicas vão além. Então, o que deve ficar exposto, salvo melhor juízo, é que a reunião de quinta-feira foi um pano de fundo, ainda não totalmente à mostra, para a real intenção de Washington, que é trabalhar para conter a ação dos chineses na América Latina, a começar por nós, que aí figuramos como referência central e principal. Brasília é fundamental para fazer esse projeto prosperar.

(O presidente Trump não ignora que a China ampliou, em quase 40%, nos últimos três anos, seus investimentos em território brasileiro, e não pode negar que, tratando-se do principal concorrente, é um dado significativo a considerar. Uma afronta no que ele considera sermos o seu quintal...)

Essa presença ganha dimensão quando os interesses asiáticos se concentram no solo, na água, nas fontes energéticas e nos metais estratégicos; principalmente estes, porque deles a produção tecnológica vai se aperfeiçoando com notável rapidez.

Um grupo de trabalho, com constituição paritária, vai dar encaminhamento às pretensões que Lula deixou em Washington, como a remoção da sobretaxação que prejudica nossos exportadores. Esse expediente ainda pode servir para novas pressões, se necessárias, ou afrouxadas, como favor recíproco a menores liberalidades nas relações sino-brasileiras.

2 - A comitiva presidencial que retornou de Washington voltou para casa convencida de que ao governo americano não move qualquer intenção de influenciar na eleição presidencial de outubro. Apenas uma impressão, longe de ser constatação, principalmente porque o governo de hoje contrasta, ideologicamente, com o figurino de Tio Sam. É uma realidade que os sorrisos presidenciais não removem. Ninguém desconhece nos corredores da Casa Branca que assessores diretos e influentes no gabinete de Trump e ele próprio torcem, com dissimulações, pela vitória de Flávio Bolsonaro; como torceriam por qualquer outro que pudesse arranhar o projeto de reeleição de Lula. Longe de ser um jogo ostensivo, essa preferência nem precisa ser recomendada a setores influentes da economia, da política e nas salas diplomáticas, que entendem, sem que seja preciso que alguém lhes diga com total clareza.