Trump embaralha as cartas com ‘presidente dinâmico’ em referência a Lula

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Lula e Trump sorridentes, com ministros, na Casa Branca: 'química' fortalecida

Já disse aqui várias vezes, lembrando o ex-governador mineiro José de Magalhães Pinto, também conhecido como fundador do ex-Banco Nacional, que “a política é como nuvem”; cada vez que a pessoa a vê, ela está de um modo; na vista seguinte, o cenário já mudou.

Há 10 dias, após duas acachapantes derrotas do governo Lula no Congresso – a indicação do AGU Jorge Messias, derrotada por 44 votos dos 81 senadores, e o veto do presidente Lula à redução das penas dos condenados pela trama golpistas do 8 de janeiro de 2023 (na Câmara dos Deputados foram 318 votos contra o veto e 144 a favor, com 5 abstenções, e no Senado foram 49 votos pela rejeição do veto e 24 contra, no dia 30 de abril) -, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo pai em outubro, para disputar a Presidência, se apressou a decretar que “o governo Lula acabou”.

As nuvens pareciam carregadas para o governo Lula, que nem fez comemorações ostensivas na sexta-feira, 1º de maio. Mas, no fim de semana veio uma notícia inesperada que encheu de esperança o clã Bolsonaro e a ultradireita: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o republicano tido como aliado, convidou Lula para um encontro na Casa Branca. As notícias espalhadas pelo clã, irradiadas pelo filho 03, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que atua nos EUA conspirando contra o Brasil na companhia do economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador do país, general João Batista de Figueiredo, diziam que Trump poderia enquadrar os traficantes brasileiros como terroristas (as trocas de informações entre a Polícia Federal e o FBI seriam concentradas na CIA, e que poderia haver interferência no Brasil) e mais, que o Pix estava na marca do pênalti, como as sanções americanas às exportações brasileiras (mais tarifas à vista).

O clã não escondia a torcida para Trump repetir as grosserias contra os presidentes da Ucrânia e da África do Sul. Mas Lula é um negociador escolado desde a representação sindical, quando negociava salários e conquistas trabalhistas com as multinacionais do ABC na ditadura. Presidente, com o apoio da competência diplomática do Itamaraty, que sobreviveu ao governo (?) Bolsonaro, recuperou o “status” do Brasil no concerto das nações. Trump percebeu que Lula é diferente quando assistiu parte do seu discurso na ONU, em setembro do ano passado, e em seguida tiveram uma “boa química” numa rápida troca de gentilezas de 29 segundos. Passo seguinte foi a marcação de uma conversa na Malásia, em novembro. O encontro na Casa Branca estava previsto para março, mas foi atropelado pela guerra de Israel-Estados Unidos contra o Irã, que começou em 28 de fevereiro. Uma trégua temporária abriu espaço na agenda para o encontro de quinta-feira, 7 de maio.

Trump vira trunfo de Lula
Não sei se Lula joga truco. Mas ele foi para a reunião preparado para tirar partido do seu maior trunfo (o 3 de paus no jogo de truco) que era o presidente Donald Trump (em inglês quer dizer trunfo). A empatia mútua entre os dois seria explorada por Lula, que tinha a oportunidade de um diálogo franco e igual entre as duas maiores democracias das Américas. Isso, após sete anos de quase interrupção nas relações diplomáticas entre Brasil-EUA (congeladas no governo Bolsonaro, que batia continência para a bandeira americana e que, após reabertura nos governos Biden e Lula (2023-24), ficaram travadas no segundo governo Trump, quando o clã Bolsonaro agiu de sabotador dos interesses nacionais e da soberania brasileira.

Quem não se lembra como Eduardo e Flávio, além do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (o candidato inicial do clã nas eleições presidenciais de outubro) comemoraram o tarifaço que infligiu bilhões de dólares de prejuízo às exportações brasileiros, o que resultou em perdas de emprego?

Lula e o Itamaraty queriam o maior tempo possível para a troca de pontos de vistas e aparar arestas criadas por terceiros. Escolado, para não repetir a coletiva de imprensa antes do encontro em Kuala Lumpur – quando, tanto a imprensa americana como a brasileira, queriam saber de temas domésticos, sobrando pouco tempo para a conversa “tête a tête”, lenta pela necessidade de tradução mútua - Lula propôs a Trump falar com a imprensa só depois do encontro, que “foi muito produtivo” e continuou pelo almoço, somando três horas. Tudo encerrado com sorrisos. Mas a agenda de Trump, a seguir, cortou a coletiva. Que ficou restrita a Lula na Embaixada do Brasil em Washington.

Assuntos espinhosos, como as divergências sobre a balança comercial e tarifas (os EUA acusam o Brasil por altas tarifas de importação [que serão reduzidas com a União Europeia], mas têm superávits bilionários há uma década) foram deixados para solução com grupo de trabalho, que entra em campo na próxima semana. Lula entregou um longo dossiê com posições claras do Brasil para cooperação na exploração de terras raras, envolvendo investimentos americanos na sua transformação em minerais críticos, com ganho de valor. Desafiou os Estados Unidos a participarem - como a China - de projetos de infraestrutura no Brasil. Os EUA ainda são o maior investidor estrangeiro no Brasil, mas, nos últimos anos, perderam terreno para a Espanha, a Holanda (Países Baixos) e a China. Trump disse na sexta-feira, à Globonews, que “discutiu tudo num ótimo encontro com Lula e o Brasil”. O sucesso decepcionou os bolsonaristas.

Barata voa nas hostes da direita
Para piorar, enquanto as nuvens se moviam em Washington e ofereciam um céu de brigadeiro a Lula e a Trump, na mesma manhã de quinta-feira o tempo fechou para o ex-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro, o senador piauiense Ciro Nogueira, que é o presidente do PP, um dos esteios do Centrão, que está em negociação para uma fusão com o União, quando a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão nos endereços do senador em Brasília.

O autor da emenda que elevaria, em 2024, o aval do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), bancado pelos grandes bancos, a aplicações financeiras como CDBs e outros papéis de renda fixa, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão (a emenda foi redigida pelo “staff” do Banco Master), foi alvo na residência que ocupa em Brasília, de propriedade do “amigo de toda a vida”, Daniel Vorcaro. Trechos transcritos dos celulares do dono do Master indicaram mesadas de R$ 300 mil a R$ 500 mil para o presidente do PP.

Apanhado com a boca na botija, o senador que foi cogitado no começo do ano para ser vice na chapa de Flávio Bolsonaro, depois de um dia desnorteado quando sua casa caiu (na verdade a casa é de Daniel Vorcaro, repito, que também pagou os custos de viagens de turismo pela Europa), na sexta-feira, certamente instruído por seu experiente advogado, o senador, acusado de graves infrações ao decoro do Senado, reagiu com indignação: “Estão querendo manchar a minha honra” (sic). Há dois meses, quando seu nome surgiu nas conversas do celular de Vorcaro, em entrevista em seu estado disse que renunciaria se algo fosse encontrado que o desabonasse. “Mas, que cara de pau”, diria o saudoso Leonel Brizola. Será que a casa de Vorcaro não tem espelhos?

O fato provocou declarações desencontradas do candidato Flávio Bolsonaro. Quinta-feira, disse que as apurações deveriam ir até o fim. Na sexta-feira, já cogitava uma mulher para vice e evitava falar em Ciro Nogueira.

E também abalou a campanha do governador Tarcísio de Freitas à reeleição. Um evento que selaria nesta semana a adesão do PP à sua candidatura foi cancelado, esperando as nuvens carregadas passarem.

As eleições estão longe, mas as pesquisas eleitorais da semana vão mostrar se as nuvens mudaram as intenções de voto.

Juros altos explicam a concentração de renda

Quem me acompanha aqui aos domingos ou na semana, na coluna O Outro Lado da Moeda, sabe que sou um crítico feroz aos altos juros praticados no Brasil. Não fazia sentido a Selic (o piso dos juros no país) fechar 2025 a 15% ao ano para uma inflação de 4,29% (como não faz agora a Selic estar em 14,50% com a inflação de 4,14% e, mesmo com as projeções de que pode fechar o ano acima de 5%, devido às pressões inflacionárias da Guerra do Golfo). Juros reais mínimos de 10% travam a economia, endividam as famílias e as micro e pequenas empresas e oneram o Tesouro. O pior é a concentração de renda. O ganho real dos rentistas é o dobro do ganho dos assalariados.

O IBGE divulgou na sexta-feira que a concentração de renda aumentou em 2025 e vem aumentando desde 2019. A razão é clara: o elevado nível dos juros reais no Brasil. Mas os economistas e gestores de fortunas da Faria Lima, que nadam de braçada com os juros altos, vivem criticando os gastos dos programas sociais e calam sobre juros. Apenas alertam que o tamanho da dívida chegou a 80% do PIB.

Só em juros, no ano passado, a dívida pública custou R$ 1 trilhão e 7 bilhões. A dívida é rolada com novos títulos que engordam os ganhos dos 1% mais ricos. Nos últimos 12 meses terminados em março, os gastos chegaram a R$ 1,080 trilhão. Isso representa 8,35% do PIB. Era de 7,7% em março de 2025. Segundo o Orçamento Geral da União de 2025, os salários do funcionalismo e os programas sociais consumiram 5,61% dos gastos. Mas a conta dos juros somou 12,19%, mais que o dobro.

Não é de se admirar que o IBGE diga que “a análise da distribuição de renda indica que, embora a desigualdade tenha recuado em relação aos anos anteriores à pandemia, ela segue elevada”. Em 2025, os 10% da população com rendimentos mais elevados recebiam, em média, 13,8 vezes o rendimento dos 40% com menores rendimentos.

Além disso, a fatia dos 10% da população com os maiores rendimentos em 2025, que atingiu 40,3% do total da massa de rendimentos domiciliares, superava a fatia (32,8%) dos 70% da população com os menores rendimentos. Está precisando um “Desenrola” para a dívida pública, com redução de juros reais.