A palavra está em crise

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A passagem, hoje, do Dia da Língua Portuguesa, não desperta maiores reflexões, mas serve, ao menos, para se lamentar o progressivo mau uso da palavra nas escarpas políticas e nos tribunais deste país. Se o bem falar está quase falido mundo afora, não menos entre nós, desmentindo o poeta Virgílio Ferreira, para quem a palavra faz parte do idioma “um bem precioso que une os povos que o mar separa”. Fato é que, falada ou escrita, ela vem separando e dividindo, denunciando e ofendendo, gera crises e afeta o mínimo de harmonia entre os poderes constituídos. Outra coisa não se constata, por exemplo, nesse bate-boca rasteiro entre o ministro Gilmar Mendes e o ex-governador mineiro Romeu Zema, que também divergem sobre o modo de falar. A palavra ainda padece no baixo calão que desce das tribunas para agredir autoridades e expor as famílias. Os debates do momento, sobretudo nas redes sociais, nivelam-se aos piores conflitos de fins de semana entre torcidas de futebol, só faltando lançar pedras e derramar sangue...

2 - Aplaudida por vários setores da sociedade, sobretudo entre agentes da área jurídica, foi a decisão do Supremo Tribunal Federal de mostrar suas sessões e decisões pela TV, e, com isso, pretendendo aproximar-se do público, e fazer-se entender; o grande público até então à distância. Veio o primeiro descuido. A corte não cuidou de evitar que seus ministros continuassem abusando de linguagem hermética e longuíssimos pareceres afetados no juridiquês.

Mas isso ainda não é tudo. Pior foi a transformação do Supremo em palanque de protagonismo, não raramente ocupado por um exibicionismo só consentido no palco de artistas em busca de aplausos. Salvo exceções, há ministros que abandonaram o dever de falar nos autos para apenas falar alto diante das câmeras. Já virou coisa do passado a discrição dos antigos magistrados, que podiam andar nas ruas e frequentar padarias sem serem reconhecidos. Sem aplausos e sem apupos.

A TV no Supremo e em outros tribunais não sabe o mal que nos fez, com o bem que nos quis fazer.
(Nem se sabe se o futuro e prometido código de posturas do ministro Fachin seria suficiente para conter o estrelismo indesejável no primeiro entre os tribunais).

3 – Verdade se diga, não somos sós na crise da palavra. O mundo vem se debatendo, nos últimos meses, com problemas gerados pela guerra que os Estados Unidos travam com o Irã, e que acaba sendo uma tragédia das palavras mal ditas dos litigantes. Seus efeitos espirram sobre todos nós.
Mas por que as coisas têm complicado tanto por aquelas bandas?

Mais do que deviam complicar! Certamente porque o chefe maior dos guerreiros, o presidente Donald Trump, tornou-se o mais fantástico esbanjador de palavras, capaz de usá-las e descartá-las sem medir consequências. Num sopro de ameaças ou no pronunciamento descuidado pode lançar graves ameaças, e desautorizá-las pouco depois.

Os inimigos já constataram isso, e dão corda, esticam o assunto. Líderes mais sábios, como Xi Jinping (ele carrega no dizer e no silêncio a milenar sabedoria chinesa), falam apenas o indispensável, raras entrevistas, e, de longe, atentos, esperam para ver como ganhar da guerra sem se arranhar. A história é antiga, e corre o mundo: presidente que fala muito dá bom dia a cavalo.