Bolsonaro quis vender a Petrobras que salva Brasil na guerra do óleo
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Para alívio dos que têm juízo na Terra, os quatro astronautas da missão Artemis II amerissaram sãos e salvos no Oceano Pacífico, perto da base naval de San Diego, na California, e as delegações dos Estados Unidos e do Irã se sentaram à mesa de negociações de Islamabad, capital do Paquistão, nesse sábado (11), para tentar selar um armistício duradouro que não cause tantos impactos na vida dos consumidores de todo o mundo. A inflação já disparou em março na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil, África, Ásia e na Oceania. Com o estrangulamento do tráfego de navios no Estreito de Ormuz, os preços dos combustíveis e dos fertilizantes foram à Lua, e não se sabe quando e como voltam à Terra. Assim como Cuba ficou à beira de colapso sem a ajuda da Venezuela e o bloqueio dos EUA, a rica e pacata Austrália, à míngua de combustíveis, está sendo socorrida às pressas por uma frota de navios americanos e ingleses com diesel.
E o Brasil, como ficou nessa? O resultado da inflação de março, que subiu dos 0,70% de fevereiro (impacto sazonal das mensalidades escolares) para 0,88%, assustou. O item Transportes liderou as altas, com 1,64%, puxadas pelo salto de 4,47% nos combustíveis e destaque aos 4,59% de aumento da gasolina nas bombas. O governo se esforçou para proteger os preços do diesel (que tem 25% a 30% do consumo vindos da importação) com subsídios, mas o diesel subiu 13,90%. Diretamente, pesa bem menos no IPCA que a gasolina, o item de maior peso, que não sofreu reajustes, mas impacta o transporte de mercadorias e de passageiros. Os Alimentos e Bebidas que atendem os consumidores das cidades brasileiras já tiveram o primeiro impacto, com alta de 1,56%. Mas a decomposição das entranhas da inflação traz à tona um tema que deverá dominar o debate eleitoral: a questão da soberania brasileira e do papel do Estado, representado pela Petrobras, na gestão da crise energética. O mundo passa pela transição energética. Mas, até 2030-40, ainda terá imensa dependência de fontes fósseis de energia (carvão, e petróleo e gás). A maior inflação da gasolina e do diesel veio da Bahia, onde ocorreu a maior privatização de refinaria da Petrobras no governo Bolsonaro (pés-de-chinelos que roubam celulares, mas fazem vista grossa à ação da banda podre da polícia (idem da Justiça e do Legislativo e do Executivo), que troca figurinhas com o crime organizado: acompanhar o fim do julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do processo sucessório-eleitoral do governo do RJ.
Não sou Leonel Brizola, mas um carioca que venho de longe. Depois que a cidade do Rio de Janeiro deixou de ser a capital federal e virou Estado da Guanabara, houve a “matança dos mendigos”, atirados no Rio da Guarda, afluente do Guandu, pela polícia do governo Carlos Lacerda, que fazia uma espécie de limpeza étnica de pessoas que viviam nas ruas, desocupadas, vindas dos municípios da Baixada Fluminense ou de outros estados.
Quando a Guanabara se uniu ao antigo Estado do Rio, em 1975, por decisão autocrática do governo Geisel, surgiram programas popularescos tipo “O Povo na TV”, no qual policiais como o Detetive Sivuca alardeavam que “bandido bom é bandido morto” [por não poder contar perante o juiz ou o Ministério Público suas ligações com a banda podre da polícia e da política]. No meio do quadro dantesco, um jovem advogado fazia o papel de defensor da Justiça. Teve longa carreira política, até virar deputado federal e presidente do PTB (não o PTB de Getúlio Vargas e Brizola): o advogado Roberto Jefferson. Acabou preso em outubro de 2022, em sua residência, em Levy Gasparian (interior do RJ), na véspera da eleição, por atacar com bombas e metralhadoras agentes da PF que cumpriam mandado de prisão assinado pelo ministro Alexandre de Moraes, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Bolsonaro viu na ação extremada do seu apoiador mais uma das causas da derrota para Lula. E tentou o golpe.
A escalada compartilhada entre a política e o crime, com as milícias sendo apoiadas pela ultradireita, e outra banda cooptada pelos donos de bancas do bicho [o ministro Gilmar Mendes, do STF, calculou em 34 os deputados da Alerj bancados por bicheiros, suas “excelências” não gostaram: seriam 40?], ou de apostas eletrônicas (menos da metade atua sem regularização), culminou no “sui generis” episódio da renúncia do governador Cláudio Castro (União-RJ). Processado por fraude eleitoral, em 2022 (ele chegou ao cargo em 2021, após o “impeachment” do juiz Wilson Witzel, de quem era vice), por ter contratado milhares de cabos eleitorais à custa de entidades do governo fluminense, como o Ceperj, tudo bancado pelo falido erário do RJ, Castro, que sonhava se candidatar a senador pelo União, esperou até a véspera do julgamento de seu caso pelo STF (o Tribunal Superior Eleitoral foi alvo de manobras protelatórias), poucos dias antes do último dia para desincompatibilização, para renunciar ao cargo e ficar livre, leve e solto para disputar o Senado e, caso eleito, ganhar imunidade por oito anos.
Parecia um golpe de mestre para evitar ser preso, como foram os ex-governadores Moreira Franco, Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luís Fernando Pesão (preso no cargo e já eleito prefeito de Piraí). Sobretudo que preparou o terreno antecipadamente. Em 2025, indisposto com seu vice, Thiago Pampolha, que não queria ver como seu sucessor, o indicou para uma sinecura regiamente remunerada e vitalícia, no Tribunal de Contas do Estado. Isso abriria caminho ao então presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar (também do União) assumir o cargo na saída de Castro.
Mas Bacellar, acusado de participar das tramoias do Ceperj que ajudaram sua eleição, teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral. Sem imunidade parlamentar, foi preso em 27 de março pela PF, acusado de vazar uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, em mensagem ao deputado TH Joias, também preso.
Nesta altura, Cláudio Castro já tinha feito acordo com o PL (que tem maioria na Alerj) para eleger o deputado estadual Douglas Ruas presidente do Legislativo fluminense, para assumir o mandato-tampão do governo do RJ e já esquentar a cadeira para 2027. Ocorre que um voto do ministro Alexandre de Moraes, denunciando a manobra, dividiu o STF. A votação dos atuais 10 membros do Supremo tem quatro votos pela eleição indireta, mas o ministro Flávio Dino, que votou pela eleição direta com outros três colegas (Moraes, Luís Zanin e Gilmar Mendes), pediu vistas para esperar o “acórdão” do TSE. Pode dar empate.
O que precisava acontecer era uma profilaxia geral no governo do RJ pelo governador interino, o presidente do Tribunal de Justiça-RJ, desembargador Ricardo Couto. Os apaniguados do Ceperj e de outras sinecuras do estado, inchados por Castro na campanha de 2022, deveriam ter o expurgo de quem entrou pela janela. O TCE tem técnicos capazes para separar o joio do trigo.
Por que manter uma secretaria especial no DF? Para garantir com alguns milhões mensais a eleição do ex-deputado André Moura (União) a uma vaga como senador de Sergipe, o grupo do então governador articulou com Rodrigo Bacellar a criação de uma Secretaria de Representação do RJ no Distrito Federal. Depois da prisão de Bacellar, em março, o cargo passou às mãos do advogado Gustavo Alves Pinto Teixeira, já nomeado pelo governador interino Ricardo Couto. Era o caso da extinção para poupar recursos. Alegando aperto financeiro, o Rio de Janeiro foi o único estado, além de Rondônia, a não aderir ao acordo com a União para reduzir os preços do óleo diesel.