IGP mostra tamanho da especulação

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Amanhã o IBGE divulga a inflação pelo IPCA de março. Devido às especulações com o impacto da guerra do Golfo nos preços dos combustíveis e fertilizantes, as expectativas do mercado financeiro são de uma taxa superior aos 0,70% da inflação de março (a mediana das respostas dos últimos cinco dias úteis da Pesquisa Focus de 2 de abril já apontava 0,70%), como indicam os fortes movimentos altistas no atacado, pela especulação sobre o impacto dos preços dos combustíveis nos fretes, nos fertilizantes e nas futuras safras. Mesmo que as lavouras de 2026-2027 só sejam plantadas a partir de agosto, as especulações se anteciparam ao pior cenário e o estrago estava feita antes de o cessar-fogo, amainar os preços.

Diante da continuidade dos ataques de Israel no Líbano, incluindo bairros de Beirute, aos redutos do Hezbollah, apoiado pelo regime dos aiatolás, o Irã ameaça romper as negociações do cessar-fogo, que teriam um encontro decisivo em Islamabad, capital do vizinho Paquistão neste sábado. Os Estados Unidos seriam representados pelo vice-presidente J. D, Vance.

O resultado é que contrato futuro do petróleo tipo Brent, para entrega em junho, que chegou a atingir o pico de US$ 118 há duas semanas e estava na faixa pouco abaixo dos US$ 109 e caiu para US$ 94, quando do anúncio do cessar-fogo, no dia 8, voltou a subir. Por volta das 12:30 (horário de Brasília) era negociado a US$ 98,85, com alta de 4,33%, demonstrando a desconfiança dos agentes financeiros sobre o avanço das negociações para o estabelecimento de uma trégua na região. O Irã e os países árabes produtores de petróleo, gás e fertilizantes nitrogenados, que dependem da reabertura do tráfego naval pelo Estreito de Ormuz, consideram Israel um “irmão-siamês” rebelde a Washington.

Na manhã desta quinta-feira, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu dirigiu-se ao público israelense, insistindo que o cessar-fogo de Donald Trump foi “totalmente coordenado” com Israel. A revista “The Economist” diz que “relatos sugerem o contrário: Israel, que iniciou a guerra ao lado dos Estados Unidos, claramente não alcançou seus objetivos no Irã. Tendo declarado que a trégua não se estendia à sua guerra no Líbano, Israel matou mais de 250 pessoas em ataques aéreos na manhã de hoje. O “The New York Times” observa que os ataques de Israel no Líbano ameaçam o frágil cessar-fogo entre EUA e Irã.

Inflação dispara no atacado

Os dados do IGP-DI de março, divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV mostram que a especulação correu solta nos preços do atacado e pode ter contaminado os preços do varejo, apesar dos esforços do governo Lula para segurar, com a ajuda fundamental da Petrobras, que é exportadora líquida de petróleo e garante cerca de 90% da gasolina do país, que importa cerca de 25% de óleo diesel, GLP e querosene de aviação, o impacto da guerra nos preços domésticos.

Segundo análise da consultoria 4intelligence, o IGP-DI saltou de uma taxa negativa de 0,84% em fevereiro para um aumento de 1,14% em março. E o grande peso veio dos preços no atacado (60% do IGP-DI) que subiram 0,61% em março, após queda de 1,21% em fevereiro. A especulação foi generalizada no IPA agropecuário, que subiu 2,44%, após queda de 1,87% em fevereiro, puxado pelas altas de as acelerações de soja, milho, café, tomate, batata, leite “in natura” e suínos. Nos preços industriais, apesar da alta mais moderada (+1,02% contra baixa de 0,99% em fevereiro), chamam a atenção as altas de 3,33% em minério de ferro, alimentos industrializados (0,10%, sendo de 4,02% a alta de laticínios), produtos derivados de petróleo (2,24%) e produtos químicos, pressionados por adubos e fertilizantes (3,68%), ureia (8,76%) e resinas e elastômeros (6,63%). Um vetor baixista para o agrupamento foi minerais metálicos não-ferrosos, que recuaram 4,96%, e a moderação de metalurgia básica. Detalhe: a demanda de fertilizantes só é importante de maio em diante para o plantio após agosto.

Queda do dólar e o fluxo cambial

Para onde vai o dólar, diante do real, pelo favorecimento das exportações brasileiras (petróleo, minério de ferro e alimentos) depois da alta generalizada causada pela guerra no Golfo Pérsico? Hoje, mesmo com o noticiário desencontrado sobre a guerra, a moeda americana seguia em queda livre diante das principais moedas. O real se valorizava 0,52%, com o dólar cotado a R$ 5,0700, a menor cotação desde fevereiro de 2024, quando a Selic estava em 11,25% ao ano (hoje está em 14,75%),

Em seminário realizado nesta manhã no Banco Central, com a presença do presidente Gabriel Galípolo e dos diretores Paulo Pichetti (de Política Econômica) e Nilton Davi (Política), um grupo de economistas das 170 instituições que respondem semanalmente às Pesquisas Focus do BC foi premiado pelos acertos em 2025 e cada um pode expor sua visão sobre a conjuntura atual. A visão média é de que embora a economia brasileira esteja bem preparada para o choque, frente a crises anteriores, há pressões inflacionárias que demandam cautela das autoridades monetárias em todo o mundo (na Europa, o Banco Central Europeu pode elevar os juros, nos EUA, o Fed pode baixar duas vezes - se prevalecer o ponto de vista da nova direção, a partir de 15 de maio - ou apenas uma vez). No Brasil, a visão é de cautela do Banco Central, prevalecendo a expectativa de queda de apenas 0,25% na Selic, para 14,50% ao ano em 29 de abril, diante das pressões inflacionárias.

A consequência, da marcha mais lenta para baixar os juros até 12,50%, pode ser o agravamento da crise do crédito das famílias. Sobretudo se o mercado de trabalho esfriar com mais perda do poder de compra das famílias. Eu ainda confio que, um arranjo mínimo de trégua entre os participantes do conflito na reunião de sábado, dê espaço para o Banco Central baixar a Selic em meio ponto a 14,25%.

Em março, o fluxo cambial teve saída líquida de US$ 6,3 bilhões, segundo as estatísticas do Banco Central. Houve entradas de US$ 7,7 bilhões na parte comercial e saída de US$ 14,1 bilhões no financeiro. Com isso, o resultado de março ficou abaixo da média histórica para o mês, mas acima do registrado no mesmo mês do ano passado (-US$ 8,4 bi). Apesar do bom fluxo comercial, o fluxo cambial voltou a ficar negativo em março, refletindo saídas expressivas no segmento financeiro, possivelmente associadas ao aumento da aversão ao risco em função do conflito no Oriente Médio. Ainda assim, o fluxo acumulado segue superior ao do ano passado, sustentado principalmente pelas entradas financeiras registradas no início do ano (antes da guerra).

Para o Itaú, olhando à frente, o conflito impõe riscos em duas direções: a alta do preço do petróleo tende a favorecer a balança comercial, enquanto a maior aversão ao risco global pode restringir os fluxos de capitais para economias emergentes. Isso vai determinar a taxa de câmbio, variável importante que fez o Banco Central desinflacionar a economia (e as expectativas de inflação) em 2025.