Trump vê que Irã é mais resistente que imaginou

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Trump: agora o pix

A fixação do presidente Donald Trump é impedir que a China continue a crescer e a ameaçar a hegemonia dos Estados Unidos. Muitos economistas garantem: pelo critério da paridade do poder de compra, a economia americana já foi superada pela chinesa. Mas Trump e seus assessores acreditaram que o tarifaço ia frear as exportações chinesas e de outros países asiáticos e abrir espaço à retomada da produção “made in USA”, que tinha se bandeado para o Sudeste asiático em busca de custos de produção mais baratos (mão-de-obra, crédito e tributos). As exportações chinesas caíram bastante em 2025, mas sua economia resistiu ao tarifaço, por sinal, derrubado pela Suprema Corte.

Entretanto, Trump e seus assessores sempre tinham em mente também asfixiar os canais de exportação e de suprimentos à China. Os planos de assumir o controle do canal do Panamá (por onde trafegam navios chineses), de anexar o Canadá e a Groelândia, tinham em vista assumir a posse de terras raras e minerais críticos, para cortar o acesso à China. O país de XI Jinping é muito dependente de energia fóssil (carvão e petróleo), e mesmo investindo bilhões de dólares em novas hidroelétricas, energia solar e eólicas, necessita de minerais críticos para armazenar em gigantescas baterias a energia alternativa do sol e do vento.

O ataque à Venezuela, para deixar a maior reserva de petróleo do mundo em mãos americanas (Trump diz que os EUA já tinham as maiores reservas), fez parte da estratégia. E a China perdeu um grande fornecedor. Seus assessores e Israel, que tinha o interesse de destruir o poderio bélico do Irã, o convenceram de que um ataque violento e certeiro ao núcleo do poder do país, em Teerã, faria o regime dos aiatolás desmoronar. Enquanto Netanyahu tinha especial interesse em aniquilar a capacidade de produção de bomba atômica pelo Irã, Trump mirava infligir danos capazes de devolver o país à “idade da pedra” e lhe tirar o controle sobre a terceira maior reserva de petróleo do mundo. De quebra, causaria grandes embaraços à China (o maior comprador do óleo iraniano) e à Índia, as duas economias que mais crescem entre as “Top Ten” e são vulneráveis em energia.

Na quarta-feira, em pronunciamento aos americanos, Trump cantou vitória (não nas quatro semanas que previa) e se jactou de terem as forças armadas dos Estados Unidos dizimado a força aérea e a maior parte da defesa aérea do Irã, bem como aniquilado a marinha do país. Tanto bastou para os preços do petróleo sofrerem uma baixa considerável nos contratos futuros até meados de 2033. E Trump, com a arrogância e a imprudência que lhe são peculiares, anunciou que bombardearia as instalações elétricas do Irã (um crime de guerra pelas normas da ONU).

Celebração apressada
E acrescentou que os EUA se retirariam da guerra mesmo sem liberar a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, controlado pelo Irã. Egoisticamente, lavando as mãos, disse que os Estados Unidos são autossuficientes em petróleo e gás (sobretudo com o livre acesso à reservas venezuelanas), e que caberiam aos países europeus e asiáticos, que dependem do petróleo e do gás do Golfo (produzidos pelo Catar, Kuwait, Iraque, Emirados Árabes Unidos e parte da Arábia Saudita, que usa mais o Mar Vermelho), se entenderem com o Irã para liberar, pela diplomacia ou à força, o tráfego pelo Estreito de Ormuz.

Só que não. Trump celebrou cedo a vitória. Os Estados Unidos, que chegaram a alardear que dois bombardeiros sobrevoaram os céus do Irã sem sofrer ataques, o que confirmaria a destruição dos principais sistemas de defesa antiaérea do país, sofreram duplo revés na Sexta-Feira Santa. Um moderno avião bombardeiro F-15E, que custa mais de US$ 140 milhões, foi abatido pelo Irã. Um dos pilotos conseguiu ser resgatado fora do território do Irã após acionar o ejetor do caça, mas o segundo piloto não foi encontrado ainda. Um segundo caça, A-10 Warthog, que custa mais de US$ 25 milhões, caiu no Golfo Pérsico. Como se viu, a capacidade de fogo do Irã ainda resiste. Os preços do petróleo voltaram a subir. Os jornais americanos repercutiram muito os revezes que derrubaram o otimismo com a força do mercado de trabalho em março. O “Wall Street Journal” assinala que “o controle do Estreito de Ormuz determinará o vencedor da guerra”. E agora, Trump: será que US$ 1,5 trilhão a mais vão encurtar mesmo a guerra?

Como está o Brasil nessa crise?
Examinando os quatro grandes choques do petróleo (1973, 1979, 2022 e 2026), percebe-se que o Brasil, graças à Petrobras, está muito melhor preparado. Em 1973, quando os preços triplicaram, o Brasil estava vulnerável, pois só produzia 15% do consumo. Descobriu petróleo na Bacia de Campos, em agosto de 1974, mas demoraria mais de cinco anos para explorar. Assim, para reduzir a dependência, o país investiu em novas hidroelétricas e reciclou a indústria com caldeiras elétricas substituindo as movidas a óleo combustível. Mas o diesel já era o calcanhar de Aquiles (o país consumia mais diesel do que era extraído normalmente nas refinarias). Para evitar um racionamento mais drástico, se adicionou álcool anidro à gasolina (depois veio o motor a álcool) e a gasolina que sobrava foi misturada no diesel à parte mais leve do óleo combustível que já sobrava, para compensar a baixa octanagem desse óleo.

Na crise de 1978-79, que começou com a guerra entre Iraque e Irã, então os maiores fornecedores do Brasil (a Bacia de Campos foi descoberta em agosto de 1974, mas só começa a produzir no começo dos anos 80), o ministro do Planejamento Delfim Neto fez temerária maxi-desvalorização de 30% da moeda no começo de dezembro, mas antes do Natal de 1979, os aiatolás assumiram o poder no Irã (primeiro com Khomeini, sucedido por Khamenei, morto agora em março). O petróleo gerou um salto na inflação dos combustíveis. E a crise da dívida externa, agravada com a escalada dos juros nos Estados Unidos para combater a inflação, gerou a década perdida dos anos 80. A situação só acalmou com o avanço da produção de petróleo, sobretudo do pré-sal, que deu a autossuficiência em óleo e permitiu, junto com os recordes do agronegócio, a estabilização da moeda no Plano Real de 1994.

A crise financeira mundial de 2008, que fez o mundo mergulhar em três anos de recessão, e derrubou o barril do petróleo de US$ 147, em julho, para menos de US$ 30 em setembro e outubro, afetou duramente a indústria do petróleo e abateu os grandes projetos de expansão de refinarias e plantas de fertilizantes da Petrobras, fiando-se na riqueza do pré-sal. Se a crise financeira não tivesse ocorrido e facilitado aflorar os superfaturamentos das empreiteiras nas contratações da Petrobras, que irrigavam os bolsos de vários partidos que apoiavam o governo Dilma, quem sabe, vários dos projetos que ficaram parados, e agora são retomados em ritmo mais lento, já não estariam prontos, garantindo autossuficiência em diesel e GLP e em fertilizantes nitrogenados?

Os sustos do PPI
O fato é que a queda do governo Dilma, por “Impeachment”, abriu caminho para os planos de privatização de diversos projetos da Petrobras, que ficou superendividada em dólar e com receitas menores em reais. O governo Temer criou o sistema de paridades de preços internacionais (PPI) para abrir espaço à concorrência de agentes privados à Petrobras. Mesmo produzindo petróleo do pré-sal a baixo custo, as refinarias estavam programadas a operar com o petróleo leve, importado. E o PPI ditava a atualização dos preços domésticos dos derivados pelos preços internacionais, atualizados pelo dólar. Em maio de 2018, com enormes flutuações de preços – para cima, mas raramente para baixo – os caminhoneiros entraram em greve pela estabilidade da tabela do frete (os preços do diesel subiam e deixavam os fretes contratados defasados).

Eleito com apoio dos caminhoneiros, Jair Bolsonaro manteve o PPI com menor oscilação, mas a crise do petróleo e do gás provocada pelas retaliações do Ocidente à Rússia por invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022, deixou Bolsonaro louco com a escalada dos combustíveis. Demitiu cinco presidentes da estatal, irritado com os reajustes ditados pelo PPI. Vendo a reeleição lhe escapar, fez, com o ministro da Economia Paulo Guedes, a mais drástica intervenção na economia desde o Plano Collor: cortou os impostos federais e o ICMS dos estados, de julho a dezembro de 2202. Não adiantou. Lula foi eleito e teve de administrar a recomposição do ICMS até janeiro de 2026.

Lula cumpriu a promessa de campanha de “abrasileirar” os preços dos combustíveis. Isso foi feito em maio de 2023, na gestão de Jean Paul Prates na Petrobras, que passou a usar em maior escala o óleo mais leve do pré-sal nas refinarias (que operam com mais de 90% da capacidade instalada). Como a estatal extrai o óleo a US$ 21 o barril, considerando fretes de equipamentos e participações especiais, e atende cerca de 80% do mercado de diesel e GLP, ela podia espaçar os aumentos antes da guerra do Golfo. Quando Israel e os Estados Unidos atacaram o Irã, que fechou o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, e o petróleo subiu mais de 50%, passando a ser negociado entre US$ 100 e US$ 110, foi mais difícil segurar os aumentos. Sobretudo porque os importadores fizeram grande pressão pelos reajustes. A imprensa deu força e a Faria Lima ecoou.

A torcida do mercado pela inflação
Em todos os grandes choques altistas do petróleo e combustíveis, a pressão dos importadores contou com grande torcida de apoio do mercado financeiro. A tradição moderna dos mercados financeiros globais é de concentrar as operações nos contratos futuros. No Brasil, pela indexação da inflação passada nos papéis corrigidos pela correção monetária (papéis pós fixados), sempre há uma torcida pelo salto na inflação, que resulta em mais ganhos nos papéis. No momento, essa torcida está sendo toureada pelo governo, que criou subsídios ao diesel, e conta com a adesão dos estados, e da própria Petrobras, que abriu crediário às companhias de aviação para parcelar o reajuste de mais de 57% no querosene de aviação. Se amortecer o reajuste das passagens áreas, que pesa muito na inflação, o governo evita o rastilho inflacionário. O Tesouro, por sinal, entrou no mercado há duas semanas recomprando mais de R$ 40 bilhões em títulos públicos pós-fixados. Tudo para evitar uma contaminação no custo da dívida pública, que já consumiu R$ 84 bilhões em juros em fevereiro. Por ano, são mais de R$ 1 trilhão. Todos torcem para a guerra ser resolvida no curto prazo para os preços refluírem com a volta do tráfego no Golfo Pérsico. O Brasil depende dos fertilizantes, a serem usados a partir de agosto. A torcida do mercado é pelo pior, melhor.

A revisão do Itaú no cenário de março – o banco elevou a previsão da inflação do IPCA de 3,8% para 4,5% (no teto da meta 3,00% + tolerância de 1,50%) e reduziu a previsão de queda da taxa Selic, o piso do mercado, dos atuais 14,75% para 13% (a previsão antes da guerra era de 12,25%) – “foi especialmente influenciada por nova avaliação para o petróleo no curto prazo. Passamos a incorporar preços mais elevados da commodity, com o (óleo tipo) Brent permanecendo acima de US$ 100 por barril por um período mais prolongado. E petróleo mais alto, diz o Itaú, tende a melhorar termos de troca e receitas fiscais, dando suporte relativo ao real. Assim, o déficit em conta corrente segue elevado, o impulso fiscal permanece relevante e ainda vemos depreciação gradual do real adiante”.

O banco destaca que, “no Brasil, o choque do petróleo tem efeitos mistos sobre o setor externo: eleva o valor exportado e melhora a balança comercial, mas o déficit em conta corrente (com serviços e custos de capital) ainda se mantém elevado. Projetamos déficit em conta corrente de 2,4% do PIB ao final de 2026 e 2,0% em 2027. O real foi favorecido no curto prazo, embora vejamos espaço limitado para ganhos sustentados em janela maior de tempo. Mantemos depreciação gradual, agora para R$ 5,60/US$ em 2026 e R$ 5,70/US$ em 2027”, informa o banco.

“Na política fiscal, o petróleo mais alto melhora a arrecadação, tanto pelo efeito sobre receitas do setor, quanto via PIB nominal mais alto. Vemos como mais factível o cumprimento da banda da meta primária neste ano. O risco segue em novas medidas para mitigar os efeitos do choque energético. Além disso, o impulso fiscal segue relevante para sustentar atividade e a dívida segue em trajetória altista”. Em ano eleitoral, o banco, até agora, não falou em cortes de programas sociais, como em 2024 e 2025.

Pix janela de oportunidade
O governo Lula passou a última semana articulando as trocas nos ministérios, pois os titulares estão se desincompatibilizando dos cargos para concorrer a governos estaduais ou ao Senado. A troca atingiu o ministro da Indústria, Comércio e Desenvolvimento, Geraldo Alkimin, que deixa o cargo para concorrer novamente como vice de Lula, e o da Fazenda. Fernando Haddad, vai disputar o governo de São Paulo para fortalecer a posição de Lula no maior colégio eleitoral do país. Minas é o segundo, o Rio de Janeiro é o terceiro, e a Bahia o quarto. Reduzir o tamanho da derrota em São Paulo e em Minas pode fazer com que o Norte e o Nordeste assegurem a vantagem total, compensando o Sul e o Centro-Oeste. Haddad fez uma ótima gestão na Fazenda, reduzindo os impostos indiretos com a reforma tributária e isentando a classe média do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Para compensar a perda de arrecadação, cortou 10% de subsídios fiscais e cumpriu a promessa de Lula de liberar a carga tributária dos mais pobres, colocando os mais ricos no Imposto de Renda. Resultado: as pesquisas eleitorais encostaram Haddad no governador Tarcísio de Freitas.

O mês de abril, além com caso Master, e dos voos de avião comprometedores, tende a colocar a pauta política em relevo. Lula ganhou nova bandeira de defesa da soberania brasileira, atacada pelo governo Trump por pressão do clã Bolsonaro. Depois do tarifaço, o alvo agora é o Pix, do Banco Central. Concebido em 2016, na gestão Ilan Goldfajn, entrou em operação em fins de 2020, para facilitar as transações na pandemia, na gestão de Roberto Campos Neto, no governo Bolsonaro.

O sucesso da movimentação imediata a custo zero, até nos fins de semana e feriados, atraiu brasileiros a usar os aplicativos bancários e tirou receitas das bandeiras americanas que operam cartões de crédito e débito (que só creditavam as contas nos dias úteis, com desconto). São elas que estão pressionando o governo Trump. A concorrência só vale quando beneficia o “Tio Sam”? Prato feito para Lula defender a soberania, na qual as defesas da Petrobras e das terras raras estão incluídas.

A largada chocha de Caiado
Chamou minha atenção que nenhum coleguinha tenha comentado o silêncio ensurdecedor da claque reunida na sede do PSD, em São Paulo, no lançamento da candidatura presidencial do governador de Goiás, Ronaldo Caiado.

Pois a principal proposta de “anistia, ampla, geral e irrestrita” para Jair Bolsonaro e os demais envolvidos na tentativa de golpe no Estado Democrático de Direito, que resultou nos atos de vandalismo nas sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, não recebeu uma única salva de palmas. Caiado conta com isso para atrair os eleitores de Bolsonaro.

Conferi as várias edições sobre o evento. As palmas só vieram no final. Muito pouco para o evento. Mas o que estranhei mesmo foi a falta de destaque ao fato pelos comentaristas políticos. Não concorda, caro(a) leitor(a)?