Na hora do vice

Por

Chegado o momento em que se definem as peças da disputa pela Presidência da República, o candidato, a aliança partidária que o apoia e os grupos que sobre ele influem entram na fase de cogitação em torno do companheiro de chapa; a sempre delicada definição do nome do vice. São muitos os fatores e interesses que pesam nessa hora, e, não raro, o candidato principal vê-se obrigado, por força das contingências político-partidárias, a engolir quem não desejou. Seja por desconfiança ou por antipatia pessoal, seja por desencontros passados, a imposição fica como primeira frustração no jogo que vai começar.

Vale, no momento, para muitos, a receita de pleitos anteriores; isto é, necessário que a escolha recaia sobre alguém do Nordeste, onde as lideranças mostram-se compactas e o eleitorado prima pela obediência. Uma prova do poder regional é o fato de Câmara e Senado serem comandados, quase invariavelmente, por nortistas ou nordestinos. Motta e Alcolumbre são as peças da vez.

Outra corrente, nunca ausente nessas horas, pensa que o vice deva ser um mineiro, de quem se espera a força de representar o segundo colégio eleitoral do país. Acresce a crença de que a gente política de Minas é jeitosa na superação de momentos críticos. E, se não ajuda, não atrapalha. Certamente disso discordariam João Figueiredo e Fernando Collor, que importaram da montanha seus vices Aureliano Chaves e Itamar Franco. Apenas os toleravam, com algum custo. Nesse particular contrastaram com Fernando Henrique, que foi buscar em Pernambuco o discretíssimo Marco Maciel, um vice incapaz de causar dificuldades.

Maldade maior, lembrava Wilson Figueiredo, neste JB, é aquele que já entra esperando que o titular morra, abrindo-se a vaga...

2 – Pena que a definição do nome do vice se dê ao sabor de concessões, de interesses regionais, claramente localizados, ou compromissos nem sempre ajustados às conveniências republicanas.
Premiado pelo destino, esperemos que o próximo, elegendo-se em outubro, esteja bem preparado para eventualidades. Se não pode adivinhar o amanhã, tem de deitar hoje pronto para assumir a qualquer momento, o que torna indispensável estar amplamente familiarizado com o poder, dono de inquestionável competência. Os partidos têm pensado nisso?

Outro antigo desejo, muitas vezes seguido de frustração, é que na formação das chapas uma boa escolha não seja abafada pelas imposições ideológicas ou pelos calores das radicalizações do momento. É outra expectativa que devemos levar para a eleição que já vai chegar.

3 – Digamos figurar entre os deveres do eleitor brasileiro levar em conta a realidade política, quase uma vocação muito nossa: metade da História da República teve os vices como principais atores. Chegaram à Presidência, naturalmente ou por força de golpe, Floriano Peixoto, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Venceslau Braz e Delfim Moreira, até 1930. Depois, Nereu Ramos, Café Filho, João Goulart, José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer.

(Não é pouco. Mais ainda, se lembrarmos que o Brasil, tão jejuno de troféus políticos neste mundo, ostenta o recorde na galeria dos vices que por mais tempo ficaram na Presidência de seus países. José Sarney, que ficou com os 5 anos que seriam de Tancredo Neves, superou Andrew Johnson, herdeiro de 3 anos e 11 meses de Lincoln; Theodore Roosevelt, com 3 anos e 8 meses que seriam de Mckinley; e Truman, que abiscoitou 3 anos e 9 meses de Franklin Roosevelt).