Risco de um martírio

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Por

Jair Bolsonaro

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Se uma tragédia sobrevier à gradual degeneração da saúde de Jair Bolsonaro, a campanha eleitoral estará condenada a transformar o palanque em cadafalso, onde a direita pretenderá enforcar Lula como algoz, e aclamar seu adversário como mártir. Ele deve saber disso, como também precisa saber que não viriam em seu socorro os bons amigos do Supremo Tribunal Federal, que condenaram o ex-presidente à prisão. De camarote, os togados poderão assistir ao naufrágio nas urnas, até porque não dependem de votos.

Nesta altura do ano eleitoral, o martírio seria receita certa para se transformar numa avalancha contra o governo e inevitável atropelo da candidatura de Lula.

2 - Quando se trata de falar aos eleitores, nunca se sabe quem tem maior influência no discurso e nas decisões do atual presidente. Para alguns, parece que a última palavra é uma singular versão de monólogo; ele falando com ele mesmo... Pode ser, porque Lula, que constantemente se jacta de não ostentar diplomas, compensa os poucos estudos com o poder da intuição. Ele intui, embora nem sempre com bons resultados.

Estranho é que essa capacidade de percepção não o leve a tirar da oposição a poderosa bandeira da anistia, muito mais útil para influir, quando os ventos sopram para a radicalização. Por iniciativa própria ou por muito influir junto aos diletos amigos do Supremo Tribunal, o desarmamento das tensões políticas o elevaria à posição de estadista superior, acolhendo a índole natural do brasileiro, arredio à insensibilidade de julgadores e amante dos pacificadores.

O presidente Lula estaria exposto à tragédia do desafeto Jair Bolsonaro, cuja saúde, como se viu no fim de semana, recomenda, no mínimo, o cumprimento da pena em prisão domiciliar.

Relações com o Tio Sam
Congresso Nacional, governadores e entidades de representação social e econômica continuam mostrando desânimo para discutir o problema da deterioração nas relações do Brasil com os Estados Unidos, suas consequências imediatas ou futuras, além dos impasses políticos entre as duas capitais, que vão se revelando cada dia mais sérios, quaisquer que sejam os ângulos em que desejamos analisá-los. As dificuldades nascem de ressentimentos provocados por mútuas antipatias com inspiração no campo ideológico, logo evoluídas para desconfianças no trato das questões de estado. Disso ficou a certeza de que antigas alianças já não são as mesmas, mas quase sempre reduzidas ao mínimo das formalidades diplomáticas que Lula e Trump permutam em ligações telefônicas de pouca duração, ou no breve encontro que tiveram na ONU; e numa reunião, cancelada este mês, com duvidoso adiamento para um dia qualquer de abril.

Seria conveniente, em particular na Comissão de Relações Exteriores do Senado, um estudo da progressão das dificuldades que vão se ampliando; dificuldades que ganharam força na sobretaxação, prejudicando parte sensível das exportações. Tinha tudo para se limitar a um fato comum e isolado, até porque foi algo que o governo americano impôs a vários outros países. Os prejuízos couberam facilmente nos limites de interesses comerciais; mas não conosco, porque, desde então, evoluímos para os apelos à discórdia.

2 – As relações tornaram-se mais frias, há tempos, quando o governo deixou claro que, no embate dos Estados Unidos com a ditadura teocrática do Irã, as simpatias brasileiras tendiam para o regime dos aiatolás. Concomitantemente, cresceram as malquerenças com Israel, também aí uma contraposição ao governo Trump.

Aos ianques ainda aborrecemos quando a Venezuela foi invadida e preso, como bandido comum, o presidente Maduro, amigo em quem Lula devotava especial admiração. Inaceitável a intervenção armada, o Brasil protestou, mesmo com pouca ênfase. Trump não gostou, mas fingiu que não sentiu.

É importante reconhecer que, a partir de então, a Casa Branca vem testando nossas resistências. Lance mais recente foi o lançamento do programa Escudo das Américas, para que, aliados em torno de um objetivo único, 12 países do continente possam reagir ao crime organizado. Para o lançamento solene, ausentes Brasil, Colômbia e México, como se fossem peças estranhas a uma questão de tamanho interesse continental. Veio a ironia: Trump justificou, dizendo que nosso governo estava ocupado...

Quanto ao nosso lado, um desafio assessório para incomodar foi Washington definir, formalmente, como terroristas os indesejáveis PCC e CV, o que, no entendimento de Brasília, é porta aberta para eventual intervencionismo militar. Os americanos riem, quando argumentamos que sabemos como cuidar dos nossos criminosos, salvo se escaparem para atividades transnacionais; riem, porque, lá, a ideia predominante é que Brasília não tem como combater o crime organizado, intrometido nas entranhas do poder. Garantem que podem provar o que entendem não ser mais que mera suspeita.

Ao Escudo de Trump vem um segundo impasse: alto funcionário do Departamento de Estado, Darren Beattie, pretendendo conferenciar com o ex-presidente Jair Bolsonaro, é proibido de desembarcar. Nada demais, não fosse o fato de Bolsonaro ser o símbolo do antilulismo em ano eleitoral. Darren foi impedido, e já se sabe que isso doeu nos assessores do Departamento de Estado.

A soma dessas dificuldades, que preocupam porque se ampliam cada vez mais, mostra que o assunto merece ser pautado por todas as classes responsáveis, a começar pelas casas políticas do Congresso.