Polarização inconveniente
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Um olhar sobre a eleição presidencial, distante pouco mais de sete meses, deixa claro algumas inconveniências capazes de dificultá-la ou comprometê-la. Uma delas, com efeitos para futuro imediato ou distante, é a polarização a que vem sendo empurrado o processo. O que vemos é, com grande antecedência, o eleitor condenado a caminhar para as urnas com a humilde missão de apenas ser contra ou a favor; apoiar um dos dois candidatos não por desejá-lo, mas porque odeia ou outro. Nada mais que isso. Os sentimentos extremos vão tomando os espaços que, em pleito normal e desejável, seriam dedicados a projetos e ideias, principalmente num país que se mostra carente de rumos e sem bandeira.
Não bastassem os temores da radicalização, junta-se outro, que parece estar preocupando setores responsáveis da Justiça. Se, de um lado, isso é do agrado dos militantes raivosos, que adoram ou odeiam, há o enorme risco de se afastar a parcela do eleitorado que não se deixa envolver, prefere tomar parte na multidão dos que se abstêm. Se não se sensibiliza, melhor distanciar-se.
A abstenção é algo para preocupar. Tendo sido recordista quatro anos atrás, a ausência em massa deixou longe das urnas nada menos de 32 milhões de brasileiros que estariam aptos ao exercício do voto. Significaram 20,9% do eleitorado. Agravam-se as previsões pessimistas quando se sabe que há cinco milhões de títulos cancelados. Eram portados pelos desinteressados, que preferiram submeter-se às multas com que o TSE ameaça os reincidentes.
2 – Os sinais de um outubro refém de apenas dois candidatos factíveis na corrida são mais graves exatamente por confirmar a inexistência de cuidados e uma patriótica reflexão sobre os destinos do Brasil. Submergem, descuidadas, as questões mais importantes para a sociedade.
Chega-se ao ponto em que esse perigo prenuncia dificuldades para o próprio vencedor, seja ele quem for, porque, sendo imenso o abstencionismo, vai enfrentar a dificuldade política da ilegitimidade, das bases vulneráveis. Uma eleição não legitimada pela presença maciça está condenada a dificuldades e tropeços.
O contágio
O ministro Édson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, é homem de muitas leituras, como faz entender nos discursos e nos votos que tem levados ao Pleno. O que permite admitir que já tenha passado os olhos em Mateus, 9, no Novo Testamento, de onde se extrai oportuna lição sobre os riscos da contaminação do corpo sadio com a doença de alguns de seus órgãos. Melhor cortar a mão e o pé defeituosos, ensina o evangelista, e atirá-los ao fogo do geena, para não comprometer o organismo inteiro.
Pois é para salvar o que resta do antigo prestígio da corte que comanda, que o doutor Fachin precisa entrar em campo, avançar com seu prometido elenco de regras de conduta a serem cumpridas por seus pares. Deles obter severo acatamento dos princípios de moral e ética nas decisões e no comportamento diante da sociedade. E, se possível, encostar os maus.
Dois ou três ministros, hoje escalpelados pela opinião pública, são minoria, mas, tal como adverte o Evangelho, vão conseguindo macular o colegiado.