Por falar em condutas

...

Por

Cármen Lúcia

.

Três fatos, mais recentemente, chamam atenção, quando se trata de uma pauta primária para as eleições de outubro. O primeiro foi a iniciativa da ministra Cármen Lúcia, membro do Tribunal Superior Eleitoral, ao elaborar um decálogo de recomendações aos juízes que vão ter atuação direta no pleito de outubro. Nada a levou a exigir em demasia, até porque as normas de seriedade que a preocupam gozam de antiguidade, são inerentes à responsabilidade daquelas autoridades, que têm obrigação de cumprir o que está resumido em uma dezena de advertências. Em rigor, nem era preciso lembrar que se exigem normas de seriedade a quem prestou juramento de acatá-las como dever da função.
Aos recomendados falou-se em não receber presentes de interessados, um certo acanhamento em atos festivos que ensejarem alguma intimidade com partidos e candidatos. Como contestar isso?
O que talvez autorize a iniciativa da ministra, é que essas e outras inconveniências não são raras; pelo contrário, comuns nos embates eleitorais a que assistimos nos rincões deste país, onde não há propriamente lideranças, mas chefias. O eleitorado rebelde sofre perseguições e constrangimentos dos poderosos do lugar.
Como conter tais abusos, levando os criminosos a sofrerem penas justas, é assunto que fica para outra proposta moralizadora da ministra.

2 – Gostemos ou não do ministro Flávio Dino, numerosos somos em ambos os casos, não seria possível contestá-lo, quando se levanta contra duas coisas que perturbam a já escassa e capenga moralidade na política e nos serviços públicos. A primeira diz respeito às emedas parlamentares, que neste ano vão custar R$ 60 bi aos pagadores de impostos; e, agora, sem qualquer acanhamento, com prazo para liberação até junho, o que expõe, com nitidez, que o objetivo delas não é outro que não facilitar a reeleição dos deputados e senadores que as propuseram.
A segunda iniciativa, mais recente, é sua incursão em outra área de escândalo, a dos penduricalhos, revestidos como abonos, distribuídos pelos poderes, sem exceção do Supremo Tribunal, onde o ministro Dino tem assento. Não se sabe se sua robustez seria suficiente para enfrentar os pares da toga e atacar essas bondades, que também ali se fazem presentes, agora com o cheiro inconfundível de incenso nas narinas de funcionários eleitores.

3 – Outro fato a chamar atenção nos dias recentes foi a proliferação das pesquisas eleitorais em todos os grandes estados. Com uma coincidência em quase todas elas: a tendência dos brasileiros é eleger a deficiência da segurança como o problema maior e mais sensível da sociedade, a reclamar do poder público ações objetivas e concretas. Saúde, transporte, desemprego e educação são deficiências denunciadas pelos entrevistados de todos os cantos, mas longe de destronar a sinistra liderança da insegurança. Porque, como nunca dantes, mata-se, rouba-se, sequestra-se, corrompe-se.
A preocupação é mais que pertinente, e não deve surpreender, porque é um problema que cresceu, e vai crescendo, como resultado daquele que é – este sim – o maior entre todos os problemas do Brasil: a impunidade, o que as pesquisas não mostram. Mas é ela que cria campos cada vez mais férteis para o crime, numa infinidade de tolerâncias, que vão desde as generosas audiências de custódia até os afagos com que a Justiça contempla os criminosos condenados.