Risco de campanha apática

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Se são apenas três semanas corridas de janeiro; se temos outros nove meses até batermos à porta das seções eleitorais, fica difícil fazer estimativas sobre o clímax que vai marcar a campanha para a sucessão presidencial e as governadorias dos estados. Não há como prever nem o painel de temas que teremos pela frente. Mesmo assim, há fatores que sugerem preocupação quanto às questões que terão ou teriam de estar postas diante dos cidadãos defrontados com as urnas. Hoje, com alguma antecedência, há justificado temor de que grandes temas passem ao largo ou não avancem além da superficialidade.

Quem se preocupa vai lembrar que o tempo promete conspirar contra os que sonham com o eleitorado debruçado sobre as questões que mais influenciam o presente e incomodam o futuro imediato do país. Parece que as lideranças têm descuidado disso, fazendo supor que o descaso nacional acaba tendo utilidade para elas, pois as exime de prestar contas à sociedade que desejam representar. Pode ser isso. Salvo o pecado da generalização, que em política é defeito sério.

Contribuindo para distanciar o espírito cívico e as preocupações com a realidade nacional, vem o auspicioso presente do calendário civil, alegremente saudado, prometendo seis feriados prolongados, que, em ano eleitoral, são um convite à castração das grandes discussões, substituídas pelo lazer. É uma época em que multidões votantes e candidatos correm para longe, porque o ócio é convidativo.

Tirantes as gentilezas do calendário, ao lado de feriados generosamente esticados, seguem-se carnaval e Semana Santa, ocasiões não propícias para assuntos sérios, que acabam ficando para depois. A seguir, a prioridade da Copa do Mundo, mais duradoura neste ano.

Fato é que podemos acabar sem tempo e vagar para debates proveitosos, nem poder mergulhar fundo no que vão propor os candidatos, para melhor selecioná-los. Com prazos tão escassos, vem o perigo de julgamentos descuidados.

Tomara que se esvaziem essas preocupações, e o eleitorado, mesmo sem abrir mão dos prazeres, entre com fé e coragem na campanha. Mais que nunca, precisamos disso. Quando se arrisca dizer “mais que nunca” é porque o Brasil – não há quem possa contestar - está asfixiado numa crise moral sem precedentes. É preciso conversar muito sobre isso.

2 – Pata atordoar, o que se sente e se vê é que as coisas não têm mais ordem; afundaram na desordem. A Justiça e suas leis naufragaram perigosamente, e nelas, nós, à deriva, já não temos como aportar as últimas esperanças. A prática da corrupção e o roubo escancarado dos negócios públicos e privados chegam a um ponto em que fica sepultado o mínimo de pudor. Como fato mais recente o escândalo do banco Master, envolvendo gente dos três poderes, ministros agentes ou coniventes, o que induz a acreditar que já não há inocentes nesse mar de dejetos em que se misturam bancos, tribunais, política e finanças fraudulentas.

Como permitir que tamanha tragédia passe imperturbável pela campanha eleitoral? Pois corremos esse perigo, não só por graça daqueles fatos já analisados, mas porque uma parte dos brasileiros prefere achar que o país não tem jeito. Melhor deixar pra lá. O Brasil sepultado em cova rasa. O que seria o fim de todos os fins.

3 – Insistindo um pouco mais na temeridade da apatia, quase coletiva, sobre os temas político-eleitorais deste ano, uma outra razão causa estranheza. Em nenhuma outra campanha sucessória, nem mesmo em tempo de grandes conflitos, as relações externas mostraram-se tão atraentes para os palanques. Hoje, a opinião pública tem como acompanhar tudo que acontece além das fronteiras, pode analisar, opinar e julgar. Seria quase bizarro que o eleitor negasse espaço a essa questão, cada vez mais desafiadora, em boa parte devido ao atletismo das incursões do presidente Trump mundo afora.

( O chefe americano dá nítida impressão de que, ao despertar, manhã cedo, indaga a si mesmo sobre a vida de quem pretende infernizar naquele novo dia, depois da Venezuela, Canadá, Colômbia, México, China, Irã e Groenlândia. Qual o próximo, depois do breakfast?).