'O pato pateta pintou o caneco'; tantas fez o moço, foi pra Papuda

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Bolsonaro chegou a 'bater a cabeça' na cela: 'criou um galo'?

De folga em Búzios com os netos, conheci a bela prainha de “José Gonçalves”, um dos paraísos da APA Pau Brasil. Mas fiquei matutando, depois de o netinho José cantar, com a avó Márcia, a música “Pato Pateta”, de Toquinho e Vinícius de Moraes, na desdita do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tanto tramou o golpe, que foi condenado por 4 X 1, a 27 anos e três meses pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Recolhido antes do Natal à cela especial da Polícia Federal em Brasília, o clã Bolsonaro, seus advogados e os médicos que o assistem das sequelas da facada de setembro de 2018, para que não passasse o Natal na cadeia, insistiram numa operação de hérnia inguinal, que gerou internação dia 24 e cirurgia dia 25. Recuperado, "bateu com a cabeça" na cela. Sem deixar sequelas, o ministro-relator do julgamento da trama golpista, Alexandre de Moraes, o encaminhou de volta à cela da PF.

Mas a família e os advogados voltaram a insistir na tese do cumprimento da pena em prisão domiciliar, sob o argumento do ex-presidente Fernando Collor (com condenação bem menos gravosa do que a tentativa de golpe de Estado). Era o plano perfeito para ele ter mais influência na eleição de 2026. Vale lembrar que a trama comandada pelo ex-presidente e o seu vice de chapa, o general Walter Braga Neto, incluía planos de sequestro e morte, em dezembro de 2022, do presidente eleito, Luís Inácio Lula da Silva, do vice, Geraldo Alkimin, além do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes. O tiro saiu pela culatra: diante de tantas reclamações contra a cela da PF, o ministro-relator determinou a transferência para o presídio da “Papudinha”, um anexo da Polícia Militar do DF. Lá já estão recolhidos o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, e o ex-diretor geral da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques. Podia ser pior. A alternativa mais drástica à PF seria a vizinha Penitenciária da Papuda.

Para quem não se recorda da letra, vejam alguns versos, se não lembram o personagem tido como “mito” por seus fanáticos seguidores. “O pato pateta/pintou o caneco/surrou a galinha/bateu no marreco/pulou do poleiro/no pé do cavalo/levou um coice/criou um galo/comeu um pedaço/de jenipapo/ficou engasgado/com dor no papo/caiu no poço/quebrou a tigela/tantas fez o moço/que foi pra panela”. Jair Messias Bolsonaro foi pra “papudinha”.

Mas o caso ainda não terminou: um advogado que não integra a defesa do ex-presidente entrou com pedido de “habeas-corpus” no STF para obter a prisão domiciliar de Bolsonaro. Como o Supremo está em recesso, Moraes é o vice-presidente da Corte e se julgou impedido de apreciar o HC; o caso passou à alçada do ministro Gilmar Mendes, que negou o pedido.

Dino demarca o terreno para eleições
Em sequência ao veto profilático do presidente Lula, que cortou emendas no valor de R$ 400 milhões que deputados e senadores tentaram embarcar fora do prazo e das normas no Orçamento Geral da União 2026, que já contempla o absurdo quinhão de R$ 50 bilhões para emendas parlamentares (o intento era de R$ 61 bilhões, mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já anunciou que contingenciará R$ 11 bilhões), o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que comanda o inquérito sobre desvios e fraudes no encaminhamento pelos parlamentares de verbas do OGU para seus redutos eleitorais, traçou uma premissa saudável para o envio de verbas do OGU-2026: estão proibidos os envios de verbas para Organizações Não Governamentais (ONGs) de parentes de parlamentares. Entretanto, ainda não foi fechada a porta do envio de verbas para prefeituras ou estados comandados por familiares.

Essa intromissão dos políticos na gestão das verbas federais sempre foi o método mais fácil de perpetuação dos clãs das dinastias políticas no interior do Brasil. A velha prática – desde o Brasil Colonial, que persistiu no Império e atravessou a República em suas diversas fases, até o século 21 – impede a renovação da política brasileira. Mas, mais do que isso, marca a velha apropriação do Estado brasileiro por uma elite que se associa a ele. Tanto no patrimonialismo empresarial (o Estado privatiza lucros e socializa prejuízos), quanto na troca de favores (e nepotismo) entre as diversas instâncias dos Três Poderes.

O ministro Dino merece todo o apoio contra os ataques de baixo nível dos políticos fraudadores já identificados. Estima-se que um terço do Congresso (513 deputados e 81 senadores) esteja sob suspeita.

Religião, negócios e corrupção na eleição 2026
Pode espantar a você, caro leitor; a mim não surpreende a denúncia da senadora e pastora Damares Alves (Republicanos-DF). Em publicação nas redes sociais, ela listou uma série de pastores evangélicos e respectivas igrejas que estariam envolvidos nos desvios de recursos da Previdência Social. A senadora é filiada ao Republicanos, o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Tanto bastou para o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, reagir histericamente.

Silas acusou Damares de ser uma “linguaruda” a espalhar acusações a esmo – o que atingiria igrejas evangélicas indiscriminadamente. Malafaia vestiu a carapuça alheia.

A ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos tem uma trajetória que a credencia a falar de eventuais desvios de conduta dos atuais pastores milionários. Nascida no Paraná, seu pai foi pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, uma dissidência da Assembleia de Deus (ainda a maior congregação evangélica do país, apesar de tantas dissidências como a de Malafaia), da qual saíram vários pastores e bispos (Edir Macedo transitou por lá). Depois, foi pastora da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG).

Em 2024, a senadora chegou a acusar a Igreja do Evangelho Quadrangular de estar dominada por traficantes. Agora, com base em requerimentos apresentados no curso das investigações dos desvios do INSS, todos baseados, segundo ela, em indícios concretos identificados em documentos oficiais, como Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e dados da Receita Federal, pediu a quebra de sigilo de pastores, à frente André Machado Valadão, da Igreja Batista Lagoinha (MG). Por coincidência, entre os implicados no caso do Banco Master, está o cunhado de Daniel Vorcaro, o pastor, advogado e empresário Fabiano Campos Zettel, casado com Daniela Vorcaro, irmã do banqueiro. Zettel atua na Igreja da Lagoinha em Belvedere, um dos bairros mais nobres da região de Belo Horizonte.

Na eleição de 2022, junto com André Valadão, Zettel foi um dos maiores doadores pessoas físicas das campanhas de Jair Bolsonaro a presidente e a de Tarcísio de Freitas a governador de São Paulo (Republicanos-SP). Em retribuição ao apoio dos evangélicos, o governo Bolsonaro fez sucessivas isenções de impostos não apenas das atividades pastorais das igrejas, mas dos negócios correlatos, e incluiu vários pastores na mala diplomática. Isso facilita as idas e vindas dos líderes das igrejas às filiais dos Estados Unidos (sem revista nas malas, o que possibilita levar dólares daqui para lá).

Entre os pastores que estão com pedidos de transferência de sigilo, destacam-se os líderes da Adoração Church e da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo, o pastor César Bellucci do Nascimento, do Ministério Deus é Fiel Church (Sete Church), e o pastor Péricles Albino Gonçalves, da Igreja Evangélica Campo de Anatote (SP).

A rápida urbanização do país na década de 80, tornou as igrejas evangélicas e batistas, que se instalam com desenvoltura nas periferias das grandes cidades, bem mais influentes que a Igreja Católica, mais incrustrada nos bairros tradicionais. Os pastores passaram a exercer o papel de lideranças políticas em fiéis currais eleitorais. Por tudo isso, toda a vez que se levantam véus que encobrem os meandros obscuros das relações entre a religião e a política, é saudável para a sociedade.

Cai a máscara de Sóstenes
Vejam o caso exemplar do pastor Sóstenes Cavalcante, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia. Eleito deputado federal em 2018 (PSL-RJ), foi um dos líderes na Câmara da bancada evangélica que apoiou Bolsonaro e conquistou várias vantagens fiscais. Reeleito em 2022 (esta vez pelo PL-RJ), se destacou em 2025 por liderar a oposição na campanha pela anistia ao ex-presidente e demais golpistas antes do julgamento do STF.

Apanhado em 19 de dezembro, numa busca da Receita Federal, com R$ 430 mil em espécie escondidos em um saco de lixo preto no fundo de um armário, disse que o dinheiro era fruto da "venda de imóvel". e que,”na correria do fim de ano" (para tentar aprovar a anistia?), "não teve tempo de depositar/aplicar o dinheiro”.

Ante à cobrança da imprensa, demorou quase 48 horas para dar essa desculpa, sem apresentar a escritura; que o imóvel é de Minas Gerais (embora reparta o seu tempo entre o domicílio no Rio de Janeiro e Brasília, onde atua na Câmara dos Deputados).

Pois nesta sexta-feira, 16 de janeiro, o jornal “Folha de S. Paulo”, que foi atrás do registro do imóvel (uma casa na cidade de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro), revelou (e “O Globo” confirmou) o que já se desconfiava. O tal imóvel foi comprado por um advogado (?), mas só teve o registro em cartório efetuado dia 30 de dezembro, 11 dias depois da busca da PF encontrar o dinheiro. Ou seja, depois do crime. E o valor total da operação foi R$ 500 mil.

Nunca se soube de comprador relapso que tenha esperado 30 dias para fazer uma escritura. O que torna o negócio mais estranho ainda: um advogado que paga ao vendedor sem fazer o registro; e um vendedor que não tem pressa para aplicar R$ 430 mil (pois toda movimentação financeira acima de R$ 10 mil é registrada pelo Coaf e comunicada automaticamente à Receita Federal).