Torcida externa

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JB
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É sabido que governos e políticos dos Estados Unidos e Europa, simpatizantes de Bolsonaro, andaram sugerindo que sua campanha pela reeleição adote, na fase final, um perfil de comparações do Brasil frente a países vizinhos que, em urnas anteriores, optaram por presidentes esquerdistas, e hoje enfrentam dificuldades. Nem se sabe que esse seria caminho adequado para despertar a sensibilidade dos brasileiros, que, pelo menos até agora, não revelam maior interesse em acompanhar o que se passa com os povos próximos. Contudo, na sexta-feira, Bolsonaro deu sinais de possível simpatia para o acatamento do conselho externo. Durante compromisso religioso em Juiz de Fora e visita à Santa Casa local, foi pródigo em citar os maus momentos que estão passando Bolívia, Chile, Colômbia, Venezuela e Argentina. Países que nas últimas eleições deixaram clara a preferência pelas bandeiras de esquerda, ainda que pela mão de maiorias não tão expressivas; e o presidente brasileiro entende que, por isso, mais que qualquer outro fator, ampliaram-se muito as dificuldades deles, o que leva a supor farta contribuição para grande caos continental.

Os interesses manifestados, sobretudo em Washington, pela eleição no Brasil, já haviam sido comentados aqui, semanas passadas. Grandes círculos de influência europeus e norte-americanos, talvez mais que o próprio Bolsonaro, passaram a ter o Brasil como porto seguro para ancorar os projetos da direita, sob pena de padecerem o risco de graves prejuízos políticos e econômicos. Em relação às fronteiras próximas, o presidente, até então procurava concentrar atenções apenas na Venezuela, porque a tragédia social ali, com milhares de retirantes, tem custado a Roraima pesados investimentos em ações humanitárias.

Mas é de se conferir se o presidente realmente adotou, como tema preferencial dos últimos 70 dias de campanha, a vizinhança esquerdista e os constrangimentos dela decorrentes. Ou se, raciocinando sob os ares de Minas, teria sido apenas breve referência a problemas externos. Cabe duvidar porque, ainda na mesma visita à Santa Casa, que o acolheu depois do atentado de 2018, ele incursionou em discurso diametralmente aposto, ao garantir aos médicos que o ouviam que os grandes inimigos não vêm de fora, mas estão bem aqui dentro.

 

Versão nova do mensalão

As últimas semanas têm permitido concluir que o “orçamento secreto”, assim chamado para encobrir detalhes não muito republicanos, significa, para o governo Bolsonaro, o que foi o famigerado Mensalão para o governo Lula. Mudam-se os rótulos, mas na essência e nos objetivos o expediente é o mesmo. Permite-se, então, insistir em que, por força das circunstâncias políticas, há muito mais coincidências nos destinos desses dois, do que se pode imaginar numa observação superficial.

O governo precisa dos votos do Congresso, e sabe que o apetite parlamentar é furioso, principalmente quando os favores dependem do Centrão, aliado que não convém desprezar, até porque para ali correm 21% dos votos dos brasileiros. O Centrão é como terremoto: não poupa mortos e feridos, não faz concessões com quem estiver na frente de seus abalos. Não brinca em serviço. Viu-se na votação da mais controvertida das PECs: 469 x 17.

Razão para preocupar mais é que não se trata de fenômeno exclusivo da paisagem de Brasília, mas em todos os estágios das relações entre os poderes Executivo e Legislativo. Os prefeitos acertam os ponteiros com os vereadores; por sua vez, os governadores também ganham a simpatia dos deputados agradando com obras e serviços de que se servem eleitoralmente os que votam nas assembleias. Confundem-se e invadem-se os limites das responsabilidades, mas nesse particular não há quem possa se queixar; todos estão de acordo.

 

Armas no coldre

O Tribunal Superior Eleitoral foi instado, por iniciativa de partidos políticos, a determinar a suspensão temporária do direito de porte de armas de fogo, algumas horas antes e horas depois das eleições de 2 de outubro. Medida preventiva que, proveitosa em qualquer aglomeração política, muito mais neste ano, quando são crescentes a intolerância e os sinais de violência.

O TSE já, com as mesmas preocupações, proibiu o consumo de bebidas alcoólicas em pleitos anteriores. Pois, se os ânimos etílicos podem levar a incidentes entre adversários políticos, muito mais nefastas são as armas de fogo. Justifica-se, ainda, pelo doloroso fato de o Brasil estar regredindo aos tempos do coronelato, quando, não raro, as eleições se banhavam não só de votos, mas igualmente de sangue.

Esses nossos dias de intolerância, com os desdobramentos de violência, têm inspiração, entre outros fatores, na polarização das contendas, onde faltam substância e ideias, mas sobram ofensas e conflitos pessoais.

 

Abstenção duvidosa

Sobre os temores de uma robusta abstenção na eleição presidencial de outubro, ouvem-se diferentes versões, mesmo não se sabendo exatamente em que dados os analistas se baseiam para assentar essa afirmativa. Há quem insinue uma ausência em torno de 30 milhões de votantes; mas ainda essa indicação não se suporta em dados analíticos concretos. Afora o fato de milhares de brasileiros disporem de mais algumas semanas para se deixar envolver, preferindo manter-se, por hora, na faixa dos indecisos.

Entre as análises que têm sido divulgadas, uma parece estar muito mais fora da razoabilidade, porque atribui ao fenômeno do desinteresse à polarização que está criada entre Bolsonaro e Lula. Contudo, deve-se entender que, se os dois principais candidatos geraram a radicalização, é exatamente como produto desse clima que se haveria de admitir um grande ânimo da participação do voto. Não parece lógico explicar a previsão de uma acentuada abstenção; pelo menos por hora. Se ela ocorrer, talvez seja mais justo explicá-la no desprestígio e no descrédito que a classe política veio acumulando nos últimos tempos. A culpa seria de muitos, não apenas de dois candidatos que se engalfinham.

 

Razões que sobram

Patético e certo de que é quase nada o que pode fazer para reverter as tragédias em série, que abalam seu país, o presidente Biden abre os braços e pergunta aos ventos por que esses ataques malucos que abalam a sociedade americana?, ceifando a vida de centenas de inocentes; preferencialmente crianças e adolescentes. Why? Por que só aqui?, insiste em saber. Há dias repetiu a queixa teatral durante visita ao Highland Park, onde mais seis haviam tombado, pouco antes.

Talvez o presidente, preocupado com a vida dos inocentes de sua terra, encontre resposta às suas aflições nas mortes e na memória da inocência de crianças e jovens vítimas das forças de ocupação no Vietnã, Iraque e Afeganistão. Portanto, a resposta a Biden está, a um só tempo, tão distante e tão próxima para tragédias que se assemelham.

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