A voz da experiência

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JB
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Nestas horas de jogo pesado, repletas de ameaças latentes ou totalmente expostas, a guerra pelo poder descambando para o vale-tudo, seria desejável apelar a quem possa evitar que as coisas escapem do mínimo controle. Onde buscar o salva-vidas lançado ao mar de tantos perigos? Aos governantes, aos fazedores de leis e aos julgadores, impossível, porque eles mesmos provocam as ondas, ainda que sabendo estarem todos no barco comum quase à deriva.

Pois num momento crítico como o de agora, com os poderes e lideranças primando pela desarticulação, cabe lembrar que, vinte anos passados, falou-se na oportunidade de se instituir o quadro de senadores vitalícios, com voz e sem voto, formado pelos ex-presidentes da República, conselheiros habilitados a oferecer sua experiência na superação de grandes crises; porque todos, em determinadas circunstâncias, foram chamados a solucioná-las a seu modo. Pois a ideia dos vitalícios acabou não sendo levada a sério, porque para muitos pecava pela inconstitucionalidade, sem embargo da importância de se lançar mão de vivências passadas, sempre úteis, se não para revelar soluções, pelo menos para indicar trilhas momentâneas, se os caminhos são por demais arenosos. A História é que sabe ensinar.

Nota-se que os ex-presidentes são completamente ausentes, com a ressalva da breve gestão de Michel Temer, chamado a esfriar as águas ferventes do distante Sete de Setembro. E nada mais que isso. Aos que o antecederam (não são muitos: José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique e Dilma, tirante Lula, que está no jogo de hoje) seria conveniente buscar conselhos, sem que interfiram as simpatias pessoais pelos que hoje querem chegar ao topo em que os passados já chegaram. Política se resolve conversando; mais ainda quando se transita por momentos graves. Os ex podem se revelar eficientes bombeiros, apagadores de incêndios; se não isoladamente, mas em conjunto, dando à nação vigoroso exemplo de maturidade ante desafios delicados, como o que nos vem inquietando nestes dias.

 

Voto feminino decisivo

Ouve-se dizer que, bem calculados, os votos femininos de outubro podem marcar performance histórica. Serão 8 milhões a mais que os votos masculinos, segundo estatísticas, com números que não excluem previsões do abstencionismo, entre elas sempre com larga expressão.

Com tal contingente, se participando ativamente, visto podermos ter uma renhida disputa presidencial, teriam elas tudo para influir no destino do país nos próximos anos. Pergunta-se, contudo, se quererão assumir tal responsabilidade. Algo historicamente duvidoso, se se tomar como base de reflexão o fato de haver certa intuição feminina tendente a admitir que a política e as eleições, tal como se praticam, não têm sido instrumentos suficientes para dar solução aos problemas maiores. Talvez seu inconsciente coletivo pondere que se, por si sós, os votos majoritários fossem capazes de mudar o curso dos acontecimentos, os homens, com sua grande e perpétua maioria, já o teriam feito. O argumento pode parecer simplista, não facilmente admitido, mas tem acolhimento entre alguns dedicados a estudá-lo.

Possível, de fato, ainda, que culturalmente acostumadas a observar a História sob outras perspectivas, as mulheres querem o direito do voto, mesmo sem exercê-lo na prática. Tal se deu em vários países, a começar pela Nova Zelândia, que em 1893 tornou-se o primeiro a permitir a participação feminina. No Brasil, onde seu poder político nunca ascendeu a 30%, esse direito se consagrou com a reforma política de 1932, mas o alistamento foi inexpressivo. De tal maneira, que, acima da novidade das inscrições, quem se celebrizou no noticiário da época, dona Virgínia Augusta de Andrade, mineira de Itabira, que foi para a fila inscrever-se, quando já tinha 99 anos.

 

O que faltou dizer

Não se pode afirmar que se dissiparam as dúvidas em torno dos resultados da reunião que, na semana passada, realizaram deputados, à frente Arthur Lira, com o presidente do Supremo Tribunal Federal, tendo como pauta, além das cordialidades de estilo, o exame das divergências e responsabilidades dos três poderes no tempo que está correndo para as eleições. Os desencontros permanecem acesos, ao mesmo tempo em que prosperam num quadro de dúvidas sobre a invulnerabilidade das urnas, nas quais especialistas das Forças Armadas identificam certas sombras quanto à lisura.

O deputado Lira, sobre quem não pairam suspeitas em relação a simpatias pelo presidente Bolsonaro, reduzir os resultados da reunião apenas a considerações tangenciais, como o empenho de todos em honrar a democracia. Ora, estranho se não fosse esse o sentimento geral. Objetivamente desejável é que os homens que fazem as leis para serem cumpridas e julgadas mostrem os caminhos das pedras, com coragem, sem medo de tropeçar.

O que está a dever nas relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário, é o que têm a fazer logo para vencer as causas em que continuam prosperado os conflitos. Nesse passo, não se sabe se os deputados recomendaram (e se recomendaram não o dizem) que os ministros togados se abstenham de continuar incursionando em questões políticas, quando, por sua própria natureza, estas devam estar no âmbito legislativo. Avanços imprudentes têm se revelado poderoso instrumento para agravar as relações.

Ainda na superficial avaliação daquele encontro, o presidente da Câmara revelou disposição geral de acolhimento da manifestação das urnas de outubro. Também aí o estranho e espantoso seria o contrário... Ficamos, então, no campo das obviedades, sem que se saiba se alimentam os representantes daqueles poderes real disposição de remover, em seus campos de atuação, os entraves que têm prosperado, e justificam as maiores preocupações. É necessário que se restabeleça um mínimo de harmonia, tal como desejou o velho sempre citado Montesquieu na teoria tripartite dos poderes.

 

Brasil-Portugal

Não haveria de ser um almoço mal organizado, com todos os ingredientes para dispepsia, capaz de arranhar as relações entre Brasil e Portugal, porque há, entre os dois, tão intensa afinidade cultural e social, que já nem mesmo dos males da colonização costumamos nos lembrar. Portanto, não nos deixamos contaminar pelo escorregão do presidente Marcelo de Sousa, que, logo ao desembarcar, chamou à mesa o candidato Lula, um dos dois principais concorrentes de uma campanha eleitoral repleta de atritos. O opositor do convidado, que é também o presidente da República, sentiu-se ofendido, viu pisado o protocolo, afastou-se do programa de recepção. Acabou tornando-se vítima de uma segunda descortesia do visitante, que menosprezou o rega-bofe oficial, porque entende que, para almoçar, não faltarão oportunidades.

Do lado de Bolsonaro o incidente divide opiniões. Se para alguns ele reagiu convenientemente ao insulto, para outros não devia ter passado recibo.

Mais um melindre enxertado nessa campanha cheia de tensões internas, agora com uma contribuição do presidente desajeitado de um país amigo.

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