Por reeleição, Guedes rasga a cartilha liberal

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Foto: Reuters/Adriano Machado
Credit...Foto: Reuters/Adriano Machado

No governo Sarney, dizia-se que “a crise viajou com o presidente”, para explicar a calmaria no país durante viagem presidencial ao exterior. Na ida de Bolsonaro aos Estados Unidos, a temperatura só não baixou mais porque os dois ministros Paulo (o Sérgio Nogueira, da Defesa, e o Guedes, da Economia) trataram de manter o fogo aceso. Anacronicamente, enquanto a comissão especial do Congresso dos EUA fecha o cerco nas acusações contra o ex-presidente republicano Donald Trump, por sedição e insuflar a infame invasão do Congresso no dia da diplomação do presidente democrata Joe Biden e a vice Kamala Harris, em cerimônia presidida pelo vice de Trump, Mike Pence (que seria enforcado, como sugeriu Trump, nos delírios sobre as desmentidas fraudes nas eleições de novembro de 2020), aqui no Brasil o ministro da Defesa repisa infundadas suspeitas sobre a lisura do voto eletrônico, em vigor no Brasil desde 1998 e elogiado por Joe Biden. Vale registrar que a atenção de Biden ao Brasil deixou Bolsonaro impressionado, que taxou o encontro de “excepcional”. Também, pudera: no início de seu mandato, na 1ª visita ao território americano, o então tiete de Trump (em caráter não protocolar) recebeu mero tapinha nas costas do colega americano. Bolsonaro vai entender, um dia, que o Brasil tem peso no mundo e na América Latina, independente de quem seja o chefe do governo. Quanto a Paulo Guedes, foi visto num “Posto Ipiranga” pedindo indicações para onde ir.

Conheci Paulo Guedes como economista liberal, na primeira metade dos anos 80, quando retornou de pós-graduação na Universidade de Chicago, onde foi aluno de Milton Friedman, com parada estratégica no Chile de Pinochet, onde pôde colaborar com o grupo de “Chicago Boy’s” praticando o ultraliberalismo pregado pelo guru monetarista, sob a garantia das baionetas do Exército. Ao voltar ao Brasil, Guedes virou consultor econômico do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), uma instituição patrocinada pelas grandes associações financeiras da época, a começar pela Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e a Anbid, mas com amparo decisivo de verbas públicas, alocadas desde que João Paulo dos Reis Veloso era ministro do Planejamento (muitos anos depois, na companhia do ex-diretor do Banco Central, Cláudio Haddad, privatizou o Ibmec; depois se separaram: Haddad transformou o ramo paulista no Insper e Guedes vendeu o Ibmec carioca).

Mas o que mais marcou o caráter de praticante do liberalismo foi sua passagem como assessor do então superintendente Affonso Celso Pastore durante a presidência do ex-ministro de Indústria e Comércio, Marcos Vinícius Pratini de Moraes, na Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Seus laços com Pastore, secretário de Fazenda de Paulo Maluf em São Paulo, até assumir a presidência do Banco Central, em 1983, alimentaram em Paulo Guedes, já também assessor do então senador Roberto Campos (PPB-MS), a ambição de comandar o BC na onda da candidatura de Paulo Maluf (com eleição dada como certa no Colégio Eleitoral de janeiro de 1985), sob cuja presidência Pastore seria ministro da Fazenda. As trapaças da política esvaziaram a candidatura Maluf, com a cisão dentro do PDS, que criou o PFL (posterior DEM, hoje União Brasil) e elegeu Tancredo Neves, de quem o ex-presidente do PDS, José Sarney, como vice, formou a chapa vencedora e virou presidente no dia da posse com a enfermidade, operação e morte de Tancredo.

A assessoria a Roberto Campos foi dividida com outro economista de linha liberal, porém, menos radical, Paulo Rabello de Castro, que se formou como advogado e depois cursou economia. Paulo Rabello, quando presidiu o IBGE e depois o IBGE no governo de Michel Temer, já há muito divergira do antigo colega de júri de um “julgamento” entre Capitalismo e Comunismo no programa “Advogado do Diabo”, na antiga TVE. Dirigido por Zezinho Gueiros, o evento opôs o senador Roberto Campos, avô do presidente do Banco Central, Roberto de Oliveira Campos Neto, que, obviamente defenderia os pressupostos e virtudes do capitalismo, ao “Cavaleiro da Esperança”, Luiz Carlos Prestes que defenderia os avanços provocados pelo comunismo. O júri tinha três membros. Como era previsível, o Capitalismo ganhou por 2 X 1, com votos de Guedes e Rabello de Castro. Vale lembrar que o programa foi ao ar depois de ruir o Muro de Berlim (1989), mas antes da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em dezembro de 1991. Neste século quando foi colunista do jornal “O Globo”, ocupando o espaço antes reservado ao falecido Roberto Campos, Paulo Roberto Nunes Guedes defendia o liberalismo, criticava a “velha política” e o intervencionismo do Estado. Com tais princípios, se engajou na campanha de Jair Bolsonaro, em 2018, da qual foi um dos fiadores.

Imagino que os ossos do ex-ministro do Planejamento, Roberto Campos, um dos maiores expoentes do liberalismo reformista no Brasil, quanto os do professor Friedman, tremeram nos seus túmulos ao saberem da última conclamação do atual ministro da Economia, em “live” desta semana, aos empresários de supermercados, em evento do qual também participou o presidente Jair Bolsonaro, candidato à reeleição. Repetindo a postura do então ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, que bradou “às favas com os escrúpulos” para apoiar a edição do AI-5 pelo presidente da República, marechal Costa e Silva, na fatídica reunião ministerial de 13 de dezembro de 1968, no Palácio das Laranjeiras, Paulo Guedes defendeu a ideia de que os empresários de supermercados (e outras atividades) se irmanassem com a atitude do governo que já reduziu impostos de importação de produtos industrializados, além de tributos e tarifas na energia elétrica, e propôs extenso pacote de renúncia fiscal na ordem de R$ 171 bilhões (cálculos do Itaú) para reduzir a inflação em 3 pontos percentuais, e segurassem os preços nos próximos três meses. Se ainda fosse estilingue, estaria criticando o intervencionismo do Estado, como cansou de fazer quando era dublê de banqueiro. As críticas, como acadêmico, minavam a confiança nos planos oficiais, cujo malogro fazia a riqueza dele e dos sócios que apostavam contra.

 

Redução de preço ou aumento de margens?

Quem não quer a redução da inflação? Em princípio, todos desejam que a espiral inflacionária tenha fim ou diminua a velocidade. Mas há sempre alguém ou alguns setores ganhando com a escalada da inflação. Quem faz apostas em desvalorização da moeda, em valorização de preços de commodities (atrelados às cotações internacionais em dólar), empresários que seguram estoques antes de reajustes anuais de preços de seus produtos e operadores em juros futuros, também podem sair ganhando (como fez Paulo Guedes no Banco Pactual, atual BTG-Pactual, quando projeções de inflação são furadas pela realidade). A inflação, sem dúvida, pune os mais pobres (que não têm renda financeira). Na divisão da renda nacional, empresários (banqueiros à frente, que podem operar se antecipando à inflação) saem ganhando ou perdendo menos. De resto, outros empresários podem se defender em operações no mercado futuro (“hedge”). Mas, na ponta perdedora estarão sempre os trabalhadores, com rendimentos reajustados a posteriori. O salário mínimo foi reajustado, em janeiro, em 10,18% - para R$ 1.212. Mas desde março a inflação acumulada já superou este nível e chegou a 12,13% em abril. Com os cortes nas tarifas de energia e outros impostos, como o IPI, a taxa do IPCA de maio subiu 0,47%, bem menos que os 0,83% de maio do ano passado, e a taxa acumulada da inflação em 12 meses cedeu para 11,73%. O que animou o governo a embalar o pacote geral de redução de impostos sobre energia, telecomunicações e combustíveis, sonhando com queda de 3 pontos percentuais na inflação até o fim do ano, justo no calendário eleitoral. Falta, porém, combinar com os russos. Ou seja, que Putin não altere ainda mais o já grave desequilíbrio no mercado de derivados de petróleo, que tem impacto sobre os preços das commodities.

Nem os mais ferrenhos apoiadores da reeleição do presidente Jair Bolsonaro acreditam que os planos de baixar impostos (federais e estaduais, que prejudicam também os municípios, mas seriam ressarcidos pelo Tesouro Nacional) vão dar 100% certo. A experiência histórica e a mais recente durante a pandemia da Covid-19 - quando o Banco Central liberou os bancos de trilhões em compulsórios e provisões, mas nem 40% dos recursos fluíram para o setor produtivo segurar o tranco da retração dos negócios nem os empregos - mostra que, na maior parte, as reduções de impostos (compromissos e tributos do governo ao setor privado) não são transferidas ao conjunto da sociedade, em especial aos consumidores. Reduções de custos por parte do governo costumam recompor preferencialmente as margens operacionais (e de lucro) dos empresários. Paulo Guedes sabe bem disso. Como o rebate dos impostos - por enquanto - está previsto até 31 de dezembro (se Bolsonaro conseguir virar o jogo e ser reeleito; se Lula mantiver o favoritismo das pesquisas ou um 3º candidato não atropelar), o problema cairá no colo do novo governo. Como um bumerangue, parte das reduções de hoje voltariam em 2023.

Diante de tudo isso, vamos ser francos. Guedes até podia estar animado com uma privatização digna de nome (o aumento de capital da Eletrobrás, no qual a União pediu “mesa” e deixou trabalhadores com FGTS e investidores privados assumir a maioria do controle numa operação de pouco menos de R$ 34 bilhões (o que perfaz um saldo global, incluindo venda de posições do BNDES, CEF e Banco do Brasil em estatais e subsidiárias inferior a 20% do R$ 1 trilhão que prometeu arrecadar com privatização de estatais). Mas ele pregou que os empresários façam um estelionato eleitoral: três meses de trégua nas remarcações de preços para trazer uma falsa tranquilidade ao bolso dos consumidores/eleitores, que poderiam mudar a percepção até aqui frontalmente negativa sobre a gestão de Bolsonaro na Economia (pilotada por PG) e na pandemia da Covid-19. Depois é outra história. Só que não.

Se o governo vai abrir mão de impostos (que podem fazer falta aos serviços de saúde e educação nos estados e municípios, onde, afinal, vivem e trabalham os eleitores) e os preços apenas não subirem, os empresários estarão engordando os lucros. Se Paulo Guedes fosse honesto, tinha que pregar (e fiscalizar) que a partir do momento em que o governo (federal, estadual e municipal) estiver abrindo mão de impostos/receitas (que são custos para os empresários), esses benefícios sejam transferidos aos consumidores mediante rebaixo de preços e não somente a trégua na escalada de reajustes.

 

Itaú: sem pacote, inflação sobe em junho...

O Bradesco e o Itaú notaram, mesmo na redução do IPCA para 0,47% em maio, que “os núcleos da inflação seguem pressionados”, palavras do Boletim Diário do Bradesco na 6ª feira. Nos cálculos do Departamento de Estudos Econômicos do Itaú (que tem acompanhamento semelhante à listagem de bens e serviços, com os devidos pesos, apurada pelo IBGE em 16 capitais e regiões metropolitanas), se o pacote que o governo pretende aprovar no Senado a partir de amanhã (13/6) não entrar em vigor rápido, derrubando a inflação, a avaliação preliminar do IPCA de junho projeta alta de 0,70%. Como a taxa mensal, em junho de 2021, foi menor (0,53%), significa que haverá pequeno repique no IPCA em 12 meses, que bateria em 11,91%, ainda que abaixo de 12%.

 

...e segue acima de 10% até a eleição

Mas as projeções do Itaú para julho e agosto, embora com níveis mais suaves (0,57% em julho e 0,49% em agosto), indicam que são também reduzidas as possibilidades de a taxa acumulada em 12 meses descer a menos de 11% até agosto. Ou melhor, a tempo de bafejar Jair Bolsonaro nas urnas em 2 de outubro. Os dados de junho serão revelados pelo IBGE em 8 de julho; os de julho, em 9 de agosto; os de agosto em 9 de setembro (ainda acima de 11% pelas estimativas do Itaú), e os dados de setembro só serão conhecidos em 11 de outubro, depois do voto e do resultado do 1º turno. Há tempo para virar?

 

Conflitos de interesse?

Há muito me desagrada a ingerência direta de instituições financeiras em sites de notícias. Em meus 50 anos de jornalismo (e creio que vários colegas de minha geração, como George Vidor, faziam o mesmo), praticava o rodízio de fontes para “não sermos operados” por hábeis operadores (como Antônio José Carneiro, o “Bode” do Multiplic, Marcel Telles, do Garantia, Alfredo Grunser e Cesar Manoel de Sousa, da Open, o pessoal do Bradesco, do Real, do Itaú, do Econômico, do Bamerindus, do Nacional, da Omega) e por aí ia a lista. Visões diversas sempre podiam favorecer o leitor na outra ponta. Mas era notória ao longo do tempo a afinidade com esta ou aquela fonte. Quando as assessorias de imprensa entraram em cena, como intermediárias entre os jornalistas e suas fontes, a franqueza do jogo começou a mudar.

Com o avanço do jornalismo “online”, lamentei o viés que alguns veículos adquiriram de canal preferencial de vinculação deste ou daquele banco. A situação piorou. Com a concentração bancária e as crises financeiras de muitos órgãos de imprensa antes famosos, bancos assumiram revistas e sites, em frontal conflito de interesses. Assim como acompanham a inflação, dados fiscais, a marcha da Covid-19 e a política, que influi nos negócios, instituições financeiras contrataram institutos de pesquisa. O BTG-Pactual, que controla a Exame, fez a pesquisa Exame/Ideia e mais recentemente recorreu à FSB para fazer a BTG/FSB. O banco Modal + tinha pesquisa mensal, aparentemente interrompida quando a XP comprou o seu controle. A XP, que já controlava o site “Infomoney”, tinha outra com o Ipespe. A Genial Investimento se associou à Quaest Pesquisas. Informação é um trunfo valioso nos negócios.

Mas o episódio desta semana, que levou a XP a alterar a periodicidade semanal da Pesquisa XP/Ipespe, após reação inconformada de bolsonaristas, que pregaram o boicote à instituição, porque uma pesquisa de opinião apontou que os entrevistados julgaram Lula mais honesto do que Bolsonaro, entornou o caldo. Para se resguardar, a XP resolveu suspender a pesquisa, que passará a ser mensal e vinculada à chancela do “Infomoney”. Acredito que tanto o Tribunal Superior Eleitoral quanto a Comissão de Valores Mobiliários precisem ficar mais atentos para separar o joio do trigo. Ou melhor, o que é informação plantada contrabandeada em meio a tantas “fake news”.

 

O retrocesso da fome

Dois fatos chocantes mostraram o retrocesso do Brasil nos tempos atuais: o sumiço do jornalista inglês, Dom Phillips, colaborador do jornal britânico “The Guardian”, e do ambientalista Bruno Pereira, no vale do Javari, na Amazônia, e o retorno da fome, cujo contingente atingido pela insegurança alimentar superou os 33 milhões de brasileiros, segundo o último levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). Doze milhões de famintos estão no Nordeste, 11,7 milhões no Sudeste. Outros 32 milhões comem menos do que costumavam ou suprimiram uma das refeições. Há ainda um contingente de 59 milhões que não sabem se terão dinheiro para comprar comida no futuro e passaram a escolher produtos mais baratos na hora de fazer as compras. E Bolsonaro diz nos EUA que o Brasil garante alimentos para o mundo. Esquece do dever de casa?

Em brilhante texto no “Blog do Noblat”, no site Metrópoles, de 9 de junho, Guga Noblat replica o DNA do pai, meu querido amigo Ricardo Noblat, companheiro do velho Jornal do Brasil. Após listar várias “barbeiragens” de Bolsonaro na economia, que se refletem nas pesquisas eleitorais que não mostram reação dos entrevistados, aos programas e ações citados por um presidente maquiado, penteado e treinado para falar do Auxílio Brasil, programa social que substituiu o Bolsa Família, porque “falta trabalho, falta renda, falta comida”, Guga Noblat arremata: “Se estivesse interessado em governar, Bolsonaro poderia ter evitado uma calamidade dessa magnitude. (...) Preferiu investir seu tempo em ataques à democracia, discursos cheios de grosserias, brigas intermináveis com inimigos imaginários e passeios de motocicleta. Enquanto isso, a população só quer viver uma vida digna, sem passar fome. Difícil imaginar retrocesso civilizatório maior”.

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