Qual será a mais nova desculpa?

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Foto: Marcos Correa / Presidência da República
Credit...Foto: Marcos Correa / Presidência da República

Em política há mais dissimulação do que verdade. Tancredo Neves, um mestre na arte política, expoente da velha tradição mineira, dizia: “só se deve escrever carta depois de saber a resposta”. Ou seja, não se anunciava acordo antes de estar tudo selado. Em tempo de campanha política, então, mente-se como nunca. As evidências do passado são varridas para baixo do tapete da história. As contradições do presente são ignoradas hoje, como se não houvesse amanhã. Vejam as seguidas falas dos dois candidatos que polarizam a eleição. Se o tiro da véspera virou bala perdida ou saiu pela culatra, articula-se um arremedo de desmentido ou retratação da fala, para o curso ser retomado adiante como se nada tivesse acontecido. As pesquisas eleitorais refletem um pouco essa ambiguidade. Mas, pela força do cargo de presidente da República, que exerce desde janeiro de 2019, Jair Bolsonaro se excede.

Esta semana o IBGE registrou, dia 11 de maio, a inflação de 1,06% do IPCA em abril, que elevou para 12,13% a alta acumulada nos últimos 12 meses. Vale dizer que das 16 capitais e regiões metropolitanas pesquisadas pela IBGE, apenas Belém, com 9,65%, por enquanto, não tem inflação acima de dois dígitos; Curitiba lidera a alta com 14,82%. O IPCA mede as despesas das famílias até 40 salários mínimos de renda - R$ 48.480. Só ministros e altos funcionários do governo estão nesta faixa superior. No andar de baixo, na faixa das famílias com renda até cinco salários mínimos (R$ 6.060), a inflação do INPC foi um pouquinho menor em abril (1,04%), mas acumula alta maior em 12 meses (12,47%), puxada pela alimentação, pelo gás e os remédios, que pesam mais no bolso dos mais pobres, a imensa maioria da população e dos eleitores. De novo, só em Belém não atingiu os dois dígitos. O recorde é de Curitiba, com 15,20%. As projeções dos departamentos econômicos dos bancos e consultorias indicam que - a menos que o governo consiga tirar dois coelhos (não da cartola), mas dos quepes dos militares que cercam o presidente Jair Bolsonaro - a taxa vai ficar na faixa acima de dois dígitos até agosto ou setembro. O IBGE costuma divulgar o resultado da pesquisa de inflação do mês cheio na segunda semana do mês seguinte. Assim, a inflação de agosto será conhecida dia 9 de setembro (em plena campanha eleitoral, a três semanas da votação em 2 de outubro). A taxa de setembro será conhecida em 11 de outubro. Pode nem haver mais tempo para um 2º turno.

Jair Bolsonaro e seus assessores já perceberam que, apesar de ganhar uns pontos nas pesquisas desde que o ex-juiz da Lava-Jato, Sérgio Moro saiu de cena, fazendo refluir para ele intenções de votos de antipetistas arrependidos pelos desastres do governo na condução da pandemia e na economia, a escalada da inflação é o principal obstáculo a seu crescimento. Há forte rejeição do eleitorado ao governo do candidato à reeleição, sobretudo da parte do eleitorado feminino, que é a maioria da sociedade brasileira. E a rejeição não vem apenas das atitudes machistas do presidente. As mulheres percebem mais de perto do que os homens a carestia dos alimentos (a alimentação subiu 13,47% em 12 meses), dos remédios (12,27% em 12 meses), do gás de cozinha (33%), enquanto a percepção masculina fica mais aguda quando vai aos postos de combustíveis e constata novos aumentos na gasolina, no etanol, no GNV e no óleo diesel. Os dados de abril captaram os impactos diretos e indiretos dos reajustes dos combustíveis em 11 de março e parte do alívio na conta de luz, com a adoção da bandeira verde a partir de 16 de abril (antes estava em vigor a caríssima bandeira hídrica extra). Os impactos da nova alta de 8,87% do diesel nas refinarias em 10 de maio serão captados nos índices do mês a serem divulgados em 9 de junho. E paira no ar a pressão das associações de empresas de ônibus para aumentar as passagens em 15%.

Para tentar desviar o foco da inflação de dois dígitos, já acima de 12%, e mostrar que o governo faz o que pode e que a culpa pelas elevações dos combustíveis (que encarecem todas as mercadorias, pelo aumento dos fretes, com eventuais prejuízos dos caminhoneiros que fecharam preço para o transporte e foram apanhados no contrapé) não é do presidente, Jair Bolsonaro já demitiu dois presidentes da Petrobras e (não podendo afastar o novo presidente empossado há menos de um mês) demitiu, na manhã do mesmo dia 11 de maio, 4ª feira, o próprio ministro das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, que comanda a área da Petrobras e da Eletrobrás, as duas maiores estatais, que cuidam da exploração de petróleo e gás e dos combustíveis, e da principal fonte de energia elétrica do país (as usinas hidroelétricas). Para comprovar que necessita de uma narrativa que ajude a desvincular o governo da responsabilidade pela inflação - depois de fracassar a tentativa de nomear para o comando da Petrobras o consultor Adriano Pires, julgado como capaz de explicar didaticamente os aumentos (o que a direção da Petrobras sempre evitou fazer), porque sua empresa de consultoria seria tocada pelo filho, num total conflito de interesses -, Bolsonaro indicou para o MME o economista Adolfo Sachsida. Com origem no IPEA, Sachsida era habitual explicador dos percalços do combate à inflação e das contas públicas, quando comandava a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia até fevereiro, quando assumiu a nova Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos, após debandada de técnicos do Tesouro Nacional, quando constataram a falta de compromisso do governo com a austeridade fiscal, diante da máquina de gastança para tentar a reeleição.

Como a manobra não deu muito certo, Jair Bolsonaro teve de assumir, no dia seguinte à noite, 12 de maio, na habitual “live” das 5ª feiras, que a inflação estava muito alta e a responsabilidade era do presidente da República, mas tentou se desculpar dizendo que a inflação estava alta em todo o mundo. É parcialmente verdade. A carestia dos alimentos (como se viu em 2020), da energia (desde fins de 2020 até abril último) e dos combustíveis (desde que os preços do barril de petróleo voltaram a subir em dezembro de 2020, quando começou a vacinação contra a Covid-19 no Reino Unidos e nos Estados Unidos) não foi causada pelas consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia. Dados apresentados pelo presidente do Banco Central, dia 26 de abril, na CNI mostram que o Brasil só não está pior que a Turquia entre as grandes economias de países emergentes.

Por sinal, na narrativa de Jair Bolsonaro, após o encontro com Vladimir Putin, em Moscou, na 1ª quinzena de fevereiro, o déspota russo tinha atendido aos apelos do presidente brasileiro e retirado as tropas da fronteira da Ucrânia. Só que não. Em 24 de fevereiro, o Exército russo avançou sobre o território ucraniano (de onde não se retirará tão cedo) e um dos negócios entabulados por Jair Bolsonaro, a venda da fábrica de nitrogenados da Petrobras em Três Lagos (MS), para a russa Acron, melou, pela dificuldade de pagamentos que apontamos aqui tão logo começaram as retaliações financeiras e comerciais do Ocidente contra Putin. Na 6ª feira, 13 de maio, teve, de novo, que assumir a questão da responsabilidade do governo pela inflação. Não adianta. O presidente Joe Biden está sofrendo do mesmo problema nos Estados Unidos, onde o culpam até pela falta de leite e alimentos infantis, após problemas numa fábrica da Abbot, em Michigan. Não será um Sachsida que irá ajudar.

A responsabilidade pela má gestão geral do governo em várias situações é sempre, em última instância, do presidente da República. Ou será que o cargo máximo só vale para invocar a função de presidente da República e comandante em chefe das Forças Armadas para falar em “meu Exército”, “minhas forças armadas”, para forçar o alinhamento dos militares, que têm seus deveres constitucionais na defesa da Pátria e do Estado, como acólitos do governo em manobras sombrias como solapar a credibilidade do processo eleitoral brasileiro semeando dúvidas sobre as urnas eletrônicas? O presidente já tem demonstrado, em mais de 40 meses de mandato, preocupantes desvios de finalidade dos aparelhos do Estado brasileiro. Bolsonaro confunde as funções de defesa do Estado com a defesa intransigente do governo e de seu clã, mesmo quando apanhados em irregularidades. Tratou assim a Polícia Federal e a Abin, alvos de sucessivas interferências para (desculpem, foi o linguajar presidencial na famosa reunião ministerial de 22 de abril de 2020) “não foder com minha família e meus amigos”, justificando a troca do comando da PF), ameaçar trocar até o ministro, o que levou à demissão do então ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, no dia seguinte, 23 de abril. Depois do precedente, a Procuradoria Geral da República passou a atuar como procuradoria de defesa do Palácio do Planalto e a Advocacia Geral da União seguiu pelo mesmo caminho tortuoso. Aproveitando a defesa da legalidade do benefício da “graça” ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), a AGU se estendeu na defesa dos atos agressivos do parlamentar pelas redes sociais. Pior fez agora a AGU, ao defender a famosa Wal do Açaí, a caseira do então deputado Jair Bolsonaro que cuidava de sua casa e de seus cachorros em Mambucaba, região de Angra dos Reis-RJ, mas estava lotada e recebia por seu gabinete em Brasília, onde nem comparecia (típico indício de peculato). E o festival de aparências fechou o ciclo esta semana com o afastamento do delegado que investigava, em Brasília, o favorecimento de um empresário ao filho 04, Jair Renan, em troca de contatos do filho presidencial em gabinetes do Planalto e dos ministérios. Isso porque a tentativa de Bolsonaro de dizer que “o filho 04 há muito tinha saído das suas vistas, do seu controle direto”, não caiu bem junto à opinião pública. Então, é melhor encerrar o inquérito no nascedouro como se conseguiu no TJ-RJ, com o caso das “rachadinhas” no gabinete da Alerj do atual senador Flávio Bolsonaro, o filho 01 e coordenador da campanha de reeleição.

 

Negócios e democracia

Nascido na África do Sul, em 1971, no tempo do “apartheid”, posto abaixo com a reconciliação do país liderada por Nelson Mandela, após 27 anos de prisão, e com cidadania canadense e norte-americana, Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX, é considerado o homem mais rico do mundo em 2022. Seus negócios custaram a alavancar, como os carros elétricos da Tesla, que quase foi à falência. Seus foguetes da SpaceX eram considerados visionários, mas os ganhos com a reutilização dos caríssimos equipamentos, que voltam à Terra, como faziam os foguetes Challengers, tornaram o negócio altamente rentável, até mesmo para explorar o turismo aeroespecial. Mas nem tudo o que ele toca vira ouro. Seus negócios com criptomoedas, por exemplo, vivem momentos críticos com queda de mais de 50% nas cotações em geral. Coincidência ou não, na sexta-feira, 13 de maio, ele anunciou que a compra do Twitter, por US$ 44 bilhões, pode demorar um pouco mais. Alguns interpretaram que ele estava desistindo da operação e as ações despencaram mais de 10%. Aí Elon Musk, que é visionário, mas não rasga dinheiro nem destrói criptomoedas, garantiu que “ainda estava comprometido com a compra” e aparentemente estancou a sangria, para alívio dos trumpistas e bolsonaristas, sequiosos pela disposição do futuro dono de não fazer restrições em conteúdo político e que se manifestou pela volta de Donald Trump à rede.

Elon Musk é um homem de negócios e quer fazer dinheiro com o Twitter. O banimento de Donald Trump nas redes sociais (Twitter, Facebook, Metaverso) depois que sua coleção de “fake news” culminou com a infame incitação a seus apoiadores para a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, para impedir a homologação da chapa Joe Biden-Kamala Harris, foi uma medida profiláxica, em defesa da democracia. Mas é inegável que a saída de cena de Donald Trump reduziu o tráfego do Twitter. É bem verdade que um Trump sem os poderes do comando da maior potência do mundo não atrairia tantos tuítes e retuítes mundo afora. Musk sabe disso. Mas Trump ainda é o mais influente entre os Republicanos e em 8 de novembro haverá eleições legislativas que podem consolidar ou não o domínio dos Republicanos na Câmara dos Representantes e, eventualmente, conquistar a maioria do Senado, no que seria uma imensa derrota para o presidente democrata Joe Biden, desgastado pela escalada da inflação. As primeiras prévias estaduais foram iniciadas em maio. A volta de Trump no comando do aplicativo de até 240 caracteres teria repercussão e atrairia, pelas polêmicas, cada vez mais usuários (o que contribuiria para elevar os valores das tabelas de anúncios). Bingo.

A decisão de Musk de depurar os robôs (“bots”) entre os reais usuários do Twitter é para identificar o que tem, de fato, potencial monetizável no aplicativo. Não era uma decisão pela transparência e responsabilidade na rede social. Para um capitalista e especulador nato, essas questões não estão na linha das prioridades. A lógica é multiplicar lucros com a ampliação da base de usuários. Ética social e escrúpulos não combinam com os planos de Musk. Por isso, os organizadores da campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro acompanham com tanta atenção a concretização da mudança do controle do Twitter, que na gestão anterior suspendeu várias postagens mentirosas do presidente Jair Bolsonaro e entourage. Se Trump receber a bandeirada de retorno à pista, seria sinal de que tudo seria possível por aqui também, onde várias redes sociais continuam infestadas por robôs, como ficou claro nas votações do Big Brother Brasil, acreditam os bolsonaristas. O Whatsapp já avisou que não muda nada antes das eleições. Se facilitar, as investidas contra as urnas eletrônicas não teriam limites na campanha. A Justiça eleitoral tem de ficar atenta e vigilante contra os inimigos solertes da Democracia.

Macaque in the trees
. (Foto: Agenda BC)

 



Jair Bolsonaro teve de assumir, na habitual "live" das 5ª feiras, que a inflação está muito alta e a responsabilidade era do presidente da República
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