O doce abacaxi

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Foto: Reuters / Adriano Machado
Credit...Foto: Reuters / Adriano Machado

Ouviu-se o presidente Bolsonaro dizer que já não vê a hora de deixar o ácido abacaxi, que a eleição de 2018 jogou em suas costas, embora não a contragosto, pois foi exatamente para descascá-lo que lutou o quanto pôde. Mais tarde, ainda com palavras amargas, confessou que não sabia onde estava com a cabeça ao aceitar a disputa. Na verdade, o crédito único que se pode conceder a essas queixas limita-se às dores de cabeça provocadas pelos problemas diários, muitos dos quais, se pungentes, resultaram do comportamento que ele próprio costuma adotar ante os desafios. Mas nada, em nenhum momento, sugere que, de tão desgostoso, realmente anda pensando em abandonar o páreo de 2022. É candidato, porque assim deseja, mesmo se instado a criar novos impasses. Poucos duvidam do real dissabor, porque, acima de tudo, o cargo e o poder conferem imensos prazeres. Carlos Lacerda já dizia que essa história de sacrifício na política é conversa mole.

Afora uma realidade que sempre cercou a vida de todo presidente, porque, por força dos interesses que o cercam, acaba perdendo parte da vontade própria. Manda muito, mas não tudo. As circunstâncias cobram e lhe impõem decisões, uma das quais é disputar a reeleição, quando isso convier ao grupo.

Um fenômeno interessante do ano eleitoral é que se aprimora a arte de jogar com o tempo, o que permite garantir que a encenação presidencial tem prazo de validade, como os iogurtes, até fins de janeiro, no máximo fevereiro, quando as articulações no campo sucessório cassam-lhe o direito do faz de conta.

 

Trabalho e mercado

Dizia o ministro da Economia, em recente interlocução, que o governo empenha-se, e continuará se empenhando, na aplicação de programas de digitalização no serviço público, porque está aí a base, o primeiro passo, para se atingir um mínimo de modernização e eficiência. E acrescentava um dado justificador: na substituição do pessoal aposentado, em cada grupo de 100, o modelo tradicional exige a convocação de 70; o que já seria um progresso. Mas, hoje, graças aos recursos da digitalização, pode-se operar a ocupação dos cargos em igual contingente com apenas 26 servidores.

O avanço tecnológico, fenômeno visível em todo o mundo, permite indagar se, no Brasil, temos feito o necessário, ou, pelo menos, o suficiente, para garantir capacitação a novas gerações de trabalhadores, dando-lhes fácil acesso às fontes de produção, estas cada vez mais impositivas, tanto no serviço público como na iniciativa privada. Certamente que há muito o que fazer. Nesse particular, os governos têm deixado a desejar.

É preocupante, porque no aperfeiçoamento da mão de obra os programas governamentais para o setor têm cuidado, preferencialmente, como cuidavam décadas passadas, de servir apenas às indústrias tradicionais, onde máquinas e processamentos foram caindo rapidamente na obsolescência. Não conseguiram agregar o progresso tecnológico em nível desejado. O que foi, e continua sendo, receituário para grandes dificuldades futuras, pois inibe nosso poder de qualidade e competitividade. Por cima de tudo isso, uma questão de superior gravidade: a baixíssima escolaridade observada na mão de obra nacional.

Quase concomitante ao referido pronunciamento do ministro Guedes, um programa de TV, editado na Europa, mostrava, em dias da semana passada, os atuais efeitos da robotização nas grandes indústrias, sobretudo no setor automobilístico. Um cenário de quase melancolia e rara a atuação humana; meia dúzia de solitários trabalhadores transitando em meio à silenciosa automatização. Tudo para confirmar que já se deu à máquina uma competência sonegada ao braço do homem.

Contribui para agravar esse problema o crescimento da população disponível no trabalho. O brasileiro produz massas de jovens, em grande parte despreparados, gerando anualmente milhões de expectativas, muitas delas frustradas.

A qualificação do trabalhador na era da informática devia merecer espaço entre as prioridades de 2022; nem que seja apenas para não desconsiderar os dados extraídos do depoimento do ministro Guedes.


Astros na política

Se forem prudentes, jogando mais na capacidade de trabalho e como enfrentar o potencial dos adversários, os políticos confiarão menos nas previsões astrológicas, que na semana passada começam a rechear as redes sociais. Se acreditarem, melhor então que aceitem, com devidas reservas, as promessas do alinhamento dos astros e suas influências sobre o destino das pessoas. Até porque, o sol, neste ano frequentemente citado pelos videntes, certamente estará muito ocupado com anunciadas explosões, sem tempo para influir na eleição presidencial do Brasil. No mais, os astromantes garantem que vamos ter dificuldades políticas, enchentes e desastres, coisas que acontecem mesmo, naturalmente, sem que alguém tenha de antecipar que vão acontecer.

Ainda na seara política. Em 1960, famosa e simpática astróloga do Sul de Minas sugeriu ao marechal Lott que aprontasse o terno da posse, pois tinha como certa sua eleição para a Presidência da República, mas foi Jânio quem se elegeu. Nos Estados Unidos, país onde mais frequentemente se pede aos astros que antecipem o que está para acontecer, o presidente Trump também tinha êxito garantido pela conjunção dos sóis. E perdeu para Binden.

Sobre a eleição de 2022, cristais consultados anunciam que a sucessão de Bolsonaro é algo para se definir logo no primeiro turno, o que parece pouco provável que aconteça, independentemente de adivinhações.

Casos recentes recomendam aos políticos que entrem no novo ano com os pés no chão. Há grandes falhas nas previsões. Alguns dos astrólogos norte-americanos mais lidos e ouvidos, interpretando Nostradamus, garantiram grande terremoto na Califórnia em 25 de novembro passado, o que felizmente não se confirmou. Mais estranho ainda é que, há dois anos, não houve astros e videntes que descobrissem e nos prevenissem sobre a grande pandemia da Covid, que estava a caminho, e no Brasil roubaria a vida de 640 mil. É tudo para sugerir aos candidatos que joguem a sorte na sua capacidade de realizar e convencer. Essa história de que os astros não mentem jamais ficou longe, no carnaval de 1973, por conta do samba de enredo da Vila Isabel.

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