A marcha da insensatez

Embora médico cardiologista, Queiroga só falta repetir as palavras do antecessor, o general Eduardo Pazuello: "um manda, outro obedece"

Foto: AFP / Evaristo Sá
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Caro leitor, desculpe o mau jeito. Gostaria de compartilhar com você coisas mais amenas sobre o Natal. Falar do significado da vinda de Jesus Cristo para abrir as portas da libertação a uma parte da humanidade que segue seus bons ensinamentos sobre fraternidade, simplicidade, verdade, comunhão e respeito ao próximo. Também preferiria escrever sobre qualquer música do “maestro soberano”, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, com quem, apesar da distância em idade - farei 72 anos em 31 de janeiro e ele faria 95 anos em 25 de janeiro -, tenho afinidades que só o signo explica. Tom tinha sítio em São José do Vale do Rio Preto (RJ), onde também tenho (cansei de vê-lo por lá, na simplicidade da roça, que lhe deu inspiração a obras primas como “Águas de março”, “Chovendo na roseira”, ou “Dindi - na verdade, Dirindi, o morro que ficava em frente à propriedade herdada do padrasto, às margens do Rio Preto).

E coincidência das coincidências, Tom morou um tempo (após fazer grande sucesso nos Estados Unidos, com Frank Sinatra) na Rua Codajás (onde morei com meus pais de 1953 a 1973), no Leblon, numa casa em diagonal a meus primos Paulo Sérgio e Marcos Valle. Certa vez, ligou pelo fixo, sugerindo mudança na escala após ouvir, no silêncio da rua, com pouco trânsito até hoje, a composição que Marcos ensaiava ao piano, “e ele tinha razão”, me confidenciou Marcos, há alguns anos. Curiosamente, os autores das duas músicas brasileiras mais tocadas no mundo “Garota de Ipanema” e “Samba de Verão”, jamais fizeram algo juntos. O destino levou Marcos às terras de Tio Sam, onde foi trabalhar com Eumir Deodato, na Califórnia, enquanto Tom retornava ao Brasil. Descobri, muitos anos depois da morte inesperada de Tom (8 de dezembro de 1994, em delicada operação no Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque), que ele tinha morado não só na “Rua Nascimento Silva, 107”, onde ensinava “canções do amor demais” para Elizeth Cardoso, como dizia o parceiro Vinicius de Moraes, mas também no 107 de Barão da Torre, em Ipanema. Era em frente ao prédio 112, no qual morei de fins de 1973 até 2017. Felizmente, temos apreço pela natureza e meu gosto musical, incentivado pelos irmãos mais velhos, tinha Tom como parâmetro.

Isto posto, vamos falar de insensatez. Não a da belíssima canção que Tom compôs, com letra de Vinicius, em 1961, e dizia assim: “Ah, insensatez, o que você fez?; Coração mais sem cuidado; Fez chorar de dor o seu amor; Um amor tão delicado; Ah, por que você foi fraco assim? Assim, tão desalmado?; Ah, meu coração, quem nunca amou; Não merece ser amado; (...) Quem semeia vento, diz a razão; Colhe sempre tempestade; Vai, meu coração; Pede perdão, perdão apaixonado; Vai, porque quem não pede perdão; Não é nunca perdoado”.

Isso serve de carapuça para muita gente que está virando o Brasil de cabeça para baixo. Um país complexo que “não é para principiantes”, como alertava o Maestro. A insensatez a que me refiro tem a ver com o clássico “A Marcha da Insensatez”, da premiada historiadora norte-americana Barbara W. Tuchman (1912-1989), que lançou sua obra em 1984, poucos anos após o fim da Guerra do Vietnã, um divisor de águas na história recente dos Estados Unidos, e na qual a escritora premiada com o Pulitzer, aborda um dos maiores paradoxos humanos: a insistência dos governos em adotar políticas contrárias aos próprios interesses. Didática, visita a história para mostrar as causas de fracassos históricos na evolução da civilização ocidental, que tiveram consequências desastrosas para milhares de pessoas: a Guerra de Troia, a reforma protestante, a independência dos Estados Unidos e a Guerra do Vietnã. Em todos os episódios ela destaca: a razão ficou impotente diante dos apelos da cobiça e dos interesses individuais.

Caro leitor, será que precisamos ir tão longe no tempo para identificar uma sucessão de equívocos e encontros marcados com desastres que estão sendo perpetrados pelo governo de Jair Bolsonaro? O caso mais recente, corolário de todo o negacionismo do governo em relação à pandemia da Covid-19 (que considerou inicialmente uma gripezinha), ao uso de máscaras e o distanciamento social para barrar a disseminação do vírus enquanto não surgiram vacinas (as quais desdenhou, tentou desmoralizar, combateu e segue desmoralizando), enquanto ressuscita o “tratamento precoce”, com cloroquina&cia”, comprovadamente declarado ineficaz pela Organização Mundial de Saúde, em detrimento do apoio à vacinação, cujo avanço, apesar da resistência dos bolsonaristas mais radicais e dos renitentes grupos religiosos que seguem recomendando aos fiéis a “confiarem nos pastores e intermediários da “palavra de Deus”, é o da autorização à vacinação de crianças dos cinco aos 11 anos.

Enquanto a variante ômicron assusta as nações mais poderosas do mundo, levando os governos responsáveis pela segurança sanitária de suas populações a voltar atrás nos passos da abertura à livre circulação de pessoas, o Brasil anda na contramão do bom senso. Ao fim de 21 dias de análises, já descontados os 14 dias decorridos desde a solicitação de registro da farmacêutica americana Pfizer, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aprovou no dia 16 de dezembro a indicação da vacina Comirnaty para imunização contra Covid-19 em crianças de cinco a 11 anos de idade. A vacina já foi aprovada nos Estados Unidos e nos órgãos de vigilância europeus nos quais se inspirou a Anvisa, que fez análise técnica criteriosa de dados e estudos clínicos conduzidos pelo laboratório. A equipe técnica da Anvisa atestou que “a vacina é segura e eficaz para o público infantil”. Mas o presidente da República, provocado nas redes sociais por lideranças religiosas e outros porta-vozes do atraso, tratou de colocar obstáculos à aprovação da vacinação infantil, aos quais fez coro o cordato ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Embora médico cardiologista, Queiroga só faltou repetir as palavras do antecessor, o general Eduardo Pazuello “um manda, outro obedece”, máxima da caserna. Preferiu fazer uma elipse incompreensível, parafraseando o presidente: “é melhor perder a vida que a liberdade”.

Em vez de acelerar os trâmites para o ministério (que dá a última palavra) examinar o parecer da Anvisa, preferiu atender às recomendações presidenciais e abrir uma consulta pública, via internet, até 4 de janeiro, para que não só a classe científica, mas pais, mães, responsáveis e irresponsáveis deem pitacos. Pelo visto, Bolsonaro quer repetir os métodos de sua “eleição” como “Homem do Ano” para a capa da revista “Time”. Com o apoio que pediu na “live” de 25 de novembro, apoiadores e robôs lhe deram 2,1 milhões de votos na internet, superando os 810 mil votos (por métodos semelhantes) do ex-presidente Donald Trump. Os editores da “Time”, percebendo a fraude, escolheram o bilionário Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX, por seus esforços na criação de produtos voltados a acelerar medidas para reduzir o aquecimento global. Derrotado, Bolsonaro negou o vídeo em que pediu votos ao lado do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, instado a votar. O Ministério da Saúde trocou de chefe, mas o comando continua com Jair Bolsonaro. Assim, em dezembro de 2020, enquanto Reino Unido e EUA corriam para abreviar o início da vacinação contra a Covid-19, o então ministro Pazuello, qual “Sancho Pança”, ou um “Sargento Garcia”, dizia “para que a pressa? por que tanta ansiedade?”, aos repórteres que, em nome da população, cobravam medidas para iniciar a vacinação, que só correu em 17 de janeiro, por pressão do governador de São Paulo, João Dória, que se empenhou para que o Butantã fechasse parcerias para produzir a chinesa CoronaVac no Brasil.

Agora, após o surgimento de várias cepas, que até aqui, foram neutralizadas pelo avanço razoável da vacinação (71% da população brasileira receberam as duas doses, o ciclo mínimo recomendável pela OMS, melhor que o desempenho dos EUA, que vacinou sós 58% com duas doses, pela resistências de republicanos e religiosos), diante do surgimento de 90 mil novos casos em 24 horas, a França redobra medidas de isolamento e o Reino Unido, com 120 mil novos casos, também em 24 horas, faz o mesmo, Mas o ministro Marcelo Queiroga justificou o enorme lapso de tempo para examinar a questão da vacinação infantil para uma faixa ainda mais jovem, com concentração também menor de imunizante, afirmando, candidamente, que “não há emergência em vacinar crianças de 5 a 11 anos”. Os médicos quando se formam, após longos estudos, fazem “O juramento de Hipócrates”, o grego considerado o “Pai da Medicina”, que morreu em 370 A.C. Muitos, depois de formados e mordidos pela mosca azul da política, agem como hipócritas.

Fiel escudeiro do presidente Bolsonaro, o ministro do Turismo, o pernambucano Gilson Machado, mais conhecido por tocar sanfona e cantar mal, ao lado do presidente nas “lives” das quintas-feiras, em vez de se empenhar para que a vacinação avance, tornando o Brasil um país atraente e seguro aos turistas estrangeiros que poderiam gerar mais renda e empregos no país, dá o péssimo exemplo da recusa à vacinação. Por isso foi barrado em sua terra natal, Recife quando foi visitar esta semana o “Museu do Sertão”. Há quatro meses, em Nova Iorque, já tinha tido lição semelhante. Lá, participou da comitiva que acompanhou Bolsonaro no discurso na ONU, em setembro. Por falta de comprovantes de vacinação (como quase todos do governo, seguem o negacionismo do chefe), foram barrados em dois restaurantes e tiveram de comer pizza na calçada. Mesmo respondendo, de forma grosseira, com o dedo médio em riste, da van onde ia parte da comitiva, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, acabou contaminado (todos estavam aglomerados e sem máscaras na calçada) e teve de ficar retido no hotel de N.I., em quarentena (renovada, por continuar com sintomas). Gilson Machado também testou positivo ao voltar ao Brasil, como boa parte do grupo. Mas, vê-se que, não se emendou.

 

O coro dos desafinados

Enquanto ignora a aflição da maioria da população, exausta com o prolongamento dos riscos das variantes da Covid-19, que levaram Israel, que já vacinou praticamente 80% de seus 9,3 milhões de habitantes, a cogitar de uma 4ª dose para enfrentar as novas cepas do coronavírus para as pessoas mais idosas e com saúde mais vulnerável (no Brasil e na Europa estamos na 3ª dose), paralelo à vacinação dos adultos, as nações mais responsáveis avançam na vacinação dos pequenos (5 a 11 anos), para reduzir o campo de circulação do vírus, que facilita novas cepas, o presidente Bolsonaro lança, de seu breve retiro de fim de ano, no Guarujá (litoral de São Paulo), uma nova cruzada para reanimar seus seguidores. A discussão, no Supremo Tribunal Federal da questão de gênero na educação. Bolsonaro comemorou o fato de que a relatoria do assunto caiu no colo do 2º ministro que indicou ao Supremo, o “tremendamente evangélico” André Mendonça, que tomou posse na semana passada, no mesmo dia em que a Anvisa aprovava a redução da idade para vacinação, cuja decisão de levar as crianças ao posto de saúde, em última instância, sempre será do pai, da mãe ou do responsável legal.

Se alguém tem dúvidas da marcha da insensatez, podem me cobrar se Bolsonaro não vai ter mais empenho em explorar sua fatia de 20% (dois ministros indicados) no STF, para fazer “avançar a agenda conservadora” na educação do que a agenda da ciência na saúde. O paradoxo era o mote da campanha a vereador de seu filho 02, Carlos Bolsonaro, reeleito para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, apesar de dar expediente em Brasília, na comunicação do Palácio do Planalto. E o que dizer da facada no Orçamento Geral da União para descolar ao menos R$ 1,7 bilhão para reajustar salários da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Penitenciária dos presídios federais de segurança máxima? Embora reagindo timidamente (antes de entrar de férias), o ministro da Economia, Paulo Guedes, sabia que a puxada do tapete no reajuste dos auditores fiscais e demais funcionários da Receita Federal do Brasil iria desencadear uma rebelião no órgão que garante que o Erário continue arrecadando recursos dos contribuintes brasileiros (que pagam impostos sem se dar conta na compra de qualquer bem de consumo ou serviço0, fora o desconto mensal no contracheque). Qual o objetivo afinal do lance que já levou quase sete centenas de altos funcionários a abrirem mão de cargos de chefia (não dos empregos, claro) nas aduanas em portos, aeroportos e postos das fronteiras terrestres brasileiras? Para nutrir uma milícia aguerrida para dar-lhe apoio quando for peitar o resultado eleitoral negativo?

Nas últimas pesquisas eleitorais, 51% consideravam o ex-presidente Lula “o melhor” governante do país, enquanto, Bolsonaro amargava o fato de que 48% o consideravam “o pior”. São duas faces da mesma moeda, na qual está aparecendo a cara de Lula. Mesmo sua campanha de desgaste do STF (que pode recrudescer com dois soldados, um em cada turma de cinco ministros) parece não ter mudado o quadro: pesquisa indicou que 23% dos entrevistados aprovam o trabalho do STF; entre os bolsonaristas, apenas 12%. Será que dobrarão com a ida de André Mendonça para o colegiado de 11 ministros?

O que não aumenta, de jeito nenhum, é o apreço da população pelo trabalho do Congresso: 41% condenaram em pesquisa esta semana e só 10% aprovaram. Curioso: as críticas ao Congresso (como ao STF e ao Judiciário em geral) sempre partiram dos apoiadores de Bolsonaro, dentro da estratégia de desgastar os dois poderes da República para abrir caminho ao golpe do chefe do Executivo, contido pelo vigor do SFT na defesa da Constituição, e não pelos “lexotans na veia” que o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, diz recorrer, para conter os arroubos de seu ex-comandado na Academia Militar das Agulhas Negras. Mas um exame criterioso da base de apoio conseguida por Bolsonaro na Câmara e no Senado, após cair no colo do Centrão e se filiar ao PL, do “capo di tutti capo”, e ex-presidiário Waldemar da Costa Neto, condenado, sem anulação de processo, como Lula, no “petrolão” pela operação Lava Jato, mostra a contradição. Eles são a maioria.

O cidadão/contribuinte/eleitor pode não conhecer a História e saber que o Parlamento surgiu na Inglaterra, em 1230, para pôr um freio à sanha tributária do Rei sobre “os senhores da Terra” (que foram formar a “Câmara dos Lordes”). Mas ele sente, pelo empenho do Congresso em fazer despesas sacando sobre o futuro (sobre o bolso do contribuinte, a origem de todo o dinheiro do Estado - representado em todas as instâncias de poder, federal, estadual e municipal), que os representantes que colocou em Brasília com seu voto nos estados e municípios onde reside, não está cumprindo com a sua obrigação nº 1: fiscalizar os gastos do governo, na devolução do dinheiro dos impostos sob a forma de melhoria da educação, da saúde, da segurança pública, do saneamento básico, da economia, do emprego e da menor inflação dos alimentos, combustíveis e energia, que subiram como nunca.

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