O desafio da alternativa

...

Arquivo
Credit...Arquivo

O desafio que se impõe a vários segmentos políticos, incomodados com a possibilidade de a sucessão presidencial afunilar-se na radicalização de dois candidatos, reside, em primeiro lugar, nas ambições pessoais e de grupos, que impedem uma coesão capaz de oferecer ao eleitorado alternativa a quem não deseja a repetição de Bolsonaro e Lula; até porque a ambos já foram confiados 11 anos de poder. Observe-se, contudo, que analisar aspectos positivos dessa alternativa nem significa, necessariamente, estar contra as duas candidaturas já apregoadas; mas é, antes de tudo, uma imposição democrática. O eleitor não pode estar condenado a limitar o valor de seu voto a ser apenas contra ou favor dos dois tidos como preferenciais, mas precisa ter o direito de avaliar, com base num leque mais amplo, ainda que seja lulista ou bolsonarista de fé. O surgimento de um novo nome, é preciso ficar bem claro, não criaria limites a quem desejar optar entre Lula e Bolsonaro. O que se deseja é não ver o eleitorado refém desses dois. Ser contra ou a favor é coisa para se destinar ao segundo turno.

Contam-se 13 possíveis postulantes à terceira faixa, sem que se sinalize neles, pelo menos por ora, disposição de dialogar, unir projetos ou desistir de pretensões, em nome dos interesses da política nacional. Conclui-se, então, ser maior, para os partidos, a cota da responsabilidade frente ao desejado direito da alternativa, principalmente porque as pesquisas continuam robustecendo a ideia da polarização. As lideranças e os candidatos geralmente apontados para a terceira via têm sobre os ombros o dever de desafogar o eleitorado de um funil que, mantendo-se estreito, é exatamente o que interessa aos dois que o lideram. E somente a eles.

Conviria que examinassem, com desapego e carinho, a missão que lhes pesa, de forma que seja chamado a entrar na luta quem reunir condições para estabelecer necessárias comparações na hora em que vamos dar o voto.

Atos republicanos?

Reclama-se, cada vez mais, da política e dos políticos. E, em nome da moralidade no trato da coisa pública, o apelo é que não se rendam a atitudes e decisões “menos republicanas”; como se, na atualidade e com as coisas que vão acontecendo, por republicanas tivéssemos a melhor definição para virtudes desejáveis. Ontem, nos 132 anos da Proclamação, além do benefício de um feriado esticado, não houve quem pedisse explicação razoável para essa coisa que parece distante de sentido, porque os poderes vêm cuidando de mostrar que o desejável é levar o país a sacudir velhas poeiras dos vícios que a própria República criou e fomentou. Em rigor, portanto, o que se impõe é rever o que ficou de ruim na herança que vem de Deodoro.

A crescente degradação dos costumes políticos, como ainda agora se viu com as emendas parlamentares, já autoriza admitir que a expressão se esvaziou. Exigir que se pratiquem atos republicanos não significa, a bem da verdade, que estamos sonhando com a retomada de antigos valores no trato com a coisa pública. Querem alguns que se trata de eufemismo forçado, o que apenas suaviza o que é visivelmente falso.

Rui Barbosa se desiludira com o novo tempo que chegou para substituir o Império, porque veio, como acessório fundamental, o presidencialismo, já no berço suficientemente competente para matar os melhores ideais. Em frases bem medidas e com bons modos o mestre mostrou a decepção. Sem a veemência de Machado de Assis, outro a se decepcionar. O grande escritor pedia aos deuses que afastassem o Brasil daquele mal, porque “em novembro de 1889 nasceu a mais insolente aristocracia que o sol alumiara”.

Porém, havendo ou não impropriedade em definir como republicanos atos de valor indiscutível, seria de todo desejável que a política do regime e do sistema se renovasse, sem deformações que vão se avolumando na História, como compra de votos, tráfico de influência e o jogo dos interesses nas permutas de gabinete. Aperfeiçoando-se, a prática política poderá impedir, enquanto houver tempo, de assistirmos àquilo que perturbava o espírito de Mílton Campos, meio século atrás: a república decorativa, ao invés de decorosa, sem o enriquecimento ilegítimo que se obtém na votação das matérias em que o governo joga prestígio e testa sua força.


Hora dos acertos

Nestes 45 dias que restam do ano, pouco ou nada se pode obter, com relativa margem de segurança, sobre fatos e decisões capazes de exercer influências decisivas no processo eleitoral que se aproxima. A bem dizer, as peças definitivas do jogo sucessório só começam a ser jogadas nas primeiras semanas de 2022. E a primeira delas, já abrindo o calendário do TSE, é exigência às empresas e institutos que operam com pesquisas eleitorais, obrigados a registrar e explicar as conclusões a que chegarem nas suas previsões; e, ao mesmo tempo, têm de manter disponíveis os métodos adotados em campo, para eventuais conferências. Trata-se de um direito mais que legítimo, principalmente para os que se sentirem prejudicados ou contrariados. Pode parecer exigência sem importância, mas não é, porque cobra responsabilidade aos que antecipam saber o que pretende o colégio eleitoral. Em toda eleição, há casos de divulgação de falsas preferências e simulações encomendas. Em janeiro - pode-se esperar -, os operadores de pesquisas, sendo elas corretas ou não, encontram a forma de ajustar suas conclusões, porque a lei estará de olho.

Para contradizer a pouca importância política que se confere às últimas semanas do ano, diz-se que ainda há tempo hábil para importantes filiações partidárias de possíveis candidatos, como se dá com o presidente Bolsonaro (com filiação ao PL duvidosa e protelada) e o ex-ministro Ciro Gomes. Mas a ambos, como a outros, restará o direito de mudar de abrigo partidário até 7 de abril, nos seis meses que antecederão o pleito. É quando os partidos terão de fechar as portas aos postulantes. Ninguém mais entra. O que permite admitir que até lá fatos novos podem acontecer.

Entre as novidades que vão chegando para dar forma ao ano eleitoral, figura o estabelecimento de controle de gastos praticados por entidades ditas de cunho social, mas ligadas a interesses de candidatos. A liberalidade, nesse particular, é capaz de turvar quaisquer intenções menos ortodoxas, como carrear dinheiro das instituições para socorrer as campanhas.

Escapa também deste moribundo 2021 a capacidade de se antever o fim da confusa maratona dos 13 que correm para se viabilizar a terceira via presidencial, e mergulhar no espaço que fica do vácuo da radicalização entre duas candidaturas já conhecidas.

Afora o imponderável. Fatos que ninguém espera podem acontecem à última hora, para alterar os cenários que os políticos constroem. Se tudo tem sua hora, a eleição nunca foi exceção. O homem põe e Deus dispõe, como se deu com a tragédia de Tancredo. E como costumavam dizer velhos e cuidadosos coronéis do interior, resistentes a arriscadas decisões fora do tempo. Um deles, o folclórico Naftáli, exemplar de misto baiano-libanês, lembrava que o padre dava o voto e o juiz proclamava o eleito. Mas era bom esperar, na última hora, o soldado para garantir a posse. Coisa que não se conseguia com antecedência.

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais