Cuidadosa solidariedade

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A decisão do governo de conceder visto humanitário a oitenta cidadãos afegãos, e a certeza de que, em breve, benefício semelhante se estenderá a haitianos, veio a calhar, como oportunidade que se abre ao Congresso para estudar normas que autorizem disciplinar concessões dessa natureza. O país já é tido entre os que reúnem condições necessárias para tanto, a começar pela extensão territorial, e a recente experiência no acolhimento de milhares de venezuelanos, fugitivos do regime de Maduro, contribuiu para confirmar o Brasil nos endereços mais apropriados para o desembarque das vítimas de conflitos e convulsões. Organizações internacionais têm levado isso em conta, e pretendem fazer cobranças, na medida das necessidades.

A questão é suficientemente séria para não ficar reduzida a uma portaria interministerial, como se procedeu no caso recente, porque sinais que vêm de diversas partes do mundo recomendam que os povos receptores precisam, ao lado dos préstimos de solidariedade, preservar suas próprias identidades culturais; e exigir que elas sejam respeitadas pelos que chegam. França, Itália, Alemanha e Inglaterra descuidaram disso, e estão acumulando problemas. Mais recentemente, o Canadá passou a vivenciar situações delicadas, porque muçulmanos fugitivos não se satisfazem com o direito de livre exercício de sua educação religiosa, mas querem avançar sobre os nacionais, que pensam diferentemente. Aliás, é de longe conhecida a falta de reciprocidade, quando se trata de liberdade de culto. Mesquitas podem ser abertas em qualquer capital europeia, mas na Arábia não se autoriza um templo cristão.

A beligerância e a intolerância observadas no Oriente indicam que as fugas tendem a se tornar mais frequentes, como atestam as organizações de socorro imediato. O Papa Francisco reclama espaço para a solidariedade universal, como forma de fazer frente a esse grave problema da atualidade, definido por ele como “globalização da indiferença”.

Não somos, nem podemos ser, corpo estranho no universo das relações humanas; muito menos dispensados de contribuir com iniciativas acolhedoras. Mas, ainda sob a ótica de desconcertantes descuidos vividos na Europa, é preciso definir melhor o que a decisão dos ministérios classifica de visto temporário para estrangeiros desterrados; porque, estando aqui, trabalhando, com filhos nascidos brasileiros e famílias constituídas, a temporalidade concedida facilmente evolui para situações de irrevogabilidade. Uma razão a mais para serem criados instrumentos de obediência aos nossos valores.

Outra inciativa facilmente ajustada aos esforços do governo seria tentar, tanto quanto possível, sensibilizar os países árabes ricos, donos do petróleo e do gás, para receber e proteger seus irmãos de raça, de fé, de língua, de costumes. Por que nenhum árabe fugitivo vai para Dubai, Omã ou Riad?, mas prefere o solo europeu. Com muito mais razões, as nações orientais podem exercer o papel humanitário que neste momento se cobra do mundo inteiro, e começa ser cobrado também do Brasil.

Longe do Nobel

Os suecos concluíram, ontem, a divulgação dos agraciados com o Prêmio Nobel, tradicionalmente conferido a personalidades ou instituições que mais contribuíram para o desenvolvimento da humanidade, identificadas em seis diferentes categorias. São poucas as novidades quanto aos países de onde procedem esses valores, porque é exatamente neles que se investe, com vigor, nas pesquisas e na inteligência. Não constitui, portanto, coincidência, mas explica o fato de o mapa do Nobel ser quase sempre o mesmo.

Se o Brasil nunca entrou na avaliação final dos candidatos, é oportuno lembrar que nossos governos chegam e passam, sem cuidar, corajosa e heroicamente, das prioridades capazes de estimular gerações que possam aspirar ao pódio das grandes conquistas; pelo contrário, são hábeis e ágeis no contingenciamento de dotações destinadas às ciências. Como se viu, de novo, na semana passada.

Nada mais evidente para revelar que continuamos pobres em investimentos no saber, sem relegar outra realidade: os países dos contemplados são, invariavelmente, os que preparam seus cientistas desde os primeiros tempos da educação. Sem mistérios e sem mágicas.

Para consolo, pode-se dizer que, graças a alguns talentos isolados, e só por esforço deles, em três vezes o Brasil andou perto de conquistar o ambicioso prêmio. Interessante que sempre fracassou por obra de tramas ou invejas. Mais recentemente, a vítima foi César Lattes, descobridor da partícula subatômica méson, mas o laurel acabou desviado para o americano Cecil Powell. Em 1913 e 1921 o cientista Carlos Chagas esteve próximo, e teria chegado, não fosse a campanha de ciumadas nos cochichos da Academia Nacional de Medicina. Depois dele, em 1934, a inveja e hostilidades da chancelaria argentina afastaram Afrânio Melo Franco do Nobel, embora indicado por 15 países. Afrânio foi um gênio pacificador das relações entre as repúblicas da América.


Audácia em excesso
É natural que no dia da padroeira do Brasil os fiéis católicos se sintam impelidos a rogar redobradas graças de Nossa Senhora Aparecida, diante de tantos dissabores que brotam dos tumores da política. Mas também teriam direito de desanimar, por maior que seja sua fé, pois remover a onda da corrupção já parece ser tarefa pesada até mesmo para as santidades.

A Câmara acaba de conferir, sem nenhum remorso, o diploma de mérito à impunidade, que, para os deputados, é o pecado que sobe ao patamar de instituição nacional. Para tanto, nada mais evidente que a decisão clamorosa de dar aos corruptos, em cargo ou função pública, a garantia de apenas serem condenados se tiverem a intenção de praticar o ilícito. Ora, qualquer assaltante, interpelado pelo delegado, nega que tenha intenção maldosa. Sob a ótica do corrupto, o interesse pessoal está acima de leis e protocolos que ele não criou; e, portanto, julga-se isento. Quem rouba nos órgãos públicos obedece a seu próprio juízo de valores, nunca diz que teve intenção de praticar o ilícito. Só os deputados não veem isso.

O Congresso, em sua maioria, decide, então, que o Brasil é um monte de trouxas. Só não se sabe quem, entre os parlamentares, é pior - os que agem ou os que se omitem diante de monstruosidades, como a que acaba de ser votada. E agora sob a expectativa de ampliar a irresponsabilidade, com a ameaça de se conferir à Câmara o direito de impor interesses políticos na indicação de membros do Ministério Público. Só o que faltava nesse rosário, onde as contas de dividem entre maus e omissos.

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