Combustível vai ao palanque

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Foto: Agência Brasil
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Pelo andar das coisas e dos fatos, é certo que a campanha eleitoral de 2022 não terá razão para queixar-se da falta de assuntos, os mais variados, de diferentes temperaturas para esquentar os debates. Mesmo com vasta antecedência, é possível imaginar que entre aqueles estará o caso da crise provocada pelo descontrole de preços dos combustíveis, com tudo para gerar grandes embates, diferentemente das pelejas políticas anteriores, quando preocupações com diesel e gasolina passavam palidamente pelos palanques, muitas vezes deles nem tomando conhecimento. Em tempos idos, os candidatos animavam-se com outros temas de interesse do eleitorado. Mas é quase certo que não será assim desta vez, porque o país vem padecendo nas bombas de abastecimento, onde as mangueiras esfolam, sem piedade, a economia dos consumidores. E arrastam consigo uma onda de carestias. Ou, por milagre, quando chegarem as urnas, tão grave problema já teria solucionado? É duvidoso.

A expectativa que se arma em torno de discussões acaloradas, sob o clima da disputa eleitoral, é que a crise do combustível consegue respingar por todos os lados, onde quer que estejam os candidatos. Atinge todos os políticos, a começar pelo presidente da República, que se diz inocente. Depois de subir a rampa, ela invade os gabinetes do Congresso e, por fim, vai cair, pesadamente, no colo dos governadores. Todos antecipando desculpas para escapar do julgamento.

Ao Congresso, de fato e por justiça, caberá fatia significativa do bolo indesejável da (ir) responsabilidade, porque, sonolento, vem se revelando indisposto para cuidar de uma reforma tributária, que, se bem conduzida, nesta altura dos acontecimentos estaria cumprindo seu papel, minimizando os problemas decorrentes da incidência de imposto sobre gasolina e diesel, não permitindo que os estados apliquem o ICMS da forma como lhes aprouver. Qualquer governador sabe que se trata de conduta cruel, mas opta pela sangria, pois é por aí que aliviam seus cofres. É um imposto de resultados generosos, sem que o estado tenha de despender grandes esforços. Com o detalhe de, em grande parte, a opinião pública ignora que é nos estados que mais se apertam os calos.

Vale conferir os depoimentos de autoridades na matéria. Quase todas, consultadas, atribuem à morosidade da reforma imprescindível o pecado do agravamento do problema. Tudo começa por aí, ao sabor de conveniências político-partidárias. Alguns dos analistas, indo mais além, pedem maior empenho do governo e da Petrobras para romper, com devido respeito à opinião pública, a ciranda de culpas pela escala avassaladora dos aumentos. Quem seriam os verdadeiros vilões nessa história? O mundo árabe, cheio de barris, ou o próprio governo, que não sabe como conter a estatal? Ou então crucificam-se as constantes subidas do dólar, que impõe valores oscilantes? Se fosse assim, e só por isso, quando a moeda americana cai o combustível devia acompanhá-lo. E não é o que se vê.

Os governadores, todos candidatos a novo mandato, serão chamados ao confessionário para expiar o pecado, caso eleitores inconformados concluírem que são mesmo os principais responsáveis. Ombreados com eles, sem que escapem, por razões já citadas, os deputados e senadores. Submetidos à cobrança, terão de dizer, durante a campanha, por que a situação chegou ao ponto em que se encontra.

Estaria a salvo o presidente Bolsonaro, que diz não lhe caber culpa alguma? Como boa parte do eleitorado não acreditará em grandes inocências, preferindo embrulhar todos os suspeitos no mesmo pacote, o voto estará credenciado, na campanha que vai começando, a transformar as urnas em tribunal sedento, ante um banco de muitos réus.

Coligações maquiadas

A criação de federação partidária, que resistiu ao veto do presidente da República, e pode viger já em 2022, revela-se, com todas as cores, como algo semelhante à maquiagem em que se escondiam as velhas coligações, há pouco derrubadas no Senado Federal. Num pungente esforço, o deputado Carlos Valadares (PSB-SE) tenta mostrar diferenças entre o que faz diferença entre os dois receituários, mas não consegue ferir o essencial; isto é, os partidos afastados de sua responsabilidade primeira, que é oferecer à sociedade programas próprios e objetivos claros. Mas, agora, federados, podem ser jogados num liquidificador único, em estranha mistura de responsabilidades programáticas e compromissos com as bases partidárias. De fato, um liquidificador, plugado em tomadas que se prestam a alimentar diferentes interesses políticos. O que nos promete uma salada do nada.

Acresce que a esse ardil ficou estabelecido prazo de quatro anos de duração. Quer dizer, tempo suficiente para que os partidos, grandes e pequenos, abraçados, participem de campanha eleitoral, a um só tempo, e logo depois ficam autorizados a retomar suas identidades originais, já por si só periclitantes. Alcançado o propósito, o aleijão federado se dissolve e os ingredientes dão por concluída sua aventura. Em matéria de casuísmo é difícil encontrar algo semelhante.

Não menos pernicioso no bojo da nova lei é prestar abrigo às legendas chamadas ”nanicas”, que ganham salvo-conduto para passar por cima da cláusula de barreira, instrumento que assegura o mínimo que se deve exigir da organização partidária, evitando costumeiras incursões dos arrendatários de siglas em ano de votação. Outro ponto na escala de preocupações com a inovação desloca-se para o interior do país, onde nem sempre é fácil unir correntes diversas, mesmo quando somadas em âmbito nacional. Nos rincões, essa maquiagem perfumada tem tudo para esbarrar em dificuldades e artificialidades, reacendendo animosidades e conflitos. As bases autênticas, largadas nos municípios, não foram ouvidas, o que é prenúncio de muitos problemas para o processo eleitoral.

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