O Brasil que não conhece o Brasil

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Em 1978, em pleno declínio do “milagre brasileiro”, atingido abaixo da linha d’água pela crise do petróleo de 1973, que mostrou as vulnerabilidades da economia que agravaram os desequilíbrios sociais, sem que as práticas ditatoriais do regime militar baixassem a guarda (a Anistia estava em discussão e foi aprovada em 1979), os compositores Aldir Blanc e Maurício Tapajós criaram uma música genial chamada “Querelas do Brasil”. Quase uma paródia da famosa “Aquarela do Brasil”, um samba exaltação composto por Ary Barroso, em 1939, na recém-implantada ditadura do Estado Novo de Getulio Vargas, dizia em seus versos iniciais, de crítica a um modelo de desenvolvimento que queria copiar o Primeiro Mundo com os pés descalços no chão de barro: “O Brazil não conhece o Brasil; O Brasil nunca foi ao Brazil”, com estrofe que se repetia, ligeiramente modificada adiante: “O Brazil não merece o Brasil; O Brazil tá matando o Brasil”.

Trinta e três anos depois recorri à leitura da letra da música quando ouvi a última manifestação estapafúrdia do presidente da República, Jair Bolsonaro, em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, na manhã de 6ª feira 1º de outubro. Na tentativa de não reacender polêmicas sobre a Covid-19, na reta final da CPI e na semana em que a parte mais consciente do país ficou estarrecida com as dramáticas fotos estampadas pelo jornal carioca “Extra”, com pessoas pobres catando a xepa de ossos num caminhão avariado em um subúrbio do Rio de Janeiro, para poderem fazer sopa com proteínas, o presidente disparou o seguinte despautério quando lhe falaram do avanço da fome (e da inflação, que tira os alimentos do alcance dos mais pobres): “Quando invadirem tua casa, tu dá tiro de feijão nele”, disse Jair Bolsonaro, que já defendeu o fuzil em lugar do feijão. E emendou: “Vocês sabiam que Santa Catarina é o estado que tem o menor percentual de mortes por milhão de habitantes? É o estado mais armado. Quanto mais armas, menos violência. Ele iniciara a conversa com os apoiadores dizendo: “O Lula acabou de dizer aí, chegou um vídeo pra (sic) mim, que ele vai desarmar o povo”. E emendou coisas sem pé nem cabeça.

Quem conhece um mínimo sobre o Estado de Santa Catarina, que tem 7,3 milhões de habitantes, há de identificar uma miríade de informações que justificam porque o estado “barriga verde” tem baixa taxa de mortalidade por milhão de habitantes. Nenhuma conduz à relação de que o fato de ser o estado mais armado (armas por milhões de habitantes) seja a causa da baixa criminalidade. As causas primárias são históricas. Estado mais meridional do Brasil, conforme a divisão territorial das Américas entre as coroas da Espanha e de Portugal, no Tratado de Tordesilhas (7 de julho de 1494), que se estendia até Laguna, a colonização da região foi a mais tardia do Brasil-Colônia. Só quando as invasões inglesas ameaçaram para valer o Sul do Brasil, na 2ª metade do século 18, a Coroa portuguesa enviou, em 1739, famílias de ilhéus dos Arquipélagos dos Açores, acostumados a viverem isolados, para habitar a ilha de Santa Catarina e o litoral do continente. Até então, havia registro de portugueses degredados que tentaram se instalar na região litorânea (pelo Tratado de Tordesilhas, o território de Santa Catarina seria nem 5% do que é hoje – a própria conquista do Oeste, se dá na 2ª metade do século 19, quando fazia parte da Província de São Paulo, assim como o Oeste do Paraná).

Com a colonização tardia, que começa a avançar além da “fronteira” traçada por Tordesilhas, os vales do litoral, com incentivo do Império brasileiro (D. Pedro II) passam a receber famílias de migrantes vindas da Alemanha, Itália e Espanha (no século 20 as migrações se ampliam e se diversificam). Sem dependência de mão-de-obra escrava africana, com a entrega de terras às famílias de colonos europeus, com habilidades na agricultura, na pesca, na indústria, na serraria/carpintaria e na serralheria, Santa Catarina se tornou o estado brasileiro com perfil mais parecido aos países europeus em termos de adensamento populacional, equilíbrio de renda entre as classes sociais e autossuficiência das cidades (só nos anos 70 as cidades do litoral foram ligadas por asfalto ao Rio Grande do Sul e a Curitiba, São Paulo e Rio).

Entre todos os estados brasileiros é o único que tem a capital (que politicamente inclui o litoral continental pela velha ponte Hercílio Luz e as mais modernas Colombo Salles e Pedro Ivo de Campos, que homenageiam ex-governadores) com população inferior a outras cidades: Joinville, no litoral Norte do estado tem mais de 520 mil habitantes, contra 420 mil de Florianópolis. O litoral Norte, somando as cidades de Jaraguá do Sul, Penha, Balneário Camboriú e São Francisco do Sul a Joinville, tem cerca de 1 milhão de habitantes, com predomínio da colonização alemã, seguida pela italiana. No meio do litoral despontam Blumenau (com pouco mais de 300 mil habitantes de origem predominantemente alemã), Itajaí, com 185 mil habitantes, em maioria descendentes de italianos. No entorno de Florianópolis, onde predomina o “falar cantadinho” dos descendentes de açorianos “os manezinhos da ilha”, como se intitulava o grande tricampeão de tênis de Roland Garros, Gustavo Kuerten, se reúnem outro milhão, incluindo os municípios de Palhoça, São José, e os do Vale do Rio Tijucas, entre os quais está a pequena Brusque, de colonização germânica e italiana, sede da Havan, do empresário bolsonarista, Luciano Hang. Ao sul, surgem as cidades de Laguna, Tubarão e Criciúma. No planalto, no meio do estado se destaca Lajes, com mais de 150 mil habitantes. E no Oeste, grande produtor de suínos e de frangos, pontifica Chapecó, com mais de 180 mil habitantes.

A baixa densidade populacional torna os problemas urbanísticos menos problemáticos em Santa Catarina, ainda que seus vales do litoral sejam assolados periodicamente por enchentes com muitas vítimas e danos materiais. Outra vantagem do desenvolvimento e das oportunidades de trabalho espalhadas por diversas regiões é que o estado tem dos mais baixos índices de desemprego do país. Com uma economia equilibrada, agricultura e pesca de expressão, forte inserção turística (Florianópolis tem um dos cinco maiores tráfegos do país em visitantes estrangeiros que passam por seu aeroporto, sem contar os milhares de argentinos, uruguaios e paraguaios que chegam de carros para as belas praias do vasto litoral), uma indústria forte e sofisticada (a Weg é uma das grandes exportadoras de motores elétricos do mundo e está avançando na energia solar), o nível de vida é elevado no estado.

Mas tudo isso vem de uma base educacional elevada, razão dos ótimos indicadores sociais locais. Santa Catarina tem o 3º melhor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil (atrás apenas do DF e de São Paulo). Sua classificação no IDEB (que avalia a qualidade do ensino básico) é igualmente a 3ª melhor do Brasil. Por tudo isso, como o estado tem baixo desnível social e baixa densidade populacional (um habitante por 65 km2), há menos conflitos sociais. A expectativa de vida é a maior do Brasil. Este é o segredo do baixo registro de mortes por milhão de habitantes. Não a preferência do fuzil ao feijão. Os catarinenses, assim como os pioneiros gaúchos que formaram o Rio Grande do Sul e resolveram ficar ao lado do Brasil na província cisplatina, historicamente recorreram às armas para enfrentar a cobiça dos inimigos externos. A tradição europeia dos clubes de caça e tiro (que na 2ª guerra disfarçavam as simpatias pelo nazismo e o fascismo) se encarregou de estimular o uso de armas de caça, nas temporadas de abate dos marrecos silvestres e outras aves que fazem migração periódica por terras e lagoas catarinenses. Nunca para enfrentar irmãos brasileiros. Assim, a comparação de Bolsonaro entre o fuzil e o feijão, citando Santa Catarina como exemplo, é ainda mais disparatada. Catarinense não tem por hábito incluir um dos vários tipos de feijão (preto, carioquinha, vermelho, rajado, manteiga, fradinho) no cardápio. Se ainda fosse o chucrute, ou a lasanha...

Mas o festival de desinformação sobre o Brasil mais esdrúxulo que vi esta semana foi apresentado pelo Banco Central, na divulgação do Relatório Trimestral de Inflação pela Diretoria de Estudos Econômicos, no dia 30, 5ª feira. Os relatórios são apresentados a cada fim de trimestre (março, junho, setembro e dezembro), com projeções para o trimestre seguinte e os próximos dois três anos. A metodologia faz parte do Sistema de Metas da Inflação, implantado no país em 1999, quando houve liberação do câmbio, para balizar o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) a definir a política monetária e as taxas de juros básicos (taxa Selic) para controlar a inflação, sem asfixiar a economia e afetar o emprego e a renda da população. Se tudo for feito dentro dos conformes, a economia cresce com baixa inflação e a população tem sensação de bem-estar, com a melhora do poder de compra. Nada disso está acontecendo há mais de um ano e meio. É verdade que o Brasil e o mundo foram atropelados pela maior crise sanitária da humanidade.

Entretanto, o mau manejo do câmbio pelo Banco Central (que é o guardião da moeda) e tem impacto sobre os preços dos alimentos, dos combustíveis (derivados de petróleo) e da energia elétrica, parte cotada em dólar, pelo fornecimento de Itaipu (binacional de Brasil e Paraguai) fez a inflação passar dos 10%, os alimentos superarem os 14% em 12 meses, a energia elétrica passar dos 20%, ameaçando ser racionada em 2022 (o que derrubaria mais o PIB) e os combustíveis subirem mais de 40%. O Banco Central reconheceu ter errado feio de junho para setembro. Mas ainda assim se aventurou (para agradar ao presidente Bolsonaro) a prever crescimento de 4,7% no PIB este ano, e de 2,1% em 2022, com inflação de 8,5% em 2021 e de 3,7% em 2012, abaixo de todas as projeções do mercado. O Bradesco refez dia 1º suas projeções: PIB de 5,2% em 2021, com inflação de 9%, e PIB de 1,6% em 2022, com IPCA de 3,85 (até setembro previa PIB de 1,8% e IPCA de 3,3%). Entre as várias explicações do RTI para as previsões terem sido superadas pelos fatos no trimestre julho a setembro, o BC admite que o alto grau de inércia da inflação (devido à indexação da economia – que corrige o futuro pela inflação passada e vai contratar reajustes pesados nas tarifas, mensalidades escolares e planos de saúde para 2022) influiu no estouro das previsões.

Com quase 50 anos acompanhando no jornalismo a economia brasileira, com indexação desde 1964/65, devo dizer que era previsível o “imprevisto”. Só quem pensa que a economia se comporta conforme os dados das equações traçadas nas pranchetas e nos modelos econométricos pode agir como o Banco Central. Uma das observações do RTI para a alta forte (bem acima do previsto) foi de que os serviços de reparos realizados por profissionais autônomos (pedreiros, bombeiros, eletricistas, marceneiros, técnicos em TI, etc) em residências (que, durante a pandemia, viraram local de moradia e de trabalho) subiram muito. Era natural que estes profissionais buscariam balizar os preços de seus serviços pelas altas dos combustíveis veiculares usados nos deslocamentos (GNV, gasolina, álcool, diesel), bem como na variação dos combustíveis domésticos (GLP e gás natural) e da energia elétrica.

Nos tempos da hiperinflação e do “overnight”, afastados pelo Plano Real em 1994, donos de mercearias, padarias e outros ramos comerciais usavam as taxas diárias (mensais) de 84/85% do “over” (que incluíam os fins de semana, não remunerados) para remarcar preços. Quando fui assessor de comunicação da Andima (1987-92), instituí tabela dos rendimentos efetivos diários e mensais - 21 a 23 dias úteis - que eram bem mais brandos. Quando a inflação entra na casa dos dois dígitos (e o BC deixou o real se desvalorizar ante do dólar desde o ano passado), entra em campo o “espírito animal” do Homem. Não no sentido empreendedor, louvado por John Maynard Keynes, mas no sentido predador, Homem lobo do semelhante. Só o BC, como Carolina, não viu...

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