O peso dos nulos e brancos

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Um temperamento revelador de certa indiferença com o destino coletivo, aliado à notória insegurança de considerável parcela da população em relação aos políticos, promete confirmar, nas eleições de 2022, a tendência histórica dos votos nulos e brancos. É percentual que tem oscilado entre 9% e 11%, o que agora representaria a omissão de um colégio eleitoral de 15 milhões; mais ou menos isso.

Se esse universo se consolida, define-se a parte do eleitorado que varia suas convicções entre a inexistência de candidatos confiáveis, o que seria julgamento injusto, pelo que importa em generalização; a desconfiança no modelo eleitoral; ou, ainda, o gesto dos que não aceitam, como algo intolerável, a imposição do voto obrigatório. Por fim, essa massa do eleitorado que se exclui seria a dos que acham melhor optar pela equidistância, quaisquer que sejam os lados para onde caminharem a política e os negócios do país. Pouco lhes importa.

Conclui-se, então, que seria malhar em ferro frio a tentativa de desafogar os nulos, recolhendo-os, dando-lhes espaço e vez no cenário eleitoral. Faz-se justa ressalva em relação aos brancos, que são votos ativos, respeitáveis, pois têm direito de não serem condenados a dar preferência ao candidato que apenas parece ser o menos ruim. Mas, observa-se, o ato de anular o voto sempre teve seus defensores, entre eles personalidades de prestígio, como José Saramago no ”Ensaio sobre a Lucidez”. Para ele, a lógica do voto válido é a lógica da esmola, que não resolve a miséria. Jean-Paul Sartre considerava que o nulo tem o mérito de revelar quem não é otário.

Sem aprofundar avaliações em relação aos indiferentes, pesquisas mais recentes sugerem que são 1/ 3 do colégio eleitoral os que se confessam indecisos. Mas convém incluir entre estes os que já sabem em quem votariam, mas preferem silenciar. É preciso considerar que, estando o pleito distante, esse dado é expressivo e recomenda prudência, porque as indecisões de hoje dispõem de potencial para influir no final da jornada.

Como também, há que se admitir que parte dos que não confessam vem de silenciosa expectativa em relação a uma terceira via na sucessão presidencial.

Contra o cronômetro

O domingo, dia 3, chega para lembrar às lideranças que é hora de tratar da sucessão presidencial com visão mais objetiva. Com exato um ano para se ferir a disputa, as peças do jogo começam a ficar expostas, porque, se ainda não conseguem sensibilizar o eleitorado, preocupado com urgências e emergências do cotidiano, o mesmo não se dá em relação aos principais atores. Doze meses, correndo ao calor de expectativas e interesses, são pouco tempo para que se assentem as coisas mais importantes da campanha. O relógio dos eleitores não tem a rapidez que sobra nos ponteiros dos políticos, e, entre estes, principalmente, os prováveis ou possíveis candidatos.

No tablado onde se esperam decisões, a primeira delas, da qual dependem os primeiros lances, é a nova residência partidária do presidente Bolsonaro. Sem isso, tanto as correntes de apoio como as forças de oposição ficam com ações limitadas. Para não mais retardar, a filiação tem de estar irretocavelmente pronta em março.

Contudo, se para ele o tempo urge, o problema não é menos desfavorável para quem com ele pretende disputar. O Partido dos Trabalhadores, que tem em Lula o candidato natural, desde já se sobrecarrega ao peso de uma importante articulação: a construção de alianças com outras legendas de esquerda, obra não tão fácil como possa parecer. Há certas áreas, de posicionamento ideológico, refratárias ao engajamento automático, queixando-se do centralismo petista no lançamento formal da candidatura, antes das consultas.

Igualmente complexo é o esforço para se oferecer opções aos eleitores. Já se fala na tentativa de buscar a quarta via, porque a terceira parece endereçada a Ciro Gomes, candidato do PDT, que também tem de romper as dificuldades do partido para ganhar o comando de projeto aliancista.

Tudo para confirmar que as esquerdas têm tradicional indisposição para unir forças, principalmente quando o êxito depende da união.

Corre solto que a imposição de candidatura alternativa passou a ser tema de consultas entre personalidades mais identificadas com o centro, originárias do MDB, PSDB, DEM e Cidadania, sob a curadoria de emissários do governador de São Paulo. O que elas pensam sobre abrir uma picada entre caminhos traçados por duas candidaturas que já antecipam a radicalização? E com que argumentos e alquimia seria possível arrancar daqueles partidos uma conduta unificada e unificadora?

Para tudo e para todos a questão é que estamos diante de um calendário que começa a se estreitar a partir de domingo; e os desafios, ao contrário, largos e numerosos.

Coligações dispensadas

O Senado Federal, como se desejava, interceptou a oportunista tentativa da Câmara de recriar as coligações proporcionais, projeto que, se vitorioso, permitiria a muitos deputados facilitar sua reeleição em 2022. Mas já estava mais que demonstrado serem as extintas nada mais que a trama de exumação de velho e poderoso instrumento de desvio da soberania da vontade do eleitorado majoritário, que muitas vezes, no passado, assistiu ao desvio de parte de seus votos reduzida ao papel de “sobras”, a socorrer candidatos menos aceitos, mas favorecidos pelos esquemas dos coligacionistas.

Sob as bênçãos do Tribunal Eleitoral, a nova montagem tomava por base que muitos pequenos partidos só conseguem sobreviver se apoiados nos maiores. Nesse sentido, os defensores da ressurreição do antigo modelo persistiam em dois argumentos, que não se sustentaram: as coligações assegurariam melhor diversidade de opiniões da sociedade brasileira, e, ao mesmo tempo, garantiriam certa equidade entre a representação parlamentar e os votos confiados às urnas.

Os senadores passaram por cima de tais argumentações, frente a um raciocínio simples. A diversidade e a equidade, se sinceramente desejadas, são tarefas que cabem aos programas dos partidos, sejam grandes ou pequenos. São eles que podem sensibilizar os eleitores. Sem o expediente dos atrelamentos, que acabam comprometendo o ideal da representatividade. Era um tipo de carona de votos e de candidatos que não cabe aceitar.

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