Bolsonaro é dez; 10% de inflação

Não há o que comemorar no desfile de 1.000 dias à frente da Nação, quando o país se aproxima de fechar setembro com 600 mil mortos pela Covid-19 e o horizonte está com nuvens pesadas para 2022

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O presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, completa dia 28 de setembro 1.000 dias de governo. O presidente queria comemorar efusivamente a data. Mas talvez não seja possível, por razões sanitárias. A contaminação, pela Covid-19, de três membros da comitiva de 50 pessoas que acompanhou a visita de Bolsonaro aos Estados Unidos, para o discurso do presidente brasileiro na abertura da 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas, dia 21 de setembro, onde desfilou uma série de mentiras e meias verdades, levou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga (um dos contaminados), a ficar retido no hotel em Nova Iorque guardando 14 dias de quarentena. Os demais voltaram ao Brasil no mesmo avião presidencial. Entre os quais estava o filho 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que declarou estar com Covid na sexta-feira, 24 de setembro, após ter voltado a Brasília. Por pouco não ficaria retido também nos Estados Unidos. Isso só aumentaria o vexame do Brasil, cujo presidente passou atestado de pária ao circular, sem vacina, por Nova Iorque, tendo de comer pizza na calçada e churrasco ao ar livre, por não poder frequentar ambientes fechados, junto com os ministros do governo. Para o Brasil, quis passar mensagem de que é "gente como a gente".

Antes de se saber da contaminação do filho, a Anvisa, a Agência de Vigilância Sanitária, maior autoridade sanitária do país em relação à pandemia, havia recomendado, na quarta-feira, 22 de setembro, que todos os integrantes da viagem ficassem de resguardo, em isolamento por 14 dias, para evitar a propagação do contágio, e recomendou que todas as pessoas que tenham tido contato com os contaminados façam testes. Não se sabe a data certa do contágio do deputado e se outras pessoas da comitiva contraíram o vírus (um diplomata, que foi precursor da viagem presidencial na chegada a Nova Iorque, também testou positivo nos EUA).

Se a recomendação da Anvisa, mais ou menos equivalente à poderosa CDC dos Estados Unidos, for levada a sério, Bolsonaro teria de ficar recolhido por duas semanas. Foi esse o tempo que guardou quando, comprovadamente, teve Covid em 2020. O máximo que fazia era circular pelos jardins do Palácio da Alvorada exibindo uma embalagem de Cloroquina para as emas que ficam pelo gramado (e para que as câmeras de filmagem oficial propagassem o medicamento inócuo pelo país). Uma das emas, mais consciente, recusou a oferta. Ou seja, o recolhimento presidencial deveria se estender até a primeira semana de outubro. Mas o negacionismo do presidente é tal que, tão logo iniciou o isolamento na residência do Alvorada, a Presidência da República anunciou que o presidente tinha cancelado a agenda de viagens eleitorais no fim de semana, mas, por estar assintomático, só cumpriria o período mínimo de cinco dias de resguardo, se o exame de PCR der negativo. Tudo pela reeleição.

Na véspera do discurso na ONU, em conversa com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, já ensaiava o papelão que faria em escala mundial. Enquanto Johnson, que teve Covid-19 e tomou as duas doses da AztraZeneca, recomendava a Bolsonaro (não vacinado) que tomasse a vacina, destacando a excelência da pesquisa da Universidade de Oxford, em vez de ressaltar que a estatal Fiocruz estava fazendo a produção da vacina no Brasil, um Bolsonaro risonho fazia o sinal negativo, reprisando que não tinha se vacinado porque tivera a imunização do próprio vírus. Além de perder uma boa oportunidade de não dizer besteira e induzir mais brasileiros a se vacinar, pois os fatos posteriores mostraram, com o filho 03, que contrair o vírus também não garante imunidade, Bolsonaro fez o papel de “bobo da corte” perante o primeiro-ministro inglês. Os jornais britânicos não perdoaram.

Teimoso e retrógrado, na ONU, mesmo quando o avanço da vacinação no mundo e no Brasil vem acompanhado da redução de contágios e mortes (o repique desta semana ainda será associado à movimentação que promoveu pelo país afora no 7 de Setembro, com participação direta dele em Brasília e São Paulo), ignorando cepas agressivas, como a variante Delta, e apesar da OMS declarar a ineficácia da cloroquina e outros medicamentos, o presidente do Brasil voltou a fazer, para uma plateia mundial, a defesa do “tratamento precoce”. As emas do Alvorada tiveram vergonha.

Seu discurso em defesa da cloroquina&cia, quando o mundo avança no controle do vírus com a vacina, parecia uma volta aos tempos da Inquisição, que condenou à fogueira o cientista Galileu Galilei e o visionário Giordano Bruno, porque contrariavam dogmas da Igreja Católica. Um dos dogmas era ser “a Terra plana”, mesmo tendo se passado dezenas de anos da descoberta da América por Cristóvão Colombo, em 1492, e do Brasil, por Pedro Álvares Cabral, em 1500, que provaram ser a Terra redonda (do contrário, as caravelas teriam caído em um abismo no meio do mar e não desaparecido no horizonte, pois a acuidade visual não faz curva). Mas ainda hoje, mais de 50 anos depois do Homem ter chegado à Lua (redonda) e seis décadas após Yuri Gagárin exclamar que a “Terra era azul e redonda” vista do espaço, ainda há “terraplanistas” seguidores fiéis de Olavo de Carvalho...

Se a avaliação dos 1.000 dias do governo fosse feita como na apuração dos quesitos de Carnaval lidos, na Praça da Apoteose, por Jorge Perlingeiro, o locutor da Liesa, estava garantida, desde já “Dez, nota Dez” para um quesito: o de inflação que atingiu 10,05% no IPCA-15 de setembro, divulgado sexta-feira, 24, pelo IBGE. O número fechado de setembro será conhecido dia 8 (depois dos 1.000 dias), mas o Banco Itaú está projetando inflação de 1,20% e a LCA Consultores, 1,23%. Na previsão do Itaú a inflação acumulada em 12 meses vai chegar a 10,29%, e a 10,3% se a LCA estiver certa. Outra nota Dez, mas negativa, ou seja, numa escala de zero a 100, seria em relação à gestão de energia (a crise hídrica é a combinação da falta de chuva com o excesso de consumo de energia por alguns setores que trataram de fabricar para exportar, aproveitando-se do dólar alto, mas como “Carolina”, só a equipe econômica “não viu”). O resultado da demora de impor restrições ou acionar as termoelétricas (o governo sabia que ia causar alta dos custos da energia) é que o nível de alguns reservatórios do Sudeste (região de maior consumo do país) está na faixa de inacreditáveis 10%. Se não pararem, há risco de sérios danos às turbinas. Parando as turbinas aumentam os riscos de racionamento.

Na sexta-feira, o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú divulgou amplo estudo que já considera a hipótese de 10% de racionamento em 2022. Se isso ocorrer, o PIB que já vinha despencando (até junho o maior banco privado do Brasil acreditava possível crescer 1,8% em 2022, nível reduzido a 0,5% em 10 de setembro), poderia ter retração de 1,5% no ano eleitoral de 2022. Isso só agravaria o desemprego e a insatisfação geral com o governo Bolsonaro. Pior impossível. Mas já diz o ditado, espécie de Lei de Murphy cabocla, que “nada que está ruim não pode deixar de piorar”. A inflação que vem sendo ignorada espertamente pelo governo, que finge tê-la sob controle. Imagina se Paulo Guedes estivesse fora do governo? O que não estaria falando da escalada dos preços, puxada pela alta do dólar (desvalorização do real), e do descontrole fiscal? Em todos os planos econômicos aplicados no Brasil dos anos 80 para cá (a começar pela gestão de Delfim Neto no Ministério do Planejamento, no governo do general Figueiredo) seu mantra era um só: “um choque fiscal resolveria os desequilíbrios estruturais da economia”, bradava contra as tentativas heterodoxas de domar a inflação. No Plano Real, o primeiro a ter êxito, a partir de julho de 1994, continuou a bater na mesma tecla. Na campanha de 2018 falava em economizar “um trilhão de reais em dez anos com a Reforma da Previdência; arrecadar outro trilhão com a privatização das estatais e mais um trilhão na venda de imóveis da União”. Deu chabu geral.

O problema da inflação quando chega aos dois dígitos é que ela acelera (pela indexação ainda reinante no Brasil) a espiral inflacionária. Há preços que são reajustados uma vez por ano pelo IPCA (a inflação oficial, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos – R$ 44 mil), pelo INPC (renda até cinco salários mínimos – R$ 5.500) ou pelos IGPs da Fundação Getúlio Vargas. Nas finanças do governo, que se beneficiaram este ano com o crescimento do PIB um pouquinho maior que o previsto (era de 3,5% e tende a 5%) e, sobretudo, pela alta de preços, em especial alimentos, combustíveis e energia, haverá o efeito reverso em 2022. O crescimento menor do PIB (tomara que acompanhado da queda da inflação dos preços livres) vai implicar crescimento também menor da arrecadação. Mas as despesas com salários do funcionalismo, pelo IPCA ou pelo INPC, que reajusta os aposentados do INSS e quem ganha até um salário mínimo, vão aumentar.

Do lado do bolso das famílias, do cidadão, é que vem o reflexo mais perverso. Para domar a inflação, o Banco Central vem aumentando a taxa básica de juros. Estava em 2% em março, já está em 6,25% ao ano e pode chegar a 8,25% ou 8,5% até dezembro, com salto para 9% ou mais no primeiro trimestre de 2022. Quando o BC aumenta os juros, os bancos sobem mais ainda as já bem mais elevada taxas dos financiamentos. O recente aumento do IOF nos empréstimos para pessoas físicas e jurídicas (que já encareceu o crédito) teve como objetivo arrecadar mais dinheiro para programas assistenciais como o Auxílio Emergencial, hoje em R$ 250 (já foi de R$ 600 em 2020), que Bolsonaro quer turbinar para R$ 300, fundindo ao Bolsa Família no Auxílio Brasil, na tentativa de recuperar o apoio popular que fugiu nas camadas de baixa renda. Tentar políticas eleitoreiras quando a inflação está subindo é mais difícil que “cercar frango em campo largo”, como dizia o saudoso Joelmir Betting. Pois a inflação está subindo e vai provocar maiores reajustes nas mensalidades escolares, nos pedágios, na telefonia, na internet, na energia, nos alugueis e contratos corrigidos a cada 12 meses pelo IPCA, INPC ou IGP-M. É também o caso dos problemáticos planos de saúde.

Em suma, não há o que comemorar no desfile de 1.000 dias à frente da Nação, quando o país se aproxima de fechar setembro com 600 mil mortos pela Covid-19 e o horizonte está com nuvens pesadas para 2022. Infelizmente, não são as de chuva, que poderiam evitar apagões ou racionamento de energia.

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