A terceira via

.

Uma expectativa subjacente ao debate em torno da conveniência de terceira opção na disputa presidencial de 2022 pode ser avaliada, com alguma atenção, sobre o papel que desempenharia, nesse processo, a chamada classe média. Mas é uma observação longe de conclusões científicas, porque os observadores ainda se deixam absorver totalmente por dúvidas e descontentamentos com a polarização que vai sendo protagonizada por Bolsonaro e Lula. Mas pode chegar a hora em que essa classe social de intermeio terá de ser avaliada e dimensionada ao se defrontar com as urnas. Poderia ter ela, realmente, uma importância decisiva?

Um terceiro nome, mesmo com desenvoltura popular suficiente para transitar entre os polarizados, e deles recolher despojos da luta política, confiaria apenas na classe média?, cansada de bravatas e experiências mal sucedidas. Vivo estivesse, o pensador Hélio Jaguaribe (1923-2018) desestimularia os que já vão devotando a ela esse papel eleitoral, porque, entendia, é equivocado avaliá-la como classe de decisões políticas estratégicas: ela não é, nunca foi, majoritária, como também não o é a classe operária. No Brasil, o que temos, é a não-classe, a subclasse.

Contudo, é de certa forma perceptível que uma faixa significativa da população se capacitaria a absorver candidatura presidencial que se posicionasse alternativamente no quadro atual; uma que seja capaz de abrir caminho entre os dois que já polarizam. Seria, então, aquele imenso contingente eleitoral que em nossos dias vive interessante, mas latente contradição, a que também se referia Jaguaribe: de um lado a crença na legitimidade democrática; em campo oposto a essa crença, a opção por um governo autoritário. No quadro hoje delineado – lulismo e bolsonarismo - pode prosperar a imagem de alguém que não seja excessivamente autoritário nem adepto de uma democracia morna, muito tolerante. Eis o perfil do terceiro homem. Melhor dizendo: um certo candidato que possa conjuminar, nas devidas medidas, um pouco da impetuosidade do autoritarismo e o respeito a franquias das quais o espírito de liberdade não tenha de abrir mão.

Quando se percebe que os cientistas políticos ainda não se devotaram a avaliar essa questão, mas apenas dando-lhe tratos tangenciais, a razão pode estar num raciocínio simples. É que a tarefa de identificar a alternativa eleitoral é, a um só tempo, primária e delicada. A facilidade está no fato de que as naturais tensões na radicalização contribuem para despertar o desejo de imensa faixa do eleitorado de escapar do clima de perigosas animosidades; mas também delicado o projeto da terceira via, enfrentando difícil transposição, pois o fenômeno da polarização é, por si só, grande fator de atração de forças apaixonadas, sejam elas a favor ou contra os dois candidatos já praticamente postos. Nessas condições, nas urnas também poderiam caber amor e ódio, trabalhando para consolidar sentimentos opostos.

Outra particularidade – e aqui a observação parece oportuna – é se as divergências entre Bolsonaro e Lula continuarem avançando para o campo movediço do fanatismo. Os fanáticos, sejam brasileiros ou em qualquer lugar onde vicejam, constituem uma raça do que há de mais contrário à democracia, como também têm sido demolidores do que a civilização construiu de melhor na cultura e no espírito.

O velho e o novo

Quando Jânio Quadros ser elegeu para substituir Juscelino, o menino Jair tinha cinco anos, e certamente não lhe passava pelos sonhos chegar ao mesmo posto. Se seis décadas separam duas biografias que haveriam de se inserir na história do Brasil, nem por isso a crônica política escapa da tentação de buscar alguma semelhança entre eles, a primeira das quais, que logo se manifesta, está no fato de ambos terem sido eleitos na crista de ondas impregnadas de mensagem moralizante. Jânio investiu pesado, tanto nos biquínis como nas brigas de galo, como na inflação criada pelo antecessor, enquanto Bolsonaro, com igual virilidade, conseguiu levantar milhões de eleitores contra a festança de rombos dos 16 anos do PT.

Ainda não são desiguais no culto à polêmica, muitas vezes cercada de imprevisibilidade. Bolsonaro acaba de confirmar isso. Passou longa temporada pregando a existência de provas de fraudes eleitorais, para, por fim, confessar que não as tem.

Os dois personagens, no passado e no presente, associam-se também na queixa de que a classe política pode dar mais do que efetivamente dá à nação e ao Executivo. Mas aqui resta uma pequena diferença quanto a condutas: se Jânio tratava essa classe na conta de um clube de ociosos, o atual, mais concessivo, deposita suas confianças em outro clube, o Centrão, conhecido e celebrado pelo apetite pantagruélico.

O ex e o atual presidente voltam a se identificar num temperamento não raro entre estadistas. Apreciam avanços por caminhos nem sempre calçados nos princípios democráticos. Jânio quis, e não conseguiu, poderes excepcionais para governar. Bolsonaro, se não explicita tanto, também os quer; ameaça eleições e levanta a nação contra a corte suprema da Justiça, aproveitando-se do robusto descrédito dos ministros togados.

No jogo por grandes poderes, em Jânio as coisas não deram certo, e saiu de campo. Vejamos o que o destino reserva a Bolsonaro, este, como aquele, dono de invulgar competência de produzir tensões, que abrigam ideais de ruptura da ordem vigente.