Convergências e divergências

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A inesperada obstrução intestinal, que levou Bolsonaro a hospitalizar-se, também obstruiu, pelo menos temporariamente, ao que parece, as articulações para um próximo encontro dele com representantes dos dois outros poderes, numa tentativa de quebrar o ritmo das tensões que têm se multiplicado, principalmente quando avançam no campo do Legislativo e do Executivo. Não há negar: aos setores de decisões que eles representam couberam, como ainda cabem, as responsabilidades pelo agravamento de uma crise política cada vez mais hostil e perturbadora.

Alvíssaras a qualquer tentativa de diálogo, quando se almeja o bem do país! Porque sem ele a paz é intangível; se está ausente, nada pode funcionar a contento.

O que talvez devesse ser objeto de maior atenção é que, ao contrário do que se tem afirmado, a adiada reunião não devia se pautar, inicialmente, pela tentativa de superar divergências. Porque estas já vão à mesa cercadas de posições assumidas. O que deve abrir a conversa não são divergências, mas convergências. Estas é que conduzem, num passo adiante, às questões em torno das quais se diverge. Quer dizer, buscar a paz pelo que ela já acumula de experiência. O conflituoso fique para uma rodada seguinte.

Assim, o melhor caminho para a pacificação é começar tratando das coisas das quais os líderes não podem divergir. Um exemplo, que logo ocorre, algo que vai cobrar esforço geral, necessariamente, da presidência da República, do Congresso e do Supremo Tribunal: a reorganização da vida social e produtiva dos brasileiros, na boa hora em que a pandemia nos deixar. Muitas coisas vão estar fora do lugar, confusas, sensivelmente afetadas por um vírus desorganizador, que impera há quase dois anos. Políticos, executivos e juristas terão muito o que estudar e decidir naquela bendita hora.

Privilegiar uma conversa tensa, que principiei pelo que já está acordado, pelo consensual, nada tem de inovação. Todos os grandes acertos políticos começam pelo alinhamento de pontos comuns; depois, então, tenta-se aplainadas as muitas contrariedades. É conhecida a história de êxitos do Abade de Pilignac, que Luís XIV enviava a Roma para abrandar relações com o Papa Alexandre VIII. Os dois só começavam a conversar sobre temas em torno dos quais não havia conflito. Por isso, a diplomacia do Abade sempre levou a melhor.

No atual caso brasileiro, cabe lembrar que nem tudo distancia os três atores privilegiados. Em breve, já retomando suas atividades, Bolsonaro poderá receber, com serenidade, os presidentes do Supremo e do Congresso, porque têm a aproximá-los um detalhe comum, ainda que indesejável: Executivo, Judiciário e Legislativo estão rebaixados e igualados no mesmo desprestígio junto à sociedade. Solidários, ombrearam-se num mesmo nível de antipatias. Humilhados pela sociedade, é o que os induz a conversar sem laivos de superioridade. Diz-se em Brasília, que, como no purgatório, não há, hoje, ambiente para conflitos, porque chegou a hora em que todos são obrigados a se desvencilhar dos pecados, para não serem condenados a um inferno comum.

Estando nivelados, nada, contudo, impede que se assegure, por se tratar de clara evidência, que a condução dos futuros entendimentos fica, preferencialmente, sobre os ombros do presidente Bolsonaro, mesmo cultivando o mau humor, herança do atentado que sofreu em setembro de 2018, com sequelas agravadas em sucessivas intervenções cirúrgicas, além das tensões naturais da política e sua escassa paciência para lidar com atritos. São poderosos ingredientes negativos, que se juntaram para tornar as relações em permanente sobressalto. Se não se corrigir, alterar um pouco o enfrentamento às controvérsias, Bolsonaro pode acabar agravando tudo, num colapso nervoso, levando a vida do país a padecer de obstruções generalizadas, mais graves que as intestinais que na semana passada o aborreceram.

A saúde de um presidente, se abalada, quase sempre resulta em reflexos na sociedade que governa. Kennedy, com sua fratura no disco da coluna, projetava alterações no humor dos americanos, da mesma forma como Eisenhower fazia seus súditos sentirem as sensações da cardiopatia que trouxera da Guerra Mundial. O médico Pierre Acosse, no seu “Os Doentes que nos Governam”, conta casos de estadistas com intestinos irritados que criaram sérios problemas; como em 1919, quando as sangrias e as obstruções intestinais de Wilson andaram prejudicando as negociações da paz.

Falta de compostura

É preciso admitir, mesmo em nome da ironia, que a Câmara dos Deputados é uma instituição corajosa; pelo menos na cota que constitui a maioria dos senhores e senhoras que a compõem. Pois não é que, em plena vigência da tragédia sanitária, e uma CPI tentando ferir a escuridão dos negócios corrompidos na compra de vacinas; mesmo num momento em que o país afunda em grave crise entre os poderes, com tentativas de subversão da ordem constitucional, pois é diante de tantos fatos aterradores que os deputados, como atletas em um campeonato de indecências, decidiram engordar o fundo partidário em que vão saciar a fome de suas campanhas eleitorais. O farto banquete, que era de R$ 2 bilhões, sobe agora para R$ 5,7 bilhões. Eis o capricho de uma violência contra a moral política: o dinheiro triplicado é tirado do cidadão, para que, em 2022, esse mesmo cidadão vote em quem lhe roubou. Ora, bolas!

Praticou-se o estupro sobre algo que a política brasileira devia preservar. E o país totalmente indefeso, até porque o fundo enriquecido é particularmente generoso com os dois partidos majoritários em plenário, o PSL e o PT. Vale registrar que o singular presidente do PSL, deputado Luciano Bivar, não viu crime nenhum no avanço, pois acha tratar-se de um aumento razoável. Mas ficou devendo explicar qual o conceito que faz de razoabilidades.

O novo fundo, abarrotado, é um desafio para o poder de sanção do presidente Bolsonaro, num momento em que ele não pode dispensar boas relações com o Congresso. Difícil acreditar que tenha coragem de vetar o assalto.