O refúgio dos canalhas

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O grande escritor e filósofo inglês, Samuel Johnson, que viveu no século 18, em Londres, entre várias frases e citações famosas, ficou mais conhecido pela máxima: “O patriotismo é o refúgio dos canalhas”. Aqui nos trópicos, um escritor com verve equivalente, o inesquecível Millôr Fernandes, foi rápido no gatilho e adaptou a máxima: “No Brasil, é o primeiro”. É de se lamentar que a interseção entre política e religião tenha sido refúgio de muitos canalhas. A história é plena de inúmeros registros de líderes espirituais e gurus nas mais variadas religiões ou seitas (católicas, cristãs, protestantes, pentecostais, hinduístas, budistas, muçulmanos ou judaísmo) que usaram Deus como “avalista” para construírem um império material com a crendice alheia. Jesus Cristo ganhou a ira dos sacerdotes judeus quando criticou “os vendilhões do templo” e os “fariseus”.

As máscaras estão caindo. Apesar dos riscos de contágio da Covid-19, que já tirou a vida de mais de 520 mil brasileiros, pelo negacionismo do governo em adotar medidas de isolamento e fazer campanhas pelo uso de máscaras, o povo tem saído às ruas. Cada dia mais revoltado com as atitudes do governo Bolsonaro. Por orientação presidencial, o governo retardou o máximo que pode a compra antecipada de vacinas de laboratórios de alta credibilidade. Ainda esta semana, o presidente da República procurou arranhar a credibilidade da CoronaVac, a primeira vacina aplicada no país. Mas, as investigações da CPI da Covid no Senado, revelam um empenho desmedido do governo, em especial dos militares que foram rechear os quadros do Ministério da Saúde na gestão do general Eduardo Pazuello, em fechar encomendas com claros sinais de superfaturamento.

Os indícios de que por trás das negociações, reveladas em 20 de março deste ano pelo deputado federal Luís Miranda (DEM-DF) e seu irmão, o funcionário concursado do Ministério da Saúde, Luís Ricardo Miranda, ao presidente Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, poderia estar sendo criada uma caixinha para a campanha da reeleição, em 2022 levaram a ministra do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber a determinar abertura de investigação e a Procuradoria Geral da República. O PGR, Augusto Aras, embora não querendo desagradar ao PR, pois almeja ser indicado para substituir no STF o ministro Marco Aurélio Mello, que se aposenta dia 12 ao atingir 75 anos, ou ser reconduzido para novo mandato de dois anos, à frente do órgão, não pode fazer corpo mole como de outras denúncias. Os indícios são gravíssimos: US$ 1,00 a mais em cada dose multiplicada por 400 milhões de doses da indiana Covaxin, do laboratório Bharat Biotech, daria um desvio de US$ 400 milhões, ou R$ 2 bilhões ao câmbio da última 6ª feira.

E se em 20 de março, ao ouvir a denúncia e exclamar “isso é mais um rolo do Ricardo Barros” (deputado do PP-PR e líder do governo na Câmara e ex-ministro da Saúde no governo Temer), o presidente da República não acionou a sua, quase sempre dócil Polícia Federal, depois que passou a controlá-la de perto com a demissão do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, em 23 de abril de 2020, por resistir à interferência para trocar os comandos da PF no Rio de Janeiro (onde seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, era investigado por “rachadinhas” em seu gabinete de deputado estadual na Alerj), Jair Bolsonaro pode ter incorrido em crime de prevaricação. Ele já confessou que alertou seu ministro da Saúde para as suspeitas na 2ª feira, 21 de março (ou seja, que foi sabedor de denúncia). Mas Pazuello, que estava fazendo a passagem dos comandos para o atual ministro Marcelo Queiroga e deixou o cargo dia 22, passou a denúncia para o secretário executivo, coronel Élcio Franco. Na cadeia de comando, quem estava na linha de frente da negociação suspeita era um outro militar. Um rolo fardado.

Lembro a frase de Samuel Johnson porque Jair Messias Bolsonaro, aproveitando-se do fato de que era militar (foi reformado por indisciplina nos anos 80, quando se candidatou a vereador pelo município do Rio de Janeiro, e depois exerceu diversos mandatos de deputado federal, mudando seguidamente de partidos, até ser eleito presidente pelo PSL, e de que o seu adversário era um candidato do PT, que tem a bandeira vermelha com um estrela branca como símbolo), se apropriou das cores da bandeira nacional. E ainda passou a adotar o lema “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. E a recitar versículos da Bíblia, dos apóstolos ou dos evangelistas, para seduzir o eleitorado evangélico e católico. O mais famoso foi o João 8:32 – “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Em boa hora, lideranças mais equilibradas e que já perceberam que a maior parte do eleitorado que votou em Bolsonaro em 2018, porque “não queria o PT”, agora se arrependeu - após dois anos e meios de fracassos e da absurda falta de empatia com o luto de milhões de famílias brasileiras e não quer Bolsonaro - não deixaram que o uso do verde-amarelo fosse monopólio dos bolsonaristas. O verde de amarelo é de todos os brasileiros.

Ninguém pode se arvorar dono do monopólio do patriotismo. Nem militares, nem apoiadores do presidente. E os que discordam dos rumos do país não podem ser colocados sob o chapéu do PT ou de partidos de esquerda. A defesa da democracia e dos direitos fundamentais da pessoa humana está acima da política e da religião. E há uma passagem lapidar em Êxodo 20:16 “Deus fala a verdade e nunca mente. A mentira desagrada a Deus. Por isso, não devemos mentir para outras pessoas nem para Deus. Apenas a verdade liberta. "Não darás falso testemunho contra o teu próximo”. E nada mais atual, para a semana que passou com a tentativa de montagem de um “Cavalo de Troia” na CPI do que os Provérbios 6:16-19: “Há seis coisas que o Senhor odeia, sete coisas que ele detesta: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que traça planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal, a testemunha falsa que espalha mentiras e aquele que provoca discórdia entre irmãos”.

Enquanto era a religião predominante desde a descoberta do Brasil, em 1500, o catolicismo sempre teve mais peso e influência política. E políticos de todos os matizes procuravam invocar o nome de Deus. Notório corrupto, em três gestões à frente do governo do Estado de São Paulo, entremeadas pelo cargo de alcaide da capital (1957 a 1961) Adhemar de Barros (interventor federal, de 1938 a 1941, depois eleito de 1947 a 1951 e novamente eleito de 1963 a 1966, quando foi cassado pelo regime militar e tomou posse seu vice, Laudo Natel), adotou o mote “Fé em Deus e Pé da Tábua” na campanha presidencial de 1955, na qual seu lema principal era “O Brasil precisa é de um gerente". Não colou: JK venceu, com 35% dos votos válidos, seguido dos 30% do candidato da UDN, o general Juarez Távora, apoiado por Jânio Quadros. Adhemar, que já fora da UDN, se candidatou pelo próprio partido (PSP) e ficou em 3º.

Com o avanço das seitas evangélicas a partir dos anos 80, a primeira eleição presidencial com voto direto, em 1989, após 21 anos de regime militar (1964-1985) e o interregno de cinco anos do mandato de Tancredo Neves, exercido pelo vice, José Sarney, teve forte influência da religião na decisão política. O candidato do PT, Luís Inácio da Silva (Lula) contava com o apoio das comunidades eclesiais de base, da Igreja Católica Progressista. A veiculação da tentativa de Lula de convencer a então namorada, Miriam Cordeiro, a abortar daquela que viria a ser sua primeira filha, Lurian, foi devidamente explorada para minar votos nos redutos católicos e inflar a rejeição a Lula entre os evangélicos. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, jogou pesado contra Lula. E o tabu em torno do aborto (tema que ainda divide a opinião pública brasileira três décadas depois) ajudou a eleger Collor de Mello. Desde então não parou de crescer a influência dos pastores na política. A Igreja Universal do Reino de Deus, depois que seus negócios com a Rede Record foram examinados pela Receita Federal, no governo FHC,deixou de fazer restrições a Lula em 2002 e conseguiu, em seu governo, suspender a ação. De lá até Bolsonaro, sempre esteve com o governo. No momento, há rusgas com o que a igreja do bispo Macedo julga a falta de empenho de Bolsonaro em acudir os bispos brasileiros da IURD expulsos pelo governo de Angola depois de perder o comando da IURD local para os religiosos angolanos. Na tentativa de buscar reaproximação com Edir Macedo, com quem posou ao receber a faixa presidencial, em 2919, Jair Bolsonaro indicou o ex-prefeito do Rio, Marcelo Crivella, para embaixador na vizinha África do Sul, de onde poderia fazer gestões pró IURD. Embora ex-senador, o pastor licenciado corre risco de não ter seu nome aprovado na sabatina do Senado.

O filão politico-religioso foi tão promissor – as igrejas não são obrigadas a prestar contas à Receita Federal e com isso podem fazer o duplo papel de fortes currais eleitorais e lavanderias de dinheiro obtido de forma fraudulenta e desviado de negócios públicos – que as seitas religiosas passaram a crescer na mesma proporção escandalosa como proliferam os partidos políticos no Brasil. Hoje são 33, a maioria meros tamboretes. Só menos da metade tem algum peso na Câmara e no Senado. Mas, nos pleitos seguintes, os pastores viraram cabos eleitorais cortejados. Políticos mais pragmáticos e envolvidos em denúncias de corrupção fizeram alianças com mais de uma dúzia de seitas (que chegam às centenas). Foi uma das estratégias do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) vencer a eleição para presidente da Câmara em 1º turno em 2015. De onde comandou o processo de “impeachment” contra a presidente Dilma Roussef, em 2016.

Sob o manto do moralismo, os pastores que criaram dissidências entre as igrejas evangélicas e aumentavam extraordinariamente seus patrimônios, valendo-se da frouxidão da lupa da Receita Federal sobre os negócios das seitas, já estão insulando os fiéis contra um nome novo que despontou entre os presidenciáveis do PSDB, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Eleito em 2018, ele desfilava abertamente na campanha com o namorado. Mas bastou esta semana, assumir, no “Programa do Bial”, tarde da noite, na Rede Globo, que era gay, indagado pelo apresentador Pedro Bial, para ser motivo de chacota do presidente Bolsonaro e admiradores. Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, o governador gaúcho reagiu: “O presidente é um imbecil. Onde está a tentativa de imposição de qualquer coisa para qualquer pessoa? Uma declaração sobre a minha orientação sexual. Não resta outra coisa a dizer senão que o presidente é um imbecil”, completou Leite, para quem a “eleição de Bolsonaro “foi um erro”, ante da opção de 2018. E acrescentou: “Não importar “discutir erros do passado, mas construir caminhos para o futuro”.

Algo mais contundente foi a resposta, em 2016, do então candidato Rafael Greca (PDT-PR) a prefeito de Curitiba, durante programa da Rede Mercosul quando um espectador lhe perguntou “Eu quero saber do Rafael Greca se ele é homossexual, bissexual ou assexual”. Ao ouvir o questionamento, Greca responde: “Que bobagem, isso! É uma grosseria até com os nossos telespectadores”. Sem demonstrar irritação, ele lembra que é casado com Margarita Sansone e afirma respeitar o outro: “Eu sou casado com a Margarita, sou uma pessoa que tem a sua vida estabelecida na cidade e tenho respeito por todas as pessoas”. Antes de terminar, no entanto, dá uma alfinetada inusitada: “Essa pergunta só teria sentido se eu governasse com a bunda, mas como eu vou governar com a cabeça, é uma bobagem!“. “Você me dirige um desaforo porque com certeza não tem argumento para rebater aquilo que eu estou dizendo”, completa ele, já mais exaltado.



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